Capitulo 2

Mateus passou a noite no pátio logístico onde costumava esperar carga. Dormir seria exagero. Ele encostou o banco da cabine, tirou a bota, fechou os olhos e escutou, hora após hora, o ronco dos outros caminhões entrando e saindo como se o mundo ainda obedecesse a uma ordem simples: coleta, rota, entrega, pagamento.

A vida dele não obedecia mais.

Às cinco da manhã, quando o primeiro café do posto saiu queimado e forte, ele já tinha uma lista no bloco de notas do celular. Tacógrafo. GPS. Comprovantes de pedágio. Nota fiscal de frete. Canhoto de entrega. Extrato bancário. Conversas antigas. Nome da clínica.

Mateus não era homem de falar bonito, mas sabia montar rota. E uma mentira, para ele, era só uma carga mal amarrada: se puxasse a cinta certa, tudo caía.

Helena Duarte, supervisora de despacho da transportadora, apareceu no pátio com uma prancheta debaixo do braço e olheiras de quem discutia com motorista desde antes do sol nascer. Ela parou ao ver Mateus sentado na mureta.

"Você não ia folgar três dias?"

"Eu também achava."

Ela observou o rosto dele, o corte pequeno perto da sobrancelha que ele nem sabia que tinha, a camisa amassada da viagem anterior.

"Problema em casa?"

Mateus pensou em mentir. Depois tirou a folha dobrada do bolso e entregou a ela.

Helena leu em silêncio. O rosto dela não fez drama. Só ficou mais duro.

"Essa clínica fica aqui na cidade."

"Eu sei."

"E essa data..." Ela olhou para o pátio, onde um mecânico engatava uma carreta. "Você estava na carga da Metalforte."

"Estava."

"Eu liberei sua rota."

Pela primeira vez desde a calçada de casa, Mateus sentiu o chão voltar meio centímetro.

Helena levou ele até a sala de operações, um cômodo estreito com ar-condicionado fraco, três telas e cheiro de toner. Sem fazer perguntas demais, abriu o sistema da transportadora. Localizou a viagem. Imprimiu a ordem de coleta, a nota fiscal de frete, o comprovante de entrega com assinatura digital e o registro de parada obrigatória.

"Não é documento para sair mostrando em grupo de família", ela avisou. "Mas se isso for para advogado, serve."

"Obrigado."

"Tem mais." Ela apontou para o horário no relatório. "Aqui o tacógrafo registrou movimento contínuo. Aqui, parada em pedágio. Aqui, abastecimento com nota no CNPJ da transportadora. Quem fez esse exame por você?"

Mateus olhou para o nome da médica no papel. Não conhecia.

"Ninguém."

Helena encostou na cadeira. "Então fizeram sem você."

As palavras ficaram no ar sem precisar de enfeite.

Ele saiu da sala com uma pasta de documentos e foi direto ao banco. A agência ainda estava abrindo. Mateus odiava fila, formulário, senha impressa, mas naquele dia atravessou tudo sem reclamar. Quando a gerente da conta conjunta sorriu e perguntou se era sobre investimento, ele colocou o CPF na mesa e pediu extrato completo dos últimos noventa dias.

O sorriso dela diminuiu depois do terceiro Pix.

Transferências fracionadas. Valores quebrados. Algumas para Bianca. Outras para uma conta de Renato Valença Consultoria Empresarial. Havia pagamentos para locadora de veículos, loja de relógios, reserva de buffet, entrada de salão de eventos e uma compra parcelada numa boutique de shopping.

Mateus contou sem respirar.

O dinheiro da entrada dos dois caminhões usados, que Augusto Ferraz tinha indicado num leilão de frota, tinha virado teatro.

"O senhor reconhece essas transações?" a gerente perguntou, já sem vontade de parecer neutra.

"Reconheço o roubo."

Ela explicou que, por ser conta conjunta, havia limites para contestação imediata. Explicou bloqueio judicial. Explicou protocolo. Mateus ouviu tudo, pediu cópia, carimbo, número de atendimento, e saiu antes que a raiva encontrasse uma parede.

No estacionamento do banco, abriu as redes sociais de Bianca.

Ele não tinha o hábito de olhar. Preferia estrada a vitrine. Mas ali estava ela, sorrindo num restaurante que ele nunca tinha pisado, com uma taça na mão e uma legenda sobre "finalmente ser tratada como merece".

Na foto seguinte, Renato aparecia de óculos escuros ao lado de uma BMW preta.

Mateus ampliou a imagem.

O carro tinha adesivo discreto de locadora no para-brisa.

Renato usava relógio grande demais para o pulso, terno justo demais para o corpo e um sorriso de homem que tinha aprendido a vender fumaça como se fosse terreno. Bianca estava encostada nele, a mão no peito dele, usando uma bolsa que Mateus reconheceu do extrato.

Ele sentiu uma coisa diferente da dor.

Vergonha era quente.

Raiva era cega.

Aquilo era frio.

Mateus ligou para o número que Augusto Ferraz tinha deixado semanas antes, quando falara dos caminhões de leilão.

"Seu Augusto, é Mateus."

"Fala, rapaz. Já decidiu sobre os dois Volkswagen?"

Mateus fechou os olhos.

"Tive um problema com o dinheiro."

Do outro lado, o silêncio de empresário experiente não julgou rápido.

"Problema de banco ou de gente?"

"De gente."

"Então resolve primeiro com papel. Caminhão sem documento dá prejuízo. Vida também."

Mateus quase riu. "Estou juntando."

"Boa. E cuidado com quem parece rico demais em foto. Rico de verdade não precisa alugar plateia."

Depois da ligação, Mateus voltou ao caminhão. Abriu uma pasta antiga no armazenamento da câmera da cabine. O sistema gravava por ciclos, mas ele costumava fazer backup quando deixava a carreta em manutenção. Havia vídeos de dias aleatórios: estrada, posto, oficina, Bianca entrando para pegar documentos, Caio mexendo no porta-luvas.

Ele pesquisou por data.

Alguns arquivos tinham sido apagados.

Não pelo sistema.

Apagados manualmente.

Mateus ficou olhando para os espaços vazios na sequência de gravações. Quem roubava dinheiro podia também apagar rastro. Quem falsificava exame podia errar horário. Quem posava de rico com carro alugado podia esquecer uma câmera pequena apontada para dentro da cabine, instalada atrás do suporte do GPS.

Ele abriu a lixeira interna do dispositivo.

Um arquivo recuperável apareceu, marcado três dias antes da falsa coleta do exame.

Na miniatura, Bianca estava sentada no banco do passageiro.

Ao lado dela, meio fora do quadro, aparecia a manga azul de um terno masculino que Mateus nunca tinha usado.

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