Capítulo 4 TERCEIRA NOITE
Rebecca voltou. Aproximou-se a passos largos e agarrou o pulso de Bruno, afastando a manga da camisa para examinar a pele machucada. Seus dedos demoraram ali, quentes, enquanto o escritor tentava ignorar o decote ao alcance dos olhos.
—Espero que tenha trabalhado bastante com essas mãozinhas delicadas que nunca viram serviço de verdade.
Rebecca soltou seu braço e sentou, deixando a arma sobre a mesa. Bruno fechou o caderno. Passou o dia escolhendo quanto de sua própria indignação poderia oferecer à mulher sem provocar uma execução sumária. Talvez tivesse escolhido demais. Precisava desaguar tudo aquilo antes que a coragem desaparecesse de vez de seu peito temeroso. Gritou com a mulher:
—Não vou me dobrar a essas exigências ridículas! Vocês deveriam se sentir honrados em ter minha escrita disponível! Deveriam estar agradecidos!
Rebecca ergueu o rosto com um olhar pétreo de ódio sincero. Aquele imbecil havia enlouquecido e estragou tudo, uma pena. O olhar encontrou o do rapaz insensato que ousava gritar com ela, o canto dos olhos conferiram a arma. Bruno continuou depressa, dando à insolência um proprietário mais conveniente, antes que sua vida fosse definitivamente encerrada:
—O Escritor arremessou o teclado longe na sala. Teve o cuidado de não arremessar com muita força, para não danificar a ferramenta durante seu momento de desabafo artístico. Caminhou até ele, o apanhou e verificou que não quebrou. Estava desgastado, especialmente nas letras A e R, mas isso eram ossos do ofício.
Era a quinta vez que seu conto era rejeitado por aquela editora. Como aqueles novatos conseguiam ser aprovados quando ele próprio era recusado vez após vez? Escrevia bem, sabia disso. Só não era comercial o suficiente, nem queria ser! Comercial? Rá! Eles iriam se curvar à genialidade do seu talento, eles iriam ver. Com certeza, iriam.
Acendeu um cigarro com o isqueiro que foi de seu pai e tossiu na primeira baforada, deixando suas frustrações flutuarem com a fumaça na sala mal iluminada. Detestava cigarros. Seu pai morreu de infarto enquanto dirigia. Quarenta e nove anos e morto por algo tão pequeno. Escolheu um maço com um alerta sobre aborto, não era um risco para ele; o aviso sobre impotência, porém, parecia uma ofensa pessoal.
—Um homem delicado. —Rebecca sorriu, deslizando a unha pelo braço da poltrona, deliciada com a história que a absorveu completamente. Bruno sustentou aquele sorriso por um instante, percebendo que ela começava a apreciar sua pobre e infeliz companhia cada vez mais. Era um alívio perigoso; precisava conduzi-la até o fim antes que decidisse se reconhecer nele.
—Guto o chamou para beber. Vodca barata, um amigo viciado e algumas meninas carentes: tudo que precisava para validar sua narrativa de artista intelectual incompreendido. As meninas não foram, haviam encontrado algo mais interessante para fazer naquela noite, como se isso fosse um grande desafio. O amigo, porém, tinha uma surpresa. Conseguiu imagens roubadas dos ensaios de um clipe ainda inédito, com seu roteiro completo. Uma banda famosa, uma rapper proeminente, dinheiro suficiente para comprar muitas coisas.
Repentinamente, o escritor percebeu que tinha encontrado o Santo Graal. Guto estava certo, aquilo era uma mina de ouro. Fingiu desinteresse; pediu para assistir a um filme de horror qualquer. O amigo bebeu, se drogou e apagou. Pela manhã, uma vizinha chamou uma ambulância. Overdose, disseram. Guto estava morto. O escritor levou os arquivos.
Rebecca parou de sorrir. A ponta do sapato roçou a perna de Bruno quando ela se acomodou mais perto. Ele sentiu aquele contato o eletrizar até debaixo da língua, mas continuou:
—Uma semana após o funeral, havia concluído sua obra-prima. O conto era apenas a isca que precisava para alcançar suas ambições. Transformou o cenário do clipe num romance, registrou tudo e enviou um trecho para a editora. Colocou um título homônimo à obra completa: Satisfação Fúcsia. Sentiu uma paz estarrecedora e simplesmente aguardou a chuva vir, se o céu quisesse. O que veio foi uma verdadeira tempestade.
Seu conto foi aprovado. Pediram material adicional; já tinha cento e quarenta e quatro páginas. Sabia que um conto deveria existir por si só, mas que se explodissem as convenções. Enviaram sua passagem de avião imediatamente. Seguiram-se reuniões, previsões e cálculos complexos. O Escritor apenas assentiu, desdenhando dos profissionais que tentavam convencê-lo racionalmente do óbvio: havia criado um produto divinal de absoluto sucesso.
Uma assistente pessoal ficou à sua disposição. Quando a moça o cumprimentou fora do trabalho, exigiu sua demissão. Jovenzinha arrogante. Na semana da pré-venda, o clipe foi lançado. As cores, os prédios, os veículos, até o comportamento distante dos cantores eram absolutamente similares aos protagonistas do livro. Os leitores descobriram a semelhança. O silêncio era uma boa arma. Esperou que um vocalista perdesse o tino e desprezasse publicamente o escritorzinho desconhecido. Processou a banda por plágio.
Bruno percebeu Rebecca se inclinar. O perfume dela alcançou as páginas fechadas, e ele teve vontade de abri-las apenas para conservar aquele cheiro enebriante. A mulher tocou sua boca com o polegar, interrompendo a narrativa.
—Ele matou o amigo para roubar uma história e ainda conseguiu posar de vítima? — Bruno sentiu a pressão suave do dedo antes que ela o retirasse. Não queria de fato que ela retirasse nada.
—Fez muitíssimo bem o papel de jovem artista injustiçado pelo mercado internacional. Venceu, recebeu parte dos lucros da música e doou uma fração para uma fundação de escritores. A batalha estava ganha antes mesmo de começar. Seu livro vendeu milhões. Seu plano era escrever mais cinco livros e deixar os dois últimos para serem publicados apenas após sua morte. Seu público que vivesse mais que ele, se quisesse ter o desfrute de chegar ao fim de suas histórias. Riu da ideia, daria muito trabalho. Gostava de imaginar gente esperando por uma resposta que somente ele tinha o poder de oferecer. Depois decidiu publicar trezentas e trinta e sete páginas completamente em branco: “Escrita Inexistencial da Proporção Áurea”. Estava elevando a Escrita a um novo nível de Arte. Deixaria seu sublime legado para essa raça medíocre de macacos falantes que se achavam dignos de lê-lo. Diziam que médicos se consideravam deuses; riu-se da pretensão. A verdade era óbvia. Deus é Escritor.
Rebecca se levantou. Bruno acompanhou sua mão alcançar a arma, sentindo a garganta fechar. Ela apoiou o cano sob seu queixo e ergueu seu rosto. Perto assim, ele enxergava a pequena marca quase imperceptível que o batom vermelho deixou num dente imaculadamente branco. Precisou se concentrar naquele detalhe para continuar respirando.
—Você está me oferecendo um assassino que transforma poder em genialidade e obediência em admiração. Achou que eu não perceberia? — A voz veio baixa, junto à sua boca. Bruno segurou o caderno com força.
—Achei que perceberia. Queria contar alguma coisa que você levasse consigo quando saísse. Meu desafio é não te entediar, lembra? Não posso apenas tentar te convencer com histórias sedutoras.
Rebecca permaneceu perto, saboreando a resposta e a coragem necessária que o rapaz buscou sabe-se lá de onde para pronunciá-la naquelas circunstâncias. Retirou a arma, mas conservou os dedos no queixo dele.
—Hoje você vive pela audácia de tentar me impressionar assim, meu escritor. Amanhã, escolha com mais cuidado. Você estava indo bem me seduzindo: é um caminho mais seguro para seu vertiginoso papel nessa história.
