Capítulo 3
O escritório da Dra. Helena Prado ficava no décimo segundo andar de um prédio antigo na Avenida Paulista, sem luxo exagerado, mas com uma ordem que intimidava. Pastas etiquetadas, mesa limpa, diplomas discretos, uma janela larga para uma cidade que nunca parecia pedir desculpas.
Helena ouviu Rafael sem interromper.
Ela tinha cabelo preso, óculos de armação fina e uma caneta que só se movia quando algo importava. Rafael mostrou os extratos, o PDF, a foto do laudo, as mensagens de Camila e o relatório simples que Júlia enviara por e-mail.
Quando terminou, esperava ouvir consolo.
Helena não ofereceu.
"Sua esposa não improvisou", ela disse.
Rafael apertou as mãos.
"Então estou ferrado."
"Não. Quem improvisa deixa bagunça. Quem planeja deixa rastro."
Ela virou o notebook para ele. Na tela, alinhou as datas: transferências, suposto atendimento, viagem, proposta de divórcio, ameaça de provas complementares.
"O prontuário é o centro. Se ele for falso, todo o resto muda de natureza."
"Como eu provo?"
"Com calma. Primeiro, não procure sua esposa pessoalmente. Não entre no apartamento sem orientação. Não responda provocação. Não grave conversa em ambiente que possa gerar discussão física. Eles querem uma cena."
Rafael pensou em Camila na frente do prédio. A câmera já estava pronta antes dele chegar.
"E o dinheiro?"
"Vamos pedir extratos completos, origem e destino. Também vamos notificar a clínica para preservar prontuário, logs de acesso, autorização de atendimento e documentos de consentimento."
"Eles podem apagar."
"Podem tentar. Isso também vira prova."
Rafael soltou uma risada sem humor.
"Doutora, com todo respeito, eu dirijo caminhão. Não jogo xadrez com médico."
Helena fechou a pasta.
"A partir de hoje, joga comigo."
O celular dele tocou. Camila.
Rafael olhou para Helena.
"Atenda no viva-voz", ela disse. "Fale pouco."
Ele atendeu.
"Rafael", Camila começou, doce demais. "Você recebeu os documentos?"
"Recebi."
"Então assina hoje. O Marcelo conhece gente que pode ajudar a manter isso discreto. Mas se você sumir ou tentar me prejudicar, eu vou ter que me proteger."
Helena ergueu dois dedos: silêncio.
"Você tirou dinheiro da conta", Rafael disse.
"Eu tirei o que era necessário para o tratamento e para eu não ficar desamparada. Você sabe que não está bem."
"Eu estava em Maringá no dia do laudo."
Do outro lado, uma pausa minúscula.
"Você está confundindo as coisas."
"Estou?"
"Rafael, não começa. Minha mãe está aqui. Ela ouviu você me ameaçar várias vezes."
A voz de Dona Sônia entrou ao fundo:
"Assina logo, seu miserável. Pelo menos uma vez na vida seja homem."
Rafael sentiu o rosto queimar. Helena fez um gesto firme com a mão, como quem segura um volante numa curva.
"Eu vou ler", ele disse.
Camila suspirou.
"Leia rápido. Hoje à noite vamos estar no cartório. O Marcelo vai mandar um motorista te buscar."
"Marcelo?"
"Doutor Marcelo. Ele está nos ajudando porque eu não tenho mais marido."
A ligação caiu.
Helena ficou alguns segundos em silêncio.
"Ela colocou o médico na negociação do divórcio", disse.
"Isso ajuda?"
"Muito."
Rafael deveria sentir alívio. Sentiu enjoo.
"Ela está com ele, não está?"
Helena não respondeu como amiga. Respondeu como advogada.
"É provável que exista vínculo pessoal ou financeiro. Para o processo, precisamos provar o que gera efeito jurídico: fraude, coação, falsificação, desvio de bens."
"Eu quero que eles paguem."
"Então não dê a eles uma briga. Dê documentos."
Às oito da noite, Rafael entrou numa sala reservada de cartório em Santo Amaro. Camila estava ao lado de Marcelo Duarte, um homem de terno azul, sorriso branco e relógio caro demais para quem dizia estar apenas ajudando uma paciente. Dona Sônia usava perfume forte e expressão de vitória.
Sobre a mesa, a proposta de divórcio.
"Você veio", Camila disse, fingindo surpresa.
"Vim."
Marcelo estendeu a mão.
"Rafael, eu espero que entenda que todos queremos o melhor para a Camila."
Rafael olhou para a mão até Marcelo recolhê-la.
"Quero ler tudo."
Dona Sônia bufou.
"Agora virou estudado."
Rafael folheou as páginas. Helena havia pedido que ele não assinasse nada sem enviar foto. Ele tirou imagens de cada folha, sob o pretexto de mandar para um contador. Marcelo reclamou. Camila disse para deixar, com a confiança de quem achava que já tinha vencido.
Então Marcelo colocou outro documento na mesa.
"Também precisamos da sua ciência sobre a dívida médica. A Camila assumiu custos altos por causa do seu quadro. Se você reconhecer, facilita o acordo."
Rafael leu.
R$ 124.000,00 em tratamentos, consultas, avaliações emergenciais e acompanhamento psiquiátrico.
Serviços que ele nunca recebeu.
Assinatura de Camila como responsável financeira.
Garantia com bens do casal.
Rafael ergueu os olhos.
"Vocês querem que eu assine que devo isso?"
Camila apertou os lábios.
"Você deve mais do que dinheiro."
O celular de Rafael vibrou. Mensagem de Helena.
Assine apenas recebimento de minuta. Não assine confissão. Peça que eles assinem declaração de origem dos documentos. Diga que precisa disso para aceitar.
Rafael respirou devagar.
"Eu assino que recebi a proposta", disse. "Mas, para eu aceitar conversar, quero que vocês assinem uma declaração dizendo que todos esses documentos vieram da clínica do doutor Marcelo e que a Camila autorizou as transferências."
Marcelo riu.
"Isso é desnecessário."
"Então também é desnecessário eu assinar."
Camila tocou no braço de Marcelo.
"Assina. Ele está só tentando parecer importante."
Dona Sônia sorriu.
"Deixa o pobre levar um papel para dormir abraçado."
Marcelo hesitou por um segundo. Depois pegou a caneta.
Rafael manteve o rosto vazio enquanto os três assinavam a declaração.
Quando saiu do cartório, mandou a foto para Helena.
A resposta veio quase imediata.
Perfeito. Agora vamos fazer com que eles assinem mais.
