Capítulo 5 Pesadelo

Minha mente correu por possibilidades sombrias, e o pânico começou a apertar meu peito.

Olhei ao redor, tentando calcular uma rota de fuga, mas sabia que era inútil.

Eles sempre me encontravam.

Como predadores caçando sua presa.

Assim que entrei na floresta, não esperei pelos comandos que sabia que viriam e comecei a correr.

Atravessei a mata sem pensar.

Em determinado momento, minhas pernas começaram a doer, e algumas vezes pensei que meu fôlego fosse acabar.

Sentia o suor escorrer pelo meu rosto e pelas minhas costas.

Meus cabelos ruivos e cacheados grudavam em minha pele, e eu tentava afastá-los.

Parei por um instante para recuperar o fôlego, mas logo vi um deles se aproximando pela lateral. Tive que mudar a direção e continuar correndo.

Eles estavam cada vez mais próximos, e eu tentei olhar para trás para verificar a distância que nos separava.

Foi tudo de que precisavam.

No passo seguinte, já não senti mais o chão sob meus pés.

Caí em um buraco profundo o suficiente para me cobrir quase por completo e fiquei totalmente coberta de lama.

No lugar dos rosnados, escutava agora risadas.

Quando olhei para cima, todos estavam ali.

Inclusive Martín.

Como sempre, apenas observando.

Martín, o filho do alfa.

Aquele que deveria me proteger.

Permanecia em silêncio.

Seus olhos fixos em mim, mas sua boca jamais pronunciava uma palavra em minha defesa.

Havia uma tensão em seu olhar, como se ele quisesse dizer alguma coisa, mas fosse impedido por algo maior…

Ou talvez simplesmente não se importasse.

— Voltamos para te buscar amanhã, esquisita. — Kathy disse, entre risos.

— Espero que você goste da noite estrelada, porque este é o cardápio de hoje. — Black debochou.

Eu tentava desesperadamente sair daquele buraco, mas, quanto mais eu me esforçava, mais a lama cedia sob meus pés, fazendo-me afundar.

O ar começou a faltar.

Aquela sensação de sufocamento tomou conta de mim, até que abri os olhos, e a luz fraca do meu quarto me cegou por alguns segundos.

Havia finalmente despertado do pesadelo.

Estava no meu quarto e nem sabia como havia chegado ali. 

Os dias que se seguiram foram um borrão de dor e silêncio. Eu não comia, não falava... apenas sobrevivia.

As risadas e o burburinho da alcateia ao redor pareciam pertencer a outro mundo, um mundo que eu já não conseguia alcançar. Não havia mais nada dentro de mim. Apenas o vazio.

Durante os últimos dois anos, eu havia sido a piada da maior parte da matilha. No começo, os comentários me incomodavam; eu sentia vergonha.

Depois, quando perceberam que suas palavras já não me atingiam como antes, passaram a agir de forma ainda mais cruel. As provocações se transformaram em maldades e, quando me dei conta, a humilhação fazia parte da minha rotina.

Eu me perguntava o que aconteceria comigo agora, depois de enterrar as únicas pessoas que realmente se importavam comigo. Mas não havia resposta.

Imaginei que, após a tragédia que destruiu minha família, a caçada e a festa em celebração ao novo alfa, marcadas para o dia do meu aniversário, seriam ao menos adiadas.

Ninguém sabia ao certo o que havia matado meus familiares.

Alguns comentavam que o responsável poderia ser um lycan, devido à brutalidade dos ferimentos, mas nada havia sido confirmado.

Quanto à caçada e à festa... a vida da alcateia não podia parar “simplesmente” porque minha família morreu. Tudo precisava seguir seu curso.

Foi isso que ouvi durante a primeira semana após o enterro dos meus entes queridos.

Mas quer saber?

Eu não dava a mínima para aquela festa idiota. Nem sequer tinha certeza de que queria permanecer ali.

Jamais declararia lealdade a alguém que nunca fez nada para mudar minha situação.

Um alfa de verdade protege sua alcateia.

Martín sempre esteve presente durante todas as humilhações que sofri. Fazia parte daquele grupo. Mesmo sem participar diretamente das agressões, nunca moveu um dedo para impedi-las.

Seus amigos cometiam atrocidades, e ele apenas assistia.

No dia de sua coroação, três semanas após a tragédia que matou minha família, permaneci em casa, remoendo todos os comentários que surgiram sobre a morte deles. Aproveitei para limpar meu quarto, numa tentativa inútil de ocupar a mente.

Não conseguia entender o que um lycan estaria fazendo em nossas terras, caso aquela história fosse realmente verdadeira.

Os lycans eram muito mais evoluídos do que nós, lobos. Mais rápidos. Mais fortes. Mais cruéis. Muito mais frios.

Mas eu nunca havia ouvido falar de um deles em uma região tão distante quanto a nossa.

Se o alfa realmente acreditasse que um lycan estivesse envolvido, teria a obrigação de comunicar o rei. E eu tinha quase certeza de que Martín não se daria a esse trabalho.

Afinal, quem perderia tempo buscando justiça para uma garota como eu?

Ainda assim, eu precisava saber a verdade.

Queria que o responsável pela minha dor fosse encontrado.

E, se realmente tivesse sido um lycan, ele precisava ser detido antes que outra família fosse destruída da mesma forma.

Olhei para o relógio. Já passava da meia-noite, o que significava que Martín havia sido oficialmente declarado o novo alfa, e a caçada já estava em andamento.

Eu, uma simples loba que jamais conseguiu se transformar, não havia prestado juramento de lealdade a ele. E não estava nem um pouco preocupada com as consequências.

Observei a pequena sala ao meu redor e me perguntei se não havia chegado a hora de partir. Deixar tudo para trás. Recomeçar em outro lugar.

Sabia que seria difícil alguma alcateia me aceitar. Eu não possuía uma loba, portanto não poderia contribuir com uma matilha.

Mas nada me impedia de viver como uma humana.

Maitê entrou em contato comigo assim que soube da morte da minha família em um “trágico acidente de carro”. Foi essa a explicação que o alfa deu para justificar minha ausência na faculdade.

Ela insistiu para saber meu endereço e poder me visitar, mas expliquei que morava de favor na propriedade de uma família muito rica que não permitia visitas, nem mesmo em momentos como aquele.

Apesar da revolta, ela aceitou minha desculpa e passou horas ao telefone tentando me consolar.

Minha amiga era dois anos mais velha do que eu. Morava sozinha em um apartamento pago pelos pais, que passavam mais tempo viajando do que ao lado da própria filha.

Ela costumava dizer que sentia inveja do carinho que minha família tinha por mim. Nós até ríamos disso. Agora, essa lembrança apenas aumentava minha dor.

Diante de tudo o que aconteceu, ela me convidou para passar um tempo em seu apartamento.

Naquele momento, eu considerava seriamente aceitar. Talvez conseguisse um emprego de meio período para me sustentar e, enfim, construir uma vida longe dali.

Eu ponderava todas essas possibilidades quando ouvi batidas na porta. Um arrepio percorreu minha espinha, eriçando todos os pelos do meu corpo.

Quem poderia ser?

As batidas se repetiram, mais fortes.

Logo em seguida, ouvi meu nome ser chamado por uma voz que eu conhecia muito bem.

Respirei fundo antes de abrir a porta.

— Por que você não foi fazer seu juramento de lealdade a mim? — perguntou Martín, o novo alfa, assim que me viu.

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