Capítulo 5 5

Paramos em frente ao prédio de Roger e acenei para o porteiro, que liberou nossa entrada com o carro. Então eu desci e esperei que ele descesse também para me entregar a chave e fosse embora para que eu pudesse ir em direção ao elevador. Mas ele não só entregou, como foi me acompanhando até a porta.

Olhei para ele com uma sobrancelha arqueada.

— O que é? Sei apertar dois botões e chegar aonde eu quero.

Um sorriso discreto surgiu no canto dos lábios dele.

— Quero me certificar de que não vai arrumar confusão por aí de novo.

Revirei os olhos.

Não disse mais nada, estava irritada demais até para discutir com um desconhecido. Apenas caminhei até o elevador, ouvindo seus passos logo atrás dos meus.

O elevador finalmente parou no sexto andar e estava na esperança dele prender a mão na porta quando tentasse sair, mas isso não aconteceu e só percebi sua presença ao meu lado quando Roger abriu a porta e fez cara de espanto.

— Noooooossa, como você descobriu que eu adoro homem de cabelo grande? Ele é meu presente de Natal adiantado? Sabe que eu te amo, né Hope? Muito obrigado! — Roger praticamente gritou essas palavras e o homem, que eu ainda não sabia o nome, o olhava confuso, se afastando alguns centímetros, claramente sem entender o que estava acontecendo.

Levei a mão ao rosto, completamente sem paciência.

— Roger, pelo amor de Deus, chega disso! Vem, vamos entrar, preciso de você. — disse, o arrastando para dentro. — E ah, obrigada por me trazer até aqui, tchau! — disse ao cara do lado de fora e fechei a porta atrás de mim antes que Roger resolvesse continuar o espetáculo.

Só então soltei um longo suspiro.

— Mulher! Onde você encontrou esse deus grego? — Roger gritou assim que eu surgi em seu quarto.

Joguei minha bolsa sobre a cama.

— Ele bateu no meu carro e fez a gentileza de me trazer até aqui.

Roger arregalou ainda mais os olhos.

— E qual o nome dele? Pegou telefone? Quantos anos ele tem?

— Calma aí, não me enche de perguntas. Eu estou bem, obrigada por perguntar. E não, não sei nem o nome daquele cara e também não me interessa saber, provavelmente nunca mais o verei na vida. Mas enfim, vim até aqui por um motivo e estou a fim de cumprir. Estou precisando conversar, acabei de terminar com o Mateo.

O sorriso divertido desapareceu imediatamente do rosto dele.

— O QUE? POR QUÊ? — Roger berrou, totalmente aterrorizado pelo que eu acabei de dizer.

Suspirei, me sentando na ponta da cama enquanto encarava o chão por alguns segundos, organizando os pensamentos. Nem eu sabia explicar direito tudo o que estava sentindo.

Até Roger dizia que tínhamos sido feitos um para o outro. Mas como meu melhor amigo, ele sempre me apoia em todas as minhas decisões. Eu sabia que quando explicasse como estava me sentindo, ele iria concordar e me apoiar como sempre faz.

A noite foi longa.

Conversamos sobre tudo. Sobre mim, sobre Mateo, sobre o relacionamento, sobre as dúvidas que eu vinha guardando havia meses e nunca tive coragem de colocar para fora. Roger me ouviu em silêncio na maior parte do tempo, interrompendo apenas para fazer alguma pergunta ou dizer aquilo que eu precisava ouvir.

Depois de quinze chamadas ignoradas de Mateo, eu decidi desligar meu celular e Roger também, já que ele já tinha tentado ligar para ele.

Muita conversa em meio a chocolates e sorvete, bem típico de filmes adolescentes, onde a menina de coração partido se isola e toma todo o estoque de sorvete do estado e mesmo assim continua magra e esbelta. O que infelizmente não era o meu caso.

Cheguei até a rir entre uma colherada e outra ao pensar nisso.

Como não podia exagerar, depois do segundo pote, deixei essa história de lado e fui dormir.

O cansaço finalmente venceu a ansiedade.

Me deitei ao lado de Roger, que afagou meu cabelo com delicadeza até eu pegar no sono. Fechei os olhos sabendo que, ao lado do meu melhor amigo, não havia perigo algum e que, pelo menos naquela noite, eu não precisava fingir que estava tudo bem.

No dia seguinte, eu acordei exausta e queria muito poder continuar na cama, escondida debaixo das cobertas, fingindo que o mundo lá fora podia esperar mais algumas horas. Mas isso não mudaria nada. Com um suspiro cansado, me obriguei a levantar e tomei uma xícara de café forte para reunir forças e enfrentar o dia. Por sorte, tinha algumas roupas na casa de Roger, então escolhi um vestido soltinho e estampado com uma sapatilha de cor neutra para ir trabalhar. Seria um dia longo e estava determinada a ir para casa e ter uma conversa definitiva com Mateo. Não poderia ficar nesse namoro ioiô para o resto da vida. Nós somos adultos e maduros o suficiente para conversarmos e decidirmos nossa vida juntos.

O expediente pareceu durar o dobro do tempo. Minha cabeça permanecia longe dali, revivendo tudo o que havia acontecido na noite anterior e ensaiando mentalmente dezenas de maneiras diferentes de iniciar aquela conversa. Nenhuma delas parecia boa o suficiente.

Depois do trabalho fui para casa e fiquei à espera de Mateo. Conforme os minutos passavam, meu nervosismo aumentava. Quando a meia hora que faltava para ele chegar passou, eu senti o ar sumir dos meus pulmões.

— Oi — murmurou cabisbaixo, assim que entrou pela porta e me viu sentada no sofá.

— Oi. Podemos conversar?

Ele não disse nada, apenas se aproximou e tentou me beijar, mas eu virei o rosto em negação e ele me olhou torto. O clima ficou pesado quase instantaneamente.

— Desculpa, mas eu realmente estou aqui apenas para conversar. Nós somos adultos e não tem como ficar nessa situação. Eu simplesmente saí correndo igual a uma menininha com medo de algum inseto e te deixei plantado lá, e ainda por cima a pé. — disse e ele apenas concorda com a cabeça, sem tentar dizer nada. — Então, olha... sinceramente, eu não sei como te dizer isso de outra maneira, mas eu quero terminar. Definitivamente.

As palavras saíram mais leves do que eu imaginava, mas o efeito delas foi devastador.

Ele me olha com expressão de surpresa e sinto uma ponta de suas lágrimas surgindo em seus olhos castanhos.

— Você tem outro? É isso? — ele questionou, em tom baixo.

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