Capítulo 3 SEGUNDA NOITE

Rebecca chegou com o cabelo úmido e um robe fechado na cintura.

—Se tudo que tiver em seu repertório forem fantasias, Bruno, penso que nossa despedida está prestes a se concluir.

Tirou a arma da gaveta que Bruno sequer tentou abrir e colocou sobre a coxa esquerda.

Bruno passou o dia escrevendo, riscando e tentando não escutar passos no corredor. Agora, diante dela, as anotações pareciam insuficientes. A mulher colocou a arma junto à poltrona e acomodou as pernas, deixando um pé suspenso e revelando alguma pele. Ele reconheceu a impaciência no movimento dos dedos. Precisava começar antes que o silêncio fosse confundido com falta de assunto. Bruno ergueu os olhos e abriu um sorriso esplendoroso:

— Hoje a jiripoca vai piar. Ah, mas vai!

Rebecca arqueou uma sobrancelha, visivelmente perplexa.

—Ao menos era o que Fabíola prometia a si mesma enquanto corria pela trilha do bosque detrás do condomínio. Naquela noite, Giovanni não escaparia de jeito nenhum, nem que a vaca tossisse. A bela mulher acenou aos seguranças quando passou pela portaria e sorriu. Sabia que, por trás da fachada de cumprimentos respeitosos, aqueles homens certamente a estavam devorando com os olhos. Não usava roupa de academia com o intuito de ter seu corpo observado assim: estava se exercitando, caramba! Todavia, já havia desistido de ralhar com cada homem que a olhasse com desejo na rua. Que olhassem, pensava. Chegou em casa suada, gotejante e satisfeita, com o corpo repleto de endorfinas. Era o prenúncio de um excelente dia, que prometia uma noite fantástica. Tomou uma ducha fria. Era verão de janeiro e seu corpo agradeceu a revigorante gentileza. Vestiu camiseta e short e foi colocar a roupa na máquina. Amava o cheiro do amaciante. Enquanto estendia as peças no varal, descobriu uma mensagem dos colegas da faculdade de artes cênicas. Celebrariam o primeiro reencontro da classe, dez anos após se formarem. Tinham alugado uma cobertura de hotel, com piscina, para aquela noite. Suspirou, sabendo que aquela vida de solteira com belos artistas depravados e divertidos ficara para trás. Precisava cuidar de seu casamento, começando por devolver ao marido alguma vontade de participar dele.

A manhã estava saborosa, como o delicioso café que ganhou de amigo secreto. Deixou-se viajar nos pensamentos carregados pelo vapor da xícara fumegante. Lembrou da xamã daquele dia na feira, uma indígena que parecia mais velha que o tempo. A senhora lhe entregou uma bolsinha e recomendou misturar o conteúdo na comida do homem. Garantiu que ele ficaria tinindo de animação. Fabíola transferiu cinquenta reais no pix, mesmo sem saber o que diabos era aquilo, só pela história. Se era um golpe, era um bom golpe. Merecia ser pago.

— Ela deu ouvidos a uma desconhecida? — Rebecca mexeu no nó do robe. Bruno percebeu que estava sorrindo.

— A desconhecida ofereceu uma solução para algo que Fabíola já não sabia como resolver.

A mulher sustentou seu olhar por um instante, calculando o quanto os protagonistas revelavam do autor. Depois, fez um gesto para que continuasse.

— As notas amadeiradas de avelã do café a trouxeram de volta ao presente, despertando-a daquela lembrança. Prepararia trouxinhas de repolho, o prato predileto de Giovanni. Começou a picar microcubos de bacon, que seriam misturados na carne após dar um susto neles na frigideira, sem nem dourar. Antes de embrulhar tudo, acrescentaria seu misterioso ingrediente secreto. Sorriu, deliciando-se com os possíveis resultados. Naquela noite, o marido provaria seu tempero; depois, seria sua sobremesa.

Giovanni chegou cansado e afrouxou o nó da gravata enquanto abria a porta. Sentiu um cheiro completamente arrebatador: a saudosa comida caseira de sua querida mãezinha. Sua boca, assim como seus olhos, encheu-se d’água. Encontrou Fabíola num vestido vermelho colado ao corpo, com um generoso decote. Tinha os cabelos lisos e escovados; a maquiagem, impecável. Uma expressão doce e ingênua emoldurava seu belo rosto. Ele quase esqueceu o que queria comer.

Após um beijo, sentaram-se à mesa. Fabíola contemplou seu homem dar a primeira garfada e devorar o prato em questão de minutos. Ela não comeu, mas sorriu quando ele saiu daquele êxtase, após raspar o caldo no prato. Subiu as escadas para o quarto do casal; o olhar voraz dele a seguia quando deixou o vestido cair descuidadamente no caminho. Nunca um homem subiu degraus tão rápido.

Horas depois, Fabíola desceu faminta. Sentia-se absolutamente relaxada e anestesiada. Havia um pote enorme com três litros de sorvete de creme no freezer, mas o caldo na panela despertou sua curiosidade. Molhou um pedaço de pão e comeu. Logo, atribuiu ao tempero a inquietação que voltava a percorrer seu corpo. Giovanni dormia. Ela olhou o convite no celular e encontrou uma justificativa para aquilo que desejava desde a manhã.

Foi à festa do reencontro da faculdade. Dançou, mergulhou na piscina e beijou pessoas que durante anos existiram apenas em lembranças inconvenientes. Após se refestelar e fazer tudo que lhe era proibido e inimaginável, voltou ao amanhecer, carregando a certeza de ter experimentado alguma força extraordinária. Precisava de mais daquilo. Procurou a velha indígena, explicou o que aconteceu e aguardou outra bolsinha. A xamã escutou surpresa, antes de começar a se escangalhar de tanto rir.

"Aquele pó não funciona em mulher, sua tola, só em homem!" Qualquer coisa que tivesse feito, era apenas ela: nada mais. Fabíola foi embora, completamente atônita. As pessoas ao redor pareciam diferentes. Todos pareciam mais acessíveis. Com pensamentos travessos, saboreou secretamente as possibilidades que o futuro agora lhe reservava. Sorriu sardonicamente. Ela era o próprio afrodisíaco.

Rebecca descruzou as pernas. Estava extremamente excitada; sentia o tecido do robe na pele com uma intensidade que a irritava. A voz de Bruno prolongava a história mesmo depois do silêncio. Olhou sua boca e imaginou quanto precisaria se aproximar para sentir aquela respiração. Apertou o cinto, levantando depressa. Queria outra história imediatamente, mas precisava sair antes que ele percebesse o tamanho daquela vontade.

— Amanhã, no mesmo horário. — Recolheu a arma, mantendo o rosto firme. — E não se acomode. Se a próxima não for tão boa quanto essa, eu mato você. Nem seu rosto vai te salvar.

A mão dela permaneceu na maçaneta. Bruno esperou, sem ousar agradecer. A promessa de amanhã vinha acompanhada da arma que ela segurava; bastava um movimento em falso para encerrar ali todas as suas histórias.

Rebecca saiu sem olhar para trás, embora já desejasse que fosse a noite seguinte. No corredor, parou por um instante, tentando recuperar o ritmo da respiração. Dentro da suíte, o escritor escutou a chave girar. Mais uma noite. Passou a mão pelo rosto, exausto, e puxou o caderno, disposto a fazer seu melhor para salvar sua vida por mais um dia.

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