Capítulo 3 Ruptura
(Dias Atuais)
Com o coração apertado, eu contava os dias para o momento em que minha loba finalmente apareceria e me levaria ao meu companheiro, aquele destinado pela Deusa.
No entanto, dois anos de espera e silêncio me fizeram duvidar de que isso um dia aconteceria.
Dentro de alguns dias, a coroação de Martín como o novo alfa aconteceria, e coincidentemente, seria no mesmo dia em que eu completaria dezoito anos. Meu décimo oitavo aniversário.
A idade em que, normalmente, nosso lobo ouviria o chamado de nosso companheiro, aquele destinado pela Deusa da Lua a completar nossa alma.
No entanto, todos afirmavam que, para isso acontecer, eu precisava ter uma loba. Afinal, o evento era exatamente uma caçada pelo seu companheiro, com todos transformados em seus lobos.
Se seu companheiro pertencesse àquela alcateia, algo que não possuía garantias, seu lobo o levaria até ele por meio da linha invisível que existia entre vocês e, dessa forma, ambos se conectariam.
Desde aquele fatídico dia em que não me transformei, a dúvida me corroía.
E se eu nunca encontrasse meu companheiro?
E se minha loba nunca aparecesse?
Às vezes, eu me perguntava se a Deusa tinha me esquecido ou, pior, me rejeitado.
Tenho que confessar que não perdi a esperança de conhecer quem seria meu companheiro e torcia para que ele me salvasse do inferno em que minha vida havia se tornado.
Eu orava à Deusa constantemente para que ela me presenteasse com essa dádiva, mesmo ainda sem possuir minha loba.
Desejava, veementemente, que ele fosse um lobo de outra alcateia, bem distante desta onde eu vivia, e que jamais eu precisasse voltar para este lugar.
Aravelle não era um lugar ruim. Ruim eram a maioria dos jovens que viviam aqui.
Minha mãe era a única cozinheira profissional de nossa alcateia. Com tanto trabalho devido ao evento de coroação do novo alfa, ela decidiu ir até o centro urbano comprar mais alimentos.
Para mim, isso era como passear no shopping, e eu adorava esse tipo de programa. Muitas vezes passávamos o dia inteiro entrando e saindo de mercados, até que minha mãe conseguisse comprar tudo o que desejava.
Meu pai nos acompanhava para ajudá-la com as compras que, devo admitir, não eram poucas.
Quando ela terminava o que tinha que fazer, eu me sentia realizada. Era uma tarde inteira sem sofrer nenhum tipo de perseguição ou bullying.
Enviei uma mensagem com uma foto minha diante da vitrine da loja de cosméticos Jazz para Maitê, uma garota humana com quem havia construído, de forma improvável, uma amizade.
Ela sempre elogiava os produtos daquela marca.
(Maitê): “Não posso acreditar que você foi sem mim”
(Aisha): “Minha mãe precisou vir até o centro para comprar algumas mercadorias, e eu a acompanhei”
Meus pais não sabiam dessa minha amizade. Afinal, havia um decreto que nos proibia de criar esse tipo de laço.
Poderíamos conviver pacificamente, mas nunca criar vínculos com humanos, exceto se esse humano fosse nosso companheiro.
Precisávamos, a todo custo, manter em sigilo o que éramos.
Ter uma amizade com uma humana era arriscar a revelação desse segredo. Afinal, os lobos eram muito voláteis. Em um acesso de raiva, a transformação poderia ocorrer e tudo seria revelado.
Nesse dia, Maitê estava se programando para ir à boate Night Club. Haveria um show de uma banda de que ela gostava muito e, mais uma vez, me convidou para ir com ela. No entanto, a única boate que eu podia frequentar, humanos eram proibidos de entrar.
Mais uma vez, me desculpei e disse que ficaria para uma próxima oportunidade, mesmo sabendo que essa próxima nunca existiria.
Meus pais jamais permitiriam que eu fosse a uma boate de humanos, acompanhada por uma amiga cuja existência eles sequer conheciam.
Quando estávamos voltando, meu irmão pegou uma carona conosco. Ele havia saído mais cedo do trabalho.
Não tinha do que reclamar da minha família. Tinha pais amorosos e um irmão que sempre me protegia quando podia, e isso aconteceu muitas vezes.
A viagem de volta para casa era longa.
Tínhamos um grande percurso pela frente e metade de uma floresta para atravessar. Mas, ao adentrarmos a mata, um dos pneus estourou, e o silêncio naquele lugar pareceu ficar ainda mais pesado.
Havia algo de errado, algo que eu não conseguia nomear.
Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, um grito rompeu o silêncio, reverberando pela floresta densa. Era um som agudo, capaz de fazer o sangue gelar e a respiração parar.
A escuridão ao redor parecia ganhar vida, como se sombras invisíveis estivessem nos espreitando.
Nesse momento, todos nós observamos nosso entorno. Mesmo não sendo uma loba, um frio percorreu minha espinha, deixando-me completamente arrepiada.
Meu pai e meu irmão prepararam-se para descer.
— Vocês estão loucos? Nós não sabemos o que está acontecendo — disse, desesperada.
— Exatamente por isso que precisamos descer, Aisha. Pode ser algum dos lobos de nossa alcateia precisando de ajuda — meu irmão tentou se justificar.
— Fiquem no carro e não abram as portas. Nós vamos verificar o que está acontecendo — meu pai ordenou a mim e à minha mãe.
Eles desceram, e meu coração se apertou. Estava escuro, e eu não possuía as habilidades de um lobo. Não conseguia enxergar muita coisa a certa distância. Mas sabia que esse não era o caso deles.
Minha mãe parecia apreensiva no banco da frente e acompanhava, sem sequer piscar, os passos do meu pai e de meu irmão enquanto adentravam a floresta.
Parecia que, quando estávamos nervosas, os minutos se transformavam em horas, e eu já estava quase descendo do carro para ir atrás deles.
Eu sabia que eram lobos. A força e a velocidade que possuíam eram muito maiores que as de um humano comum. Sua visão e seu olfato também eram muito mais apurados. Ainda assim, era imprudente sair daquela forma sem saber o que havia naquela floresta, especialmente depois dos gritos que escutamos.
Era sufocante... a impotência de não ser capaz de fazer nada. Se ao menos minha loba tivesse aparecido. Se ao menos eu pudesse ser como eles. Naquele momento, eu daria qualquer coisa para deixar de ser apenas uma espectadora.
Mas tudo o que eu tinha era a escuridão, o medo e a incapacidade de fazer qualquer coisa além de esperar.
Passei um período desconfiada de que meus pais escondiam algo de mim sobre o motivo de não ter me transformado, mas, com o passar dos meses, concluí que seriam incapazes de ocultar uma informação tão importante.
Quando coloquei a mão na maçaneta para abrir a porta do carro e descer, escutamos barulhos vindos da direção que eles haviam seguido.
