Capítulo 2
Rafael passou a noite num quarto barato perto da rodoviária do Tietê, sentado na beira da cama, com o notebook no colo e a mochila aberta aos pés. O cheiro de desinfetante barato subia do chão, misturado ao mofo do ar-condicionado. Ele não dormiu.
Primeiro, baixou o diário eletrônico de bordo.
Dia 6, 05h12: saída de Londrina.
Dia 6, 13h47: chegada ao centro de distribuição em Maringá.
Dia 6, 14h23: permanência em doca refrigerada.
Dia 6, 16h08: saída registrada.
Depois, entrou no portal da transportadora e puxou a nota fiscal do frete. A assinatura do responsável pelo recebimento estava ali. O carimbo da empresa também. Nada emocional. Nada defensivo. Apenas dados.
Dados não choravam para câmera.
Às sete da manhã, Júlia Torres ligou.
"Você está com voz de quem brigou com a carreta e perdeu", ela disse.
Rafael tentou rir, mas saiu um ruído seco.
"Preciso de uma cópia oficial do rastreador do caminhão do dia 6."
Do outro lado houve silêncio.
"Isso é problema de seguro, polícia ou casamento?"
"Casamento."
"Então é pior." A voz dela ficou séria. "O que aconteceu?"
Rafael contou o essencial. Não falou da vergonha de ser barrado diante dos vizinhos. Não precisava. Júlia conhecia estrada o bastante para entender o que uma acusação fazia com um motorista.
"Eu consigo te mandar um relatório interno", ela disse. "Mas se for usar em processo, pede pela via formal. Fica mais forte."
"Como?"
"Advogado. Ou notificação. Não deixa parecer print solto."
Rafael passou a mão pelo rosto.
"Eu nem tenho advogado."
"Então arruma um antes de falar com sua esposa de novo."
Ele olhou para a aliança, ainda no dedo. Parecia uma peça de metal de outro homem.
"Júlia, você conhece alguém?"
"Conheço uma advogada que ajudou um motorista nosso quando a ex tentou colocar dívida no nome dele. Dra. Helena Prado. Não é barata, mas é do tipo que lê rodapé de contrato por prazer."
"Manda o contato."
Minutos depois, o número chegou. Rafael ainda não ligou. Antes, abriu o aplicativo do banco.
Queria conferir o saldo da conta conjunta.
A tela carregou devagar.
Quando os números apareceram, ele pensou que fosse erro.
O dinheiro da entrada do caminhão, guardado por três anos, não estava mais ali.
R$ 86.400,00 haviam saído em quatro transferências durante as últimas duas semanas. Duas para uma conta de Camila. Uma para uma empresa chamada Duarte Saúde Integrada Ltda. A última para um boleto de "serviços médicos especializados".
Rafael clicou em cada comprovante com a ponta do dedo tremendo.
Duarte.
Ele voltou à foto do laudo. No rodapé, quase cortado pela imagem, havia uma assinatura digital.
Dr. Marcelo Duarte.
O quarto pareceu menor. Camila não tinha apenas inventado uma história para expulsá-lo de casa. Ela havia preparado uma documentação, movimentado dinheiro, ligado seu nome a uma clínica e começado a esvaziar a conta antes da acusação pública.
O celular vibrou.
Mensagem de Camila.
Rafael, não dificulta. Minha mãe está assustada. Eu também. Se você aceitar o divórcio sem confusão, ninguém precisa saber de mais nada.
Ele leu três vezes.
Ninguém precisa saber de mais nada.
Havia mais.
O banco também tinha mandado uma notificação automática: sua análise de crédito para o veículo estava "em revisão por alteração de perfil financeiro". Rafael abriu a mensagem e sentiu uma pressão nova no peito. Sem aquela aprovação, não haveria caminhão próprio, não haveria contrato melhor, não haveria saída da vida de aluguel e favor.
Camila não tinha roubado só o dinheiro que existia. Tinha enfiado a mão no futuro que ele ainda estava construindo.
Rafael ligou para o número que Júlia mandara.
"Escritório Helena Prado", atendeu uma voz.
"Meu nome é Rafael Azevedo. Preciso falar com a doutora. Minha esposa está me acusando de violência e uso de drogas com um laudo falso. E sumiu dinheiro da nossa conta."
A secretária não fez perguntas curiosas.
"O senhor consegue vir hoje às onze?"
"Consigo."
"Traga documentos pessoais, extratos, mensagens, contratos e qualquer registro de localização."
Rafael quase disse que não tinha nada. Então olhou para a tela cheia de comprovantes.
"Eu tenho mais do que ela imagina."
Às dez e meia, antes de sair do hotel, ele recebeu outra mensagem. Era um PDF enviado por Camila.
Proposta de Divórcio Consensual.
Renúncia de bens.
Confissão de instabilidade emocional.
Autorização para bloqueio preventivo de contas.
E no fim, em negrito, uma frase que gelou sua nuca:
Caso o requerido se recuse a assinar, serão apresentadas provas médicas complementares ao juízo competente.
Rafael entendeu que o golpe já tinha nome, data e preço.
Eles não queriam só o casamento.
Queriam o caminhão antes que ele existisse.
