Capítulo 3 3

É completamente maravilhoso poder estar com quem se ama. Poder abraçar e beijar a todo momento, simplesmente porque deu vontade. Mas com tudo isso vêm as responsabilidades e as obrigações. Cuidar de uma casa não é simplesmente varrer e fingir que faz comida, como nas brincadeiras de criança. É muito mais que isso. Tem que realmente manter a ordem e uma diplomacia formadas dentro de casa, e saber dividir os horários para cada coisa. Contas, compras, limpeza, o silêncio que às vezes se instala entre duas pessoas que dividem o mesmo teto todos os dias.

Recém-casados costumam achar que tudo é um mar de rosas, quando na verdade eles ainda precisam se estabilizar, trabalhar muito e conquistar cada espacinho de sonhos possíveis. Não é como nos filmes em que uma mulher fica sexy em qualquer blusa do namorado e coque frouxo bagunçado. Eu me via assim todas as manhãs e nunca entendi por que isso é visto como “sexy” para tantas pessoas.

Não havia nada de sexy naquilo. Só me sentia largada e preguiçosa enquanto preparava mais uma vez o café, à espera de que Mateo aparecesse e se engraçasse para cima de mim. Mas eu, como estava tão desanimada com tudo, nem os dentes escovei e muito menos saí correndo para o banheiro quando Mateo veio me beijar, como antes. Estava tudo tão preto e branco, tão monótono que eu nem me importei e simplesmente virei o rosto e dei um sorriso falso.

— Ah não, Mateo, eu não escovei os dentes ainda.

— Eu não me importo, vem cá. — ele disse e me puxou para um beijo.

O beijo de Mateo é bom. O sexo é bom. Ele é bom. Na verdade, mais que bom. Sei que qualquer garota se apaixonaria por ele na certa. Sua pele é morena, tem cabelos e olhos castanhos e seu sorriso é totalmente apaixonante. Seu jeito é tranquilo e é um verdadeiro cavalheiro em tudo o que faz.

Mateo é daqueles que dá flores e chocolates sem ser uma data importante. Daqueles que abre a porta do carro e até puxa a cadeira quando vai a um restaurante. Faz de tudo para agradar a pessoa que estiver com ele. É inteligente, vem de boa família e ama crianças e animais.

E era exatamente ali que morava o problema. Mateo era certinho demais. Muito “inho” para mim.

Eu preciso de mais. Embora não saiba como e muito menos onde encontrar. O desejo por algo diferente crescia quieto, como uma rachadura que ninguém mais percebia, menos eu.

[...]

À noite, Mateo insistiu tanto que acabou me convencendo no cansaço para irmos ao cinema. Vesti apenas uma calça legging preta, uma blusa branca, um sobretudo e finalizei com um all-star branco de couro. Deixei meus cabelos lisos e soltos e quase não passei maquiagem. Não estava com saco para me maquiar e muito menos para sair. O espelho refletia alguém que só queria ficar em casa, mas cedeu de novo.

E a cada coisa que fazia no dia, me lembrava de como era quando começamos a namorar. Igual quando fomos pela primeira vez ao cinema.

Nós não sabíamos qual filme iríamos assistir e eu tinha um dilema imenso com a minha escolha de roupa. Lembro de revirar meu guarda-roupa inteiro e não encontrar nenhuma roupa boa o suficiente para me encontrar com ele. Experimentei vestidos, shorts, saias curtas, saias longas; e não ficava satisfeita com nenhuma opção. Cada peça parecia errada. O coração batia acelerado só de imaginar o encontro.

Mas, por fim, acabei escolhendo a primeira opção que havia provado e fui com uma calça jeans lavada, com alguns rasgos, uma blusa de alças finas na cor branca e uma jaqueta de couro preto por cima. O tecido da jaqueta ainda cheirava a novo. Eu me olhava no espelho e mal reconhecia a menina ansiosa que estava ali.

Naquele dia, os minutos pareciam não passar e só pensava em poder logo abraçar e beijar meu amor e passar o dia inteiro com ele. Sabia que seria perfeito e não via a hora disso acontecer logo. O relógio andava devagar demais.

Quando finalmente Mateo chegou, atrasado como sempre, nos despedimos de meus pais e seguimos até o shopping. Compramos vários doces, pipoca e refrigerante até que entramos, muito entusiasmados, na sala. Nós assistimos a um filme de terror, mesmo com Mateo tendo insistido para assistirmos um de comédia. Eu amo terror e não abriria mão de assistir o meu primeiro no cinema. A escuridão da sala, o som alto, a mão dele buscando a minha no escuro… tudo parecia intenso.

No fim, o filme foi uma grande bosta, uma merda, que nem ele ficou com medo. Saímos do cinema chateados, mas fomos lanchar e depois tomar um sorvete. Ficamos juntos o tempo todo, de mãos dadas ou então com as mãos dele rodeando minha cintura. Ele sempre me olhava com um sorriso perfeito nos lábios ou então me distribuía beijos por todo o rosto e bagunçava o meu cabelo, mesmo sabendo que aquilo me irritava profundamente. Meu cabelo loiro natural batia na altura do ombro, mas ainda assim bagunçava com facilidade e me deixava com raiva. Mas ele sempre me lançava um daqueles sorrisos maravilhosos com seus dentes perfeitos, me deixando babando quase que literalmente.

Mateo me deixou em casa às dez, como havia prometido a meu pai. Assim que entrei em casa, meus pais olharam para o relógio e sorriram ao ver que estávamos sendo obedientes e pontuais. Naquele tempo, até a pontualidade parecia romantismo.

Mas, como infelizmente o tempo passa e tudo muda, nós discutimos mais uma vez para a escolha do filme e, como não estava com saco para discutir, deixei que ele vencesse dessa vez e compramos ingressos para um filme chato de merda. Só pode ser uma grande droga! Ficamos fazendo hora pelo shopping até dar o horário da sessão. O barulho das lojas, as luzes fortes, o cheiro de comida de praça… tudo me cansava.

Minha vontade era de entrar numa livraria, comprar um livro, me sentar em uma mesa qualquer e beber enquanto leio. Mateo me beijava e eu não aguentava toda aquela agarração. Os beijos vinham sem pedido, sem intervalo, como se ele ainda estivesse tentando recuperar algo que eu já não conseguia devolver.

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