Capítulo 5 QUARTA NOITE

Às nove da manhã, Rebecca já havia arruinado um homem antes de terminar o café. O sócio chegou com um advogado, que permaneceu prudentemente de pé. Sobre a mesa, entre flores brancas e uma jarra de água, havia uma pasta com os pagamentos desviados. Rebecca contemplou a mão que o sujeito esfregava no joelho.

—Minha esposa não sabe de nada, senhora. Tenho duas filhas, tem misericórdia!

Rebecca tomou outro gole do líquido quente e escuro, torra mineira, deliciada com aquele imbecil finalmente abandonando a postura de empresário respeitável. Empurrou o contrato para perto dele.

—Assine enquanto ainda permito que tenha alguma coisa para deixar a elas.

O segurança se aproximou quando o advogado tentou intervir. Rebecca conferiu as assinaturas e autorizou com um meneio de cabeça que ele fosse embora.

Depois do almoço, recebeu o vereador que dificultava a aprovação de seu empreendimento em Copacabana. Para lidar com esse rato, preferiu a sala do subsolo. Ali, ninguém interrompia uma negociação para oferecer sobremesa. Quando saiu, precisou lavar as mãos. Uma gota de sangue do amante do parlamentar espancado manchava seu anel, mas o assunto estava resolvido.

Na suíte, Bruno escrevia. A corrente prendia o pulso esquerdo, permitindo que a mão direita trabalhasse. Quase não tocou no almoço. Nunca se preocupou tanto com um adjetivo: uma frase mal construída poderia ser o suficiente para condená-lo.

Encontrou um dia atrás Dom Casmurro na gaveta de cabeceira, com anotações de Rebecca e uma flor seca entre duas páginas. Folheou o exemplar cuidadosamente. Na cena do penteado, a tinta azul cercava uma frase, mas não havia comentário algum. Imaginou o que aquela mulher guardava dentro de um livro.

Escreveu durante horas. Queria oferecer a Rebecca uma Capitu inteira, com seus desejos e sua fidelidade, capaz de falar antes que alguém decidisse o significado de seus olhos.

Rebecca chegou na suíte cansada do dia. Tirou os brincos diante do espelho e percebeu o exemplar sobre a mesa. Aproximou-se devagar, passando os dedos pela capa antes de olhar para ele.

—Esse livro deve ficar onde eu o deixei.

Bruno recolheu a mão. Rebecca abriu na página da flor e conferiu se continuava ali. Pareceu tranquilizar-se, embora a delicadeza do movimento o surpreendesse mais que qualquer ameaça.

—É um dos meus prediletos. Tenha cuidado ao lê-lo.

—Já li dezenas de vezes. Machado corre em minhas veias, mulher. Está tatuado em minha literatura.

Rebecca sentou na poltrona. Deixou a arma à vista, mas não tirou os olhos do escritor quando ele abriu o caderno e entregou sua voz à mulher que o esperava para ganhar vida dentro daquelas páginas.

— “O que é?”, perguntei atrevida, tentando esconder minha própria excitação. “Nunca viste meus olhos antes?”

O queixo da mafiosa caiu, boquiaberta, vendo Capitolina mudar o timbre da minha voz.

—Fixou seus olhos ávidos de caçador nos meus, que teimavam em querer me denunciar. Senti que iria desmaiar se ele continuasse a me fitar assim. Aqueles olhos enormes e sedentos, como se quisessem mergulhar dentro de mim e me beber inteira, como se minhas lágrimas contidas de emoção fossem a própria fonte da vida. Começou a observar atentamente meu rosto por inteiro, meu cabelo, meus ombros, minhas bochechas, minha testa, meus lábios.

Aquele momento parecia sem fim, e como eu queria que ele durasse para sempre, mas precisava que o tempo voltasse a passar antes que eu morresse de não sei bem o que se aquilo continuasse! Eu havia esperado a vida inteira que alguém me olhasse assim.

Bentinho era meu desde sempre: companheiros de travessuras! Minha mãe fazia gosto de nossa amizade e meu pai fingia policiar. Eu era como mais um dos canários de papai, com a diferença de viver solta de corpo, mas tão presa de alma quanto qualquer um deles.

A CEO se moveu, desconfortável, se identificando mais do que eu esperava com o canário engaiolado.

—Por mais que eu o chamasse de bonito, por mais que contasse seus dedos, como quem verifica se eles estão todinhos ali ainda, pra serem meus, por mais que passasse as mãos, assim, inadvertidamente, pelos seus cabelos, por mais que escrevesse nossos nomes no muro sem reboco: “Bento e Capitolina”... eu me via à deriva, fadada a esperar que aquele fruto amadurasse. Deus, ele era tão criança ainda no agir!

Rebecca apoiou a cabeça no encosto. Conhecia aquela espera com uma intimidade que a irritou. Gabriel também demorou a perceber o que ela lhe oferecia quando inventava desculpas para encontrá-lo. Teve vontade de agarrá-lo pela camisa muitas vezes, mas bastava que ele sorrisse para esquecer a impaciência. Bruno ergueu os olhos e encontrou nela uma atenção diferente. Continuou antes que a mulher resolvesse levantar a guarda.

—Por mais que eu lhe contasse que sonhava com ele, Bentinho nunca admitia que sonhava comigo. Mas sonhava, eu sabia. Sonhava. Estava cada dia mais próximo, ali, no novo interesse crescente de seus olhos. Julgava que eu não os pudesse flagrar enquanto percorria minhas silhuetas em constante transformação, todavia sempre tendo a delicadeza de encerrar sua busca em minha melhor curva: meu sorriso.

Naqueles dias, eu me perdia inerte em minha luta com Deus. Não exatamente o Todo Poderoso, mas seus representantes na Terra. A vocação eclesiástica pretendia tomar Bentinho de mim, promessa malograda de sua bendita mãe, só Deus sabia por quê. E quando eu, naquela manhã, preocupada se ele se tornaria padre, argumentando contra tudo que quisesse tirá-lo de mim, me surpreendi quando pediu para ver meus olhos.

Seu evidente desejo transportava meu coração para um mundo de perfumes confusos e deliciosos. Deus e todos os santos, me permitam a graça de fazer desse rapaz meu! Eu me sentia tonta e suave, como quando bebi escondido do licor que mamãe guarda para momentos especiais. Desejava doravante que ele nunca mais parasse de me olhar assim.

Para minha sobrevivência, Bentinho decidiu me pentear. Ri e fiz gracejo de sua pretensão ao ofício de cabeleireiro, tentando me recompor em risadas e flertes bem-humorados. Eram meus bem cuidados cabelos e não meus lábios que o cativaram, afinal. Meu alívio foi momentâneo, pouco antes de ser arrebatada aos céus daqueles toques, daquelas mãos, daqueles dedos delicados e rústicos em meus cabelos. Penteava-me com uma afeição religiosa, e desejei secretamente ser eu sua santa de devoção.

Bruno fechou o caderno. Rebecca levantou o rosto, contrariada, ainda presa àquelas mãos sensuais nos cabelos de Capitu.

—E o beijo?

—Amanhã você vai ouvir o que ela levaria desse beijo até o último dia da vida. Bento nunca escutou essa parte.

Rebecca se aproximou rispidamente. Agarrou seu pescoço e segurou seu queixo, procurando nos olhos dele a mentira.

—Eu conheço esse livro...

—Eu só quero que conheça melhor essa mulher.

Bruno sustentou o olhar, embora a corrente denunciasse o tremor de sua mão. Rebecca desejou obrigá-lo a continuar, mas queria aquela voz inteira, disponível, capaz de surpreendê-la novamente. Soltou seu rosto e recolheu a arma.

—Você comprou esta noite e muito bem paga, escritor. Amanhã terminará. Se a espera não valer a pena, será sua última história, pois mexeu com algo sagrado para mim.

Bruno acompanhou sua saída, sem ousar agradecer. Rebecca deixou o quarto com as pernas tremendo de emoção. Aquilo estava ficando perigosamente apaixonante demais.

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