Capitulo 3

O vídeo travou duas vezes antes de abrir. Mateus estava com o celular apoiado no volante e o carregador ligado direto na tomada da cabine. Lá fora, o pátio começava a encher com motoristas reclamando de tabela de frete, pneu careca, nota atrasada. Dentro, só havia a respiração dele e o chiado baixo da gravação recuperada.

A imagem era torta, mas limpa.

Bianca entrou primeiro, olhando para a porta da transportadora como quem conferia se ninguém via. Usava a chave reserva do caminhão. Mateus lembrou de ter dado aquela chave a ela depois de uma pane na estrada, anos antes. Na época, achou romântico confiar nela até para buscar documento na cabine.

Renato Valença veio depois.

Sem óculos escuros, sem pose de investidor. O cabelo estava suado, o colarinho aberto, e ele parecia menor dentro do espaço estreito do caminhão.

"Rápido", Bianca disse. "Ele pode voltar para pegar a nota."

"Você vive com medo desse cara."

"Eu vivo com nojo." Ela revirou os olhos. "Quinze anos cheirando diesel, falando de pneu e rota. Se eu não tirar o que é meu agora, vou envelhecer esperando ele comprar caminhão velho."

Mateus não se mexeu. A frase entrou devagar, porque ainda encontrou lugares dentro dele que defendiam Bianca por hábito.

Renato pegou uma pasta no porta-luvas. "Aqui tem cópia de RG, CPF, comprovante de endereço..."

"E a assinatura dele. A gente usa para comparar."

"Meu contato na clínica disse que consegue gerar o laudo, mas precisa parecer que ele foi lá. Vai custar."

"Paga com o Pix da conta conjunta."

Renato riu. "Conta conjunta é lindo. O trouxa deposita, você respira, o dinheiro muda de dono."

Bianca deu um tapa de brincadeira no braço dele. "Não chama ele de trouxa antes de eu ficar com a casa."

Mateus avançou o vídeo alguns segundos, depois voltou. Queria ter ouvido errado. Não ouviu.

Renato abriu outra folha. "E o relatório psicológico?"

"Minha prima trabalha no consultório. Ela não assina, mas consegue um modelo. A advogada disse que, com exame positivo e relato de agressividade, ele sai queimado. Se reagir na frente dos vizinhos, melhor."

"Por isso a cena na calçada."

"Minha mãe adora uma plateia."

Os dois riram.

Mateus pausou.

O rosto de Bianca congelado na tela parecia o de uma desconhecida usando a pele da esposa dele. O casamento inteiro passou por ele em cortes ruins: ela reclamando das viagens, ele prometendo que a frota mudaria a vida deles, ela dizendo que tinha vergonha do cheiro de óleo na garagem, ele achando que era cansaço. Ele tinha confundido desprezo com impaciência.

Voltou a dar play.

Renato puxou Bianca pela cintura. "Quando eu fechar com aquele pessoal do evento, a gente aparece como casal de verdade. Investidor e mulher elegante. Nada de caminhoneiro."

"Primeiro o divórcio."

"Primeiro o dinheiro." A voz dele ficou mais baixa. "A locadora está cobrando, Bianca. O relógio não está pago. E Vítor já perguntou quando eu cubro o empréstimo."

"Você disse que tinha capital."

"Eu tenho imagem. Capital vem quando idiota acredita na imagem."

Bianca ficou séria pela primeira vez. "Não me mete com agiota, Renato."

"Então faz o Mateus assinar logo. Se ele brigar, melhor. Você pede medida protetiva, bloqueia tudo, vende a história da esposa sofrida. Mulher chorando ganha."

Mateus salvou uma cópia do arquivo em três lugares: celular, pen drive, nuvem. Depois salvou outra só com o áudio. Depois tirou fotos da tela nos trechos em que Bianca citava a clínica, a advogada, a conta conjunta e a cena na calçada.

Não era só traição.

Era método.

Seu primeiro impulso foi dirigir até a delegacia. O segundo foi ir à casa e jogar o vídeo na televisão da sala. O terceiro, mais antigo e mais perigoso, foi encontrar Renato e resolver no braço.

Ele não fez nenhum dos três.

Helena apareceu na porta da cabine antes do meio-dia. Bateu duas vezes.

"Você está pálido."

Mateus virou a tela para ela. "Assiste."

Ela assistiu em pé, sem interromper. Quando o vídeo terminou, prendeu o cabelo num coque apertado, sinal de que o dia tinha piorado.

"Com isso e os documentos de rota, você já tem caminho para polícia e advogado."

"Tenho."

"Mas você está com cara de quem vai fazer outra coisa."

Mateus olhou para o pátio. Um caminhão entrava carregado de madeira. Outro saía vazio. Homens que pareciam quebrados por fora movimentavam milhões em carga todos os dias porque sabiam prazo, risco e confiança.

"Se eu entregar agora", ele disse, "eles vão dizer que foram enganados por alguém da clínica, que o dinheiro era acordo entre marido e mulher, que o Renato só pegou emprestado. Bianca chora, a mãe grita, Caio corta vídeo, e eu passo meses provando que não sou o monstro."

"E se esperar?"

"Eles ficam confiantes."

Helena cruzou os braços. "Confiante faz besteira."

"Ganancioso assina papel."

Ela entendeu antes dele explicar. "Mateus..."

"Eu não vou falsificar nada. Não vou encostar em ninguém. Só vou deixar eles mostrarem o que são quando acharem que estou no chão."

"Isso pode sair caro."

"Já saiu."

No fim da tarde, Mateus foi até um bar pequeno atrás do terminal, desses que serviam almoço a motorista e conversa a homem sem pressa. Vítor Salles estava numa mesa do canto, camisa polo, corrente discreta, celular com duas capinhas de banco digital. Mateus o conhecia de vista. Vítor intermediava dinheiro para quem não podia aparecer em agência e cobrava como quem sorria com faca no bolso.

"Rocha", Vítor disse. "Não sabia que você precisava de mim."

"Eu não preciso."

"Então veio por amizade?"

Mateus sentou. "Vim falar de Renato Valença."

O sorriso de Vítor perdeu metade da luz.

"Esse nome está ficando caro."

"Ele vai precisar de mais dinheiro para bancar uma festa e uma oportunidade de logística."

"Que oportunidade?"

Mateus colocou o celular virado para baixo na mesa.

"Uma que não existe para ele."

Vítor avaliou Mateus por alguns segundos. "Você quer que eu empreste?"

"Quero que você ofereça."

"E por que eu faria isso?"

"Porque ele já te deve. Porque vai assinar garantia da família da minha esposa. Porque eu vou garantir que, quando tudo estourar, você tenha papel suficiente para cobrar pelo caminho legal e medo suficiente para contar a verdade."

Vítor soltou uma risada curta. "Caminhoneiro saiu da estrada e virou estrategista?"

Mateus se levantou.

"Não. Só aprendi a amarrar carga perigosa."

Antes de sair, ele virou de volta.

"E Vítor, quando Renato perguntar como você soube da oportunidade, diga que ouviu no pátio. Caio gosta de repetir notícia que não entende."

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