Capítulo 4 Orfandade

Tentei enxergar através daquele breu, mas não conseguia distinguir muita coisa.

Então, de repente, ouvimos os gritos do meu irmão.

— Corram… Saiam do carro e corram! — Collin gritou.

— É o Collin, Aisha. Ele parece precisar de ajuda. Faça o que seu irmão disse. Desça do carro e corra para a alcateia o mais rápido que puder. Vou ajudá-los. 

— Mas, mamãe… — tentei argumentar.

— Corra, Aisha, corra! — a voz da minha mãe falhou por um instante antes de endurecer. Seus olhos encontraram os meus, cheios de uma dor que ela tentava esconder. — Eu te amo. Agora vai. Vai!

 Ela desceu do carro, já em meio à transformação, e desapareceu na escuridão da floresta.

As palavras dela ecoavam na minha mente enquanto eu lutava contra o pânico que crescia.

Correr.

Fugir.

Sobreviver.

Mas algo me puxava para trás.

O som de um rosnado familiar, seguido por um grito que congelou minha alma: o grito do meu irmão.

Eu sabia que deveria correr, mas meus pés estavam presos ao chão, como se algo invisível me ancorasse ali, incapaz de deixar minha família para trás.

Sabia que eu não tinha como ajudá-los, pois não possuía uma loba. Então, naquele momento, algo despertou em minha mente, e fiz exatamente o que me orientaram a fazer.

Corri como nunca havia corrido antes. Pediria ajuda assim que chegasse à alcateia.

Sentia os músculos das pernas chegando ao seu limite, mas não diminuí o ritmo. Graças ao bullying que sofria de um grupo restrito de lobos, havia desenvolvido uma resistência maior para correr.

Meu desespero era pensar que talvez fosse tarde demais para minha família, mas eu não desistiria de tentar.

Tinha certeza de que, se tivesse minha loba, conseguiria chegar mais rápido até nossos guerreiros, e isso me enfurecia.

Assim que entrei em nossos limites, comecei a gritar.

Rapidamente, alguns guerreiros se aproximaram para verificar o que estava acontecendo. Ainda recuperando o fôlego, tentei explicar rapidamente o que havia acontecido.

Eles soaram o alerta e saíram em disparada para o local que indiquei. Eu estava tremendo devido a todo o esforço que fiz e ao medo de que o pior tivesse acontecido com minha família.

Uma picape com mais homens, liderados pelo beta, seguiu em direção ao local onde o carro de minha família havia ficado.

Rapidamente, luna Callie, alfa Joseph e Martín apareceram ao meu lado, enquanto eu olhava fixamente para a entrada de nossa alcateia. Tinha certeza de que o alfa e sua família já sabiam o que havia acontecido.

Eles eram lobos e possuíam o que chamavam de elo mental, uma forma de se comunicar mentalmente com os membros da alcateia. Eu era a única pessoa dali que não tinha essa vantagem, então me sentia completamente no escuro, sem informação alguma.

— Quer entrar comigo e tomar um chá, criança? Você pode esperar lá dentro de nossa casa — ofereceu a luna.

Neguei. Estava nervosa demais para isso.

— Como isso aconteceu? Você não viu quem atacou sua família? — Martín perguntou, encarando-me.

Mais uma vez, neguei.

Depois do que pareceu uma eternidade, os primeiros guerreiros chegaram, e estava ansiosa pelas informações que poderiam fornecer.

No entanto, um deles apenas olhou para o alfa e fez um leve aceno negativo com a cabeça.

O que aquilo significava?

Eles não encontraram o local exato?

Como lobos não conseguiram farejar?

Preparei-me para voltar até o local onde tudo havia acontecido, mas a picape que havia partido com outros guerreiros retornou, seguida pelo carro da minha família.

Senti um enorme alívio, mas ele desapareceu no instante em que percebi que quem dirigia o carro não era ninguém da minha família, e sim outro guerreiro de nossa alcateia.

O beta desceu da picape e, naquele momento, senti os braços da luna Callie, mãe do Martín, envolverem-me em um abraço.

Olhei para cada um deles, tentando entender, porque nada fazia sentido para mim.

— Querida, sentimos muito! — disse ela, apertando-me ainda mais contra seu corpo.

Olhei o rosto do alfa Joseph e percebi que sua expressão era de dor. No entanto, eu não entendia o motivo.

— O que aconteceu? Onde está minha família? — perguntei, cada vez mais desesperada.

— Chegamos tarde demais até eles, garota. Sinto muito! — disse o beta Elijah.

— O que você quer dizer com isso? Como assim “tarde demais”? Corri o mais rápido que pude até aqui, e nem demorou tanto — continuei encarando-o, sem acreditar.

O cheiro espesso de sangue encheu minhas narinas antes mesmo de eu ver os corpos.

O ar estava impregnado por um odor metálico, denso, quase sufocante, e meu estômago se revirou.

Então, observei outros guerreiros retirando da parte traseira da picape os corpos da minha família e de outra pessoa que eu não sabia quem era.

Meus olhos, frenéticos, procuravam algum sinal de vida, qualquer movimento… mas só havia morte.

Corri até o corpo do meu irmão.

Seu rosto estava pálido.

Seu peito não se movia.

Toquei sua pele fria, recusando-me a aceitar aquela verdade.

Caí de joelhos, sacudindo seu corpo inerte.

— Acorda! — gritei, com a voz embargada. — Por favor…

Mas o frio do sangue em minhas mãos me dizia aquilo em que eu me recusava a acreditar.

Eles estavam mortos. Meu irmão. Minha mãe. Meu pai. Minha família inteira.

Senti braços fortes me segurando e me puxando para longe dali.

Gritei desesperada, recusando-me a aceitar aquilo.

Caí no chão, e o peso do mundo pareceu me esmagar.

O som do meu próprio choro ecoava no vazio.

E então, só havia o silêncio… e a escuridão.

Eu já não conseguia enxergar, nem escutar, muito menos sentir qualquer coisa.

Se ao menos eu tivesse minha loba… eu poderia ter corrido mais rápido, poderia ter sentido o perigo antes.

Talvez pudesse tê-los salvado.

A culpa me esmagava, sufocando-me, e, por um momento, desejei ter sido eu no lugar deles.  

Ouvi as risadas assim que desci do ônibus vindo da faculdade.

Sabia que eles estavam ali me esperando, mas não por um bom motivo.

Aquilo já estava virando rotina, e comecei a desejar não fazer mais parte daquela alcateia.

Passei por eles e todos se calaram. Sabia que estavam apenas esperando por mim para que a diversão, pelo menos para eles, começasse.

— Preparada para correr, esquisita? — Kathy perguntou, aproximando-se de mim.

— Por que você não me deixa em paz? — retruquei.

— Temos uma surpresa especial para você hoje. — James completou.

— Como vamos te deixar em paz, se você é a parte divertida do nosso dia? — Black perguntou próximo ao meu ouvido.

— Você não tem vergonha de serem tão cruéis? — perguntei, mas sabia que isso não fazia diferença alguma para eles.

A expressão “surpresa especial” fez meu coração falhar uma batida.

O que eles planejavam dessa vez?

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