Capítulo 4 4
Eu estava tão esgotada dessas idiotices. Não suportava mais essas coisas de menininhas e, toda vez que ele me abraçava em alguma fila, eu dizia que estava com calor para que ele pudesse me soltar e me deixar livre, pelo menos um pouco. O corpo dele colado ao meu já não aquecia. Só apertava.
O horário da sessão chegou e o braço de Mateo em meus ombros estava me irritando. Queria sentar direito, minhas costas estavam doendo e estava desconfortável naquela posição. Na verdade, a posição é desconfortável, mas qualquer pessoa apaixonadinha se sente maravilhada só de estar do lado do amado. Eu só queria espaço. E o silêncio que vinha junto com ele.
O filme já estava lá pela metade, mas ainda assim parecia que tinham se passado cinco horas. Estava entediada, desconfortável e com calor. A poltrona apertava as costas, o ar-condicionado do cinema mal fazia diferença e o braço de Mateo ainda pesava sobre meus ombros. E Mateo não parava de me encarar e perguntar “o que houve?”. Eu sempre dizia que era nada, mas ele insistia em perguntar e isso estava me enchendo a paciência cada vez mais. Cada pergunta vinha com aquele tom preocupado que, em outro tempo, eu acharia carinhoso. Agora só irritava.
— O que foi?
— Nada.
— Fala! Eu sei que é alguma coisa.
— Se eu falei que é nada, é nada porra, que saco! — disse e me levantei em direção à saída.
Mateo veio atrás de mim, mas eu continuei andando. Os corredores do cinema estavam semidesertos, as luzes baixas, o carpete engolindo o som dos meus passos apressados. Eu só queria ar. Espaço. Qualquer coisa que não fosse aquele olhar insistentemente preocupado atrás de mim.
— Hope! — chamou e eu nem olhei para trás.
Já estava em frente à escada rolante quando Mateo correu e me alcançou, me puxando pelo braço e me fazendo olhar para ele. O toque dele, antes tão familiar, agora parecia pesado demais.
— O que é, porra?
— O que está acontecendo, Hope?
— Nada, só me deixa ir embora.
— Não, me fala o que houve.
— Já disse que não é nada! E acabou! — gritei, consegui me soltar dele e desci correndo pela escada rolante em direção à saída do shopping.
O coração batia descompassado. O ar frio da noite bateu no rosto assim que cruzei as portas de vidro. Por sorte estava com meu carro e poderia ir embora sem ele. Entrei no carro e corri pelo estacionamento até a cancela da saída. As mãos tremiam no volante. O farol cortava a escuridão enquanto eu acelerava, tentando deixar para trás o peso daquela discussão e de tudo o que ela representava.
Iria até a casa de Roger. Ele é a única pessoa que sabe como estou me sentindo em relação a Mateo e é o único com quem eu poderia conversar agora. A ideia de desabafar, de ser ouvida sem julgamento, era o único alívio que conseguia imaginar naquele momento.
Eram só vinte minutos do shopping até a casa dele. Estava a três ruas de chegar quando passei por um cruzamento em que o sinal estava aberto para mim e, na rua do lado, fechado. E então algum idiota ultrapassou e acabou batendo no meu carro.
Era tudo o que eu precisava para terminar aquela noite muito bem.
O impacto veio seco, metálico, seguido do barulho de vidro e plástico se quebrando. Meu corpo foi jogado levemente para a frente, o cinto segurando o tronco. Por alguns segundos, só consegui ouvir o próprio coração e o silêncio que se instalou depois do estrondo.
Meu carro era novo e estava em perfeito estado, e até aquele momento, sem nenhum arranhão. Mas agora estava com o farol totalmente destruído e já era. Terei que me virar para pagar o conserto, o que com certeza será uma fortuna. A raiva subiu rápida, misturada ao susto ainda quente na pele.
Saí do carro quase soltando fumaça pelas orelhas quando um cara alto saiu do outro carro. Seus cabelos grandes e cacheados me chamaram a atenção e tentei não transparecer a inveja que senti ao reparar nos olhos verdes que ele tinha. Estava usando uma calça jeans e uma blusa de botão fechada até a altura do pescoço. A postura dele era calma demais para alguém que acabara de causar um acidente.
— Você é cego ou só lerdo mesmo? Não percebeu que o sinal estava fechado para você? Isso poderia ter... — eu gritei, mas fui interrompida.
— Ei, ei, ei, calminha aí! O sinal está ruim e não percebi seu carro. Me desculpa. — o cara falou com seu sotaque forte e voz rouca.
A voz dele cortou minha raiva no meio. O sotaque estranho, a calma inesperada, os olhos verdes sob a luz amarela do poste… tudo isso me fez travar por um segundo, ainda ofegante, ainda com as mãos fechadas em punhos.
— Desculpas não vão pagar o conserto do meu carro!
Minha voz saiu mais alta do que eu pretendia. A irritação, o susto e o fim desastroso do meu dia se misturavam de um jeito que tornava impossível manter a calma.
— Eu pago, me dá seu telefone e a gente vê um mecânico aqui perto. — ele disse, sendo educado até demais.
Aquilo só me irritou mais. Era difícil continuar brava com alguém que parecia disposto a resolver tudo sem criar caso.
— Não, não precisa, quer saber? Só preciso que você me leve para onde eu estava indo, não estou em condições de dirigir.
Ele me observou por um instante, como se estivesse avaliando se eu realmente falava sério.
— Ok, vou estacionar meu carro e te levo com o seu.
Assenti apenas com a cabeça, cruzando os braços enquanto esperava. Meu coração ainda batia acelerado e eu definitivamente não confiava em mim atrás de um volante naquele momento.
Menos de cinco minutos depois ele já estava de volta e andava em direção ao banco do motorista do meu carro.
Entrei no banco do passageiro, prendendo o cinto enquanto respirava fundo pela primeira vez desde a batida.
— Para onde, senhorita? — ele disse assim que bati a porta ao meu lado.
— Segue direto, vou te dando as instruções.
O restante do trajeto aconteceu em um silêncio quase absoluto. Apenas o som do motor preenchia o ambiente, interrompido de vez em quando pelas minhas indicações de qual rua virar. De relance, percebi que ele mantinha as duas mãos firmes no volante e dirigia com uma calma quase irritante.
