Capítulo 5 Capítulo 5
Sophie
Naquela manhã, eu acordei decidida a ter um dia normal.
Nada de discussões com vizinhos.
Nada de bilhetes.
Nada de situações constrangedoras no corredor.
Nada de homens irritantemente bonitos me olhando como se eu tivesse acabado de invadir o território deles.
Eu queria apenas trabalhar, voltar para casa e ter uma noite tranquila.
Era um plano simples.
Quase inocente.
E, olhando em retrospecto, talvez eu devesse ter desconfiado justamente por isso.
Planos simples nunca funcionavam comigo.
Abri os olhos antes mesmo de o despertador tocar e fiquei alguns segundos encarando o teto branco do quarto.
A luz da manhã atravessava parcialmente as cortinas, criando faixas claras sobre a parede. O apartamento ainda tinha aquele cheiro característico de lugar recém-ocupado: madeira nova, caixas de papelão, produtos de limpeza e alguma coisa que eu não sabia identificar.
Era estranho pensar que, poucos dias antes, aquele quarto não significava nada para mim.
Agora, porém, era meu.
Meu quarto.
Minha cama.
Meu teto.
Minha casa.
A sensação ainda era nova demais para parecer completamente real.
Virei o rosto para o lado.
Biscoito dormia aos meus pés, ocupando um espaço muito maior do que seu tamanho permitia. Ele tinha desenvolvido aquela habilidade misteriosa de se espalhar pela cama durante a noite e, de alguma maneira, sempre terminava com metade do corpo atravessado sobre minhas pernas.
— Você sabe que essa cama é minha, não sabe?
Ele abriu um olho.
Fiquei olhando para ele.
— Não se faça de desentendido.
Biscoito fechou o olho novamente.
— Claro.
Puxei devagar uma das pernas, tentando recuperar meu espaço.
Ele se mexeu.
Empurrei-o alguns centímetros.
Ele se acomodou novamente.
— Inacreditável.
Peguei o celular sobre o criado-mudo.
Havia uma mensagem de Bryan.
Sorri antes mesmo de abrir.
Bom dia, dorminhoca.
Meu sorriso aumentou.
Digitei:
Bom dia.
A resposta veio quase imediatamente.
Como está a guerra?
Franzi a testa.
Que guerra?
Três pontinhos apareceram na tela.
Você e seu vizinho.
Revirei os olhos.
Não existe guerra.
A resposta veio segundos depois.
Você me contou que ele deixou um bilhete reclamando da nossa conversa.
Isso foi uma discussão diplomática.
Claro.
Muito civilizada.
Você respondeu?
Olhei para a tela.
Hesitei.
Talvez.
Sophie.
O quê?
O que você escreveu?
Sorri.
Nada demais.
Essa resposta me preocupa.
Ri sozinha.
Não precisa se preocupar.
Está bem. Mas se eu receber outro bilhete, vou considerar uma declaração oficial de guerra.
Você é ridículo.
A resposta veio imediatamente.
Seu ridículo.
Meu peito ficou quente.
Era impossível não sorrir quando Bryan falava daquele jeito.
Nosso relacionamento tinha uma leveza que eu valorizava muito. Ele sabia como me fazer rir mesmo quando eu estava irritada. Sabia quando insistir e quando simplesmente ficar ao meu lado. Conhecia minhas manias, meus gostos, meus medos e até a quantidade exata de açúcar que eu colocava no café.
Era confortável.
Seguro.
Eu gostava disso.
Vou me arrumar.
Tenha um bom dia. Te amo.
Meu sorriso ficou mais suave.
Também te amo.
Coloquei o celular sobre o criado-mudo e finalmente saí da cama.
Biscoito levantou no mesmo instante.
— Você ouviu "bom dia" e entendeu "hora da comida", não foi?
Ele me seguiu até a cozinha.
— Você é previsível.
Abri o armário, peguei a ração e coloquei uma quantidade no pote.
Biscoito começou a abanar o rabo.
— Não faça essa cara.
Ele continuou.
— Você já comeu ontem.
A expressão dele pareceu ainda mais dramática.
— Não.
Rabo abanando.
— Nem adianta.
Mais rabo.
— Você já tomou café da manhã.
Ele inclinou a cabeça.
— Não.
Um pequeno gemido escapou de sua garganta.
— Biscoito...
Outro gemido.
Suspirei.
— Está bem. Mas essa é a última vez.
Ele correu para o pote.
Fiquei observando enquanto ele devorava a comida.
— Você é muito manipulador.
Terminei de preparar meu café e me sentei à pequena mesa próxima à janela.
A manhã estava bonita.
O céu tinha aquela tonalidade azul clara que fazia tudo parecer mais tranquilo do que realmente era. Do lado de fora, algumas pessoas caminhavam pela calçada, carros passavam lentamente e o movimento da cidade começava a aumentar.
Bebi um gole do café.
O apartamento começava a parecer realmente habitado.
Ainda havia algumas caixas espalhadas, mas a maior parte das coisas já estava no lugar. As plantas estavam posicionadas perto das janelas, os livros ocupavam metade da estante e as fotografias estavam apoiadas sobre um móvel enquanto eu decidia onde pendurá-las.
Uma fotografia minha e de Bryan durante uma viagem chamou minha atenção.
Nós dois estávamos sorrindo.
Eu lembrava daquele dia.
Tínhamos nos perdido por quase duas horas tentando encontrar um restaurante que alguém havia recomendado.
No fim, acabamos comendo em uma lanchonete pequena e barata.
E foi uma das melhores noites que tivemos.
Sorri.
Era exatamente aquilo que eu queria para aquela nova fase.
Uma vida simples.
Trabalho.
Meu apartamento.
Biscoito.
Bryan.
Alguns amigos.
Talvez viagens.
Talvez planos maiores no futuro.
Eu gostava da sensação de liberdade.
Gostava de poder acordar e escolher o que fazer.
Gostava de saber que, se quisesse pintar uma parede de amarelo, ninguém poderia aparecer para dizer que não.
O único detalhe inconveniente era o vizinho.
Julian.
O homem que parecia ter feito algum tipo de pacto sobrenatural para conseguir me encontrar sempre que eu estava tentando ter um dia tranquilo.
Eu ainda não entendia exatamente por que ele me incomodava tanto.
Talvez fosse o jeito como ele me olhava.
Talvez fosse aquela expressão permanentemente séria.
Ou talvez fosse o fato de que ele era absurdamente bonito.
Bonito demais.
Daqueles homens que pareciam ter sido desenhados para aparecer em capas de revistas.
E isso era irritante.
Homens desagradáveis deveriam ter alguma regra universal impedindo que fossem tão bonitos.
Seria muito mais fácil odiá-lo se ele tivesse uma aparência comum.
Peguei minha bolsa.
Biscoito veio atrás de mim.
— Você fica.
Ele sentou.
— Eu volto no fim da tarde.
Ele continuou me olhando.
— Não faça essa cara.
A cabeça dele baixou.
— Biscoito.
Ele suspirou.
— Você é um péssimo ator.
Abri a porta.
E parei.
Meu olhar foi direto para o centro dela.
Havia outro papel.
Outro maldito bilhete.
Fiquei imóvel.
— Não.
Biscoito apareceu atrás de mim.
Olhei para ele.
Depois para o papel.
— Não.
Peguei o bilhete.
Dessa vez, nem precisei abrir para saber de quem era.
A letra era a mesma.
Firme.
Organizada.
Impecavelmente alinhada.
Respirei fundo.
— Ele não fez isso.
Abri.
Li.
E minha boca se abriu lentamente.
Sophie,
o cheiro da comida que você preparou ontem ficou por todo o corredor e entrou no meu apartamento. Peço que tenha mais cuidado com isso. O cheiro estava extremamente forte e tornou impossível manter as janelas abertas.
Não estou pedindo que você deixe de cozinhar, mas seria bom considerar que existem outras pessoas no prédio.
Julian.
Fiquei olhando para o papel.
Silêncio.
Biscoito olhou para mim.
Depois para o bilhete.
Depois para mim novamente.
— Você está vendo isso?
Ele abanou o rabo.
— Ele está reclamando da comida.
Biscoito inclinou a cabeça.
— Não do barulho.
Ele piscou.
— Não.
— Não de uma festa.
— Não.
— Da comida.
Olhei para a cozinha.
Depois para o corredor.
Depois novamente para o papel.
— Ele está reclamando do cheiro da comida.
Biscoito sentou.
— Isso é novo.
Eu deveria ter ignorado.
Era o que uma pessoa sensata faria.
Pegaria o bilhete, jogaria no lixo e seguiria para o trabalho.
Mas eu nunca tinha sido particularmente sensata quando estava irritada.
Entrei novamente no apartamento.
Peguei uma caneta.
Biscoito me acompanhou.
— Não olha para mim assim.
Ele continuou olhando.
— Eu não vou escrever outro bilhete.
Parei.
Olhei para o papel.
— Talvez só uma resposta curta.
Puxei outro pedaço de papel.
A caneta tocou a superfície.
Bom dia para você também.
Parei.
Pensei.
Sorri.
— Muito bom.
Continuei.
Fico feliz em saber que meu jantar teve tanto alcance.
Li a frase.
Meu sorriso aumentou.
— Perfeito.
Continuei escrevendo.
A comida estava dentro do meu apartamento, onde acredito que seja permitido cozinhar.
Inclinei a cabeça.
Talvez estivesse sendo um pouco provocadora.
Mas ele merecia.
Continuei.
Se o cheiro incomodou, sugiro fechar a janela ou usar algum produto para neutralizar odores.
Parei novamente.
Não pretendo parar de cozinhar para evitar que meu vizinho sinta cheiro de comida.
E, por fim:
Boa sorte na próxima refeição.
Sophie.
Li tudo.
— Perfeito.
Biscoito abanou o rabo.
— Obrigada pela aprovação.
Saí do apartamento e atravessei o corredor.
A porta de Julian ficava alguns metros à frente.
Parei diante dela.
Por um segundo, pensei em desistir.
Então colei o bilhete.
Dei dois passos para trás.
Observei.
— Espero que ele goste.
Voltei para o elevador.
Quando as portas se fecharam, comecei a rir.
Talvez fosse absurdo.
Provavelmente era.
Mas havia alguma coisa engraçada em pensar que um homem adulto estava tendo uma guerra particular comigo por causa do cheiro da minha comida.
Eu deveria estar preocupada.
Em vez disso, estava divertindo-me.
Talvez fosse esse o problema.
Eu estava começando a achar aquilo divertido demais.
---
No jornal, eu ainda estava sorrindo quando cheguei à minha mesa.
Clara percebeu imediatamente.
Ela tinha o talento irritante de perceber qualquer mudança no meu humor.
— O que aconteceu?
— Nada.
Ela estreitou os olhos.
— Você está com aquela cara.
— Que cara?
— Cara de quem fez alguma coisa que não deveria.
Coloquei a bolsa no chão.
— Meu vizinho deixou outro bilhete.
Ela arregalou os olhos.
— De novo?
— De novo.
— O que foi agora?
— O cheiro da comida.
Ela ficou em silêncio.
Piscou.
Depois piscou novamente.
— Desculpa.
— O quê?
— Estou tentando entender.
— Ele reclamou que o cheiro da comida entrou no apartamento dele.
Clara começou a rir.
— Não.
— Sim.
— Você está falando sério?
— Infelizmente.
— O que você estava cozinhando?
— Frango ao molho.
Ela riu ainda mais.
— E ele sentiu?
— Pelo jeito.
— Sophie, você está morando ao lado de um homem com nariz de cachorro.
— Não sei o que ele tem.
— Talvez seja alérgico à comida.
— Talvez seja alérgico à felicidade.
Clara apoiou as mãos sobre a mesa, tentando controlar o riso.
— E o que você respondeu?
— Nada.
Ela me encarou.
— Sophie.
— Está bem.
Peguei o celular e mostrei a fotografia que tinha tirado do bilhete antes de amassá-lo.
Ela leu.
Depois começou a rir tão alto que algumas pessoas olharam em nossa direção.
— Você escreveu "fico feliz em saber que meu jantar teve tanto alcance"?
— Sim.
— Você é horrível.
— Ele começou.
Ela continuou lendo.
— E "boa sorte na próxima refeição"?
— Também.
— Eu quero conhecer esse homem.
— Não recomendo.
— Ele é bonito?
Fiz uma pausa.
Esse era o tipo de pergunta que eu deveria responder sem hesitação.
Mas hesitei.
— Infelizmente.
Clara abriu um sorriso.
— Ah.
Ela assentiu como se tudo fizesse sentido.
— Então talvez eu recomende.
— Não.
— Só quero ver o motivo de tanta irritação.
— O motivo é que ele é insuportável.
— E bonito.
— Sim.
— Perigoso.
— Muito.
— E você está pensando nele.
— Não estou.
Ela sorriu.
— Está.
— Não estou.
— Está sim.
— Clara.
— Está bem.
Ela voltou para a própria mesa.
Eu sentei.
Abri o computador.
Tentei trabalhar.
E consegui.
Por aproximadamente dez minutos.
Até perceber que estava pensando no bilhete.
Não na reclamação em si.
No jeito como ele escrevia.
A letra era firme.
Organizada.
Quase elegante.
Isso me irritou ainda mais.
Por que eu estava reparando nisso?
Eu não gostava dele.
Não gostava da maneira como me encarava.
Não gostava dos bilhetes.
Não gostava da maneira como parecia estar sempre aparecendo.
E certamente não gostava do fato de ele ser tão bonito.
O que era, sinceramente, uma injustiça.
Homens desagradáveis deveriam ser obrigados por alguma lei universal a ter uma aparência igualmente desagradável.
Não era justo alguém ter aquele rosto e ainda ser irritante.
Meu celular vibrou.
Era Bryan.
Almoça comigo hoje?
Sorri.
Claro.
Vou buscar você.
Está bem.
Voltei ao trabalho.
Dessa vez, consegui me concentrar.
---
Bryan apareceu pouco depois do meio-dia.
Quando o vi entrando pela recepção do jornal, senti aquele pequeno alívio que sempre aparecia quando ele chegava.
Ele abriu os braços.
— Oi.
Fui até ele.
— Oi.
Ele me abraçou e beijou minha testa.
— Como está?
— Melhor agora.
— Bom.
Ele segurou minha mão.
— Vamos?
— Vamos.
Entramos no carro.
Assim que coloquei o cinto, olhei para ele.
— Para onde?
— É surpresa.
— Não.
Ele riu.
— Sim.
— Bryan.
— Confia em mim.
— Essa frase sempre termina mal.
— Hoje não.
Acabamos em um pequeno restaurante perto do jornal.
O lugar era simples, mas aconchegante. Havia poucas mesas, plantas próximas às janelas e o cheiro delicioso de comida recém-preparada.
Durante o almoço, contei a ele sobre o novo bilhete.
Bryan ficou em silêncio por alguns segundos.
— Ele reclamou do cheiro?
— Sim.
— Da comida?
— Sim.
— O que você estava fazendo?
— Frango.
Ele balançou a cabeça.
— Então ele tem problemas.
— Eu sei.
— Você respondeu?
— Talvez.
Ele me olhou.
— O que você escreveu?
— Não importa.
— Sophie.
— Eu fui educada.
Bryan arqueou uma sobrancelha.
— Isso significa que você foi sarcástica.
— Um pouco.
— Quanto?
— O suficiente.
Ele começou a rir.
— Você vai acabar brigando com esse homem.
— Eu não quero brigar com ele.
— Parece que já está brigando.
— Ele que está começando.
Bryan pegou minha mão sobre a mesa.
— Não deixa isso estragar sua mudança.
Olhei para ele.
— Não vai.
— Promete?
— Prometo.
Ele apertou meus dedos.
— Então está tudo bem.
Sorri.
Era por isso que eu gostava tanto dele.
Bryan nunca tentava transformar meus pequenos problemas em grandes tragédias. Ele simplesmente me lembrava de que eu tinha coisas mais importantes para ocupar minha cabeça.
E eu realmente pretendia cumprir a promessa.
---
Naquela noite, cheguei em casa decidida a cozinhar novamente.
Talvez fosse provocação.
Talvez não.
Eu realmente queria cozinhar.
Era uma das coisas que mais gostava de fazer quando estava sozinha.
Coloquei música baixa.
Prendi o cabelo.
Peguei os ingredientes.
Biscoito ficou deitado perto da cozinha, observando cada movimento meu.
— Hoje temos massa.
Ele levantou a cabeça.
— Não é para você.
Ele voltou a deitar.
— Muito bem.
Comecei a cozinhar.
O cheiro se espalhou rapidamente pelo apartamento.
Alho.
Manteiga.
Ervas.
Tomate.
Queijo.
Meu estômago roncou.
— Está ficando bom.
Biscoito levantou.
— Você não.
Ele voltou a deitar.
Eu ri.
A música continuava tocando.
Cantarolei enquanto mexia a panela.
Por alguns minutos, esqueci completamente de Julian.
Até ouvir uma batida na porta.
Parei.
Olhei para Biscoito.
Ele levantou a cabeça.
Outra batida.
Franzi a testa.
Desliguei o fogo.
Caminhei até a porta.
Olhei pelo olho mágico.
Julian.
Claro.
Respirei fundo.
— Não acredito.
Abri.
Ele estava parado no corredor.
Usava uma camiseta escura que destacava os ombros largos e uma expressão impossível de interpretar.
Os olhos dele foram imediatamente para mim.
Depois para dentro do apartamento.
Depois voltaram para mim.
— O que foi?
Ele ficou em silêncio por alguns segundos.
— O cheiro.
Pisquei.
— O quê?
— Da comida.
Fiquei encarando-o.
— Você veio até a minha porta por causa disso?
— Sim.
— Você está falando sério?
— Estou.
— Julian, eu estou cozinhando dentro do meu apartamento.
— Eu sei.
— E você está no seu.
— Eu sei.
— Então qual é o problema?
Ele pareceu procurar as palavras.
A expressão dele ficou estranhamente tensa.
— O cheiro está forte.
Olhei para a cozinha.
Depois para ele.
— Você quer que eu pare de cozinhar?
— Não.
— Então?
Ele permaneceu calado.
— Só estou dizendo que o cheiro está forte.
— E o que você espera que eu faça?
Ele abriu a boca.
Fechou.
Parecia irritado.
Mas, pela primeira vez, tive a impressão de que a irritação não era exatamente comigo.
Era com ele mesmo.
— Nada.
— Então por que veio aqui?
Outro silêncio.
Mais longo.
— Eu não sei.
Aquilo me pegou de surpresa.
Por um instante, fiquei sem resposta.
Julian também parecia não entender por que estava ali.
Então aconteceu algo estranho.
Ele respirou fundo.
Muito fundo.
Como se estivesse tentando sentir alguma coisa no ar.
Seu peito se expandiu.
Seus olhos se fecharam por um segundo.
Quando abriram novamente, pareciam mais escuros.
Muito mais escuros.
Meu coração deu uma pequena batida fora do ritmo.
Eu não soube explicar o motivo.
Apenas senti.
— Você está bem?
Ele recuou imediatamente.
— Estou.
— Tem certeza?
— Sim.
— Porque você parece...
Parei.
Ele me encarou.
— Pareço o quê?
Engoli em seco.
— Estranho.
A mandíbula dele endureceu.
— Você tem uma opinião muito alta sobre mim.
— Você deixa muitos motivos.
Por um segundo, algo quase parecido com um sorriso apareceu no rosto dele.
Foi tão rápido que pensei ter imaginado.
Então ele olhou para mim novamente.
— Boa noite, Sophie.
Meu corpo ficou imóvel.
— Como você sabe meu nome?
Ele pareceu perceber o erro.
Houve uma pequena mudança em sua expressão.
— Seu namorado chamou você pelo nome.
Pensei.
Era verdade.
Bryan tinha feito isso.
— Ah.
Julian deu um passo para trás.
— Boa noite.
— Boa noite.
Ele voltou para o apartamento.
Fechei a porta.
Encostei nela.
Fiquei alguns segundos em silêncio.
Biscoito veio até mim.
— Não.
Ele me olhou.
— Eu sei.
Fui até a cozinha.
A comida estava pronta.
Coloquei no prato.
Sentei.
Mas não consegui parar de pensar naquilo.
O homem tinha ido até minha porta para reclamar do cheiro.
Depois parecia completamente perdido.
E, por um segundo, seus olhos tinham mudado.
Talvez fosse apenas a luz do corredor.
Provavelmente era.
Eu estava cansada.
Só isso.
Comi.
Estava delicioso.
Fechei os olhos por um instante enquanto saboreava o primeiro pedaço.
— Pelo menos alguém nesta casa sabe apreciar comida.
Biscoito abanou o rabo.
— Você não ganha.
Ele deitou novamente.
Peguei o celular.
Bryan havia mandado uma mensagem.
Chegou bem?
Sim.
Jantou?
Olhei para meu prato.
Sim.
E a comida?
Sorri.
Perfeita.
A resposta veio rapidamente.
Claro. Fui eu que escolhi os ingredientes.
Ri.
Convencido.
Continuei conversando com ele enquanto terminava o jantar.
E, pouco a pouco, o episódio com Julian ficou para trás.
Ou pelo menos foi o que tentei acreditar.
---
Na manhã seguinte, encontrei outro bilhete.
Claro.
Eu deveria ter previsto.
Dessa vez, porém, havia apenas uma frase.
A comida estava boa.
Fiquei olhando para o papel.
Sem entender.
Li novamente.
A comida estava boa.
Olhei para a porta dele.
Depois para o bilhete.
— O quê?
Biscoito olhou para mim.
— Ele acabou de elogiar minha comida?
O cachorro abanou o rabo.
— Não.
Li novamente.
— Não pode ser.
Havia algo profundamente errado naquela situação.
Meu vizinho tinha passado dias reclamando.
Primeiro da conversa.
Depois do cheiro.
E agora estava dizendo que a comida estava boa.
Olhei para a letra.
Não havia assinatura.
Mas eu sabia que era dele.
Entrei no apartamento.
Coloquei o bilhete sobre a mesa.
Preparei meu café.
Voltei.
Ainda estava lá.
Peguei.
Li novamente.
Um sorriso apareceu involuntariamente.
— Pelo menos ele tem bom gosto.
Parei.
— Não.
Apontei para mim mesma.
— Não começa.
Biscoito inclinou a cabeça.
— Eu não estou gostando dele.
Ele piscou.
— Não estou.
Peguei a bolsa.
— Ele continua sendo irritante.
Abri a porta.
Passei pelo corredor.
Olhei para a porta de Julian.
Fechada.
Segui para o elevador.
Quando as portas se abriram, entrei.
