Capítulo 1

Minha filha, que normalmente era tão obediente, de repente fez questão de ir comigo para a Europa.

— Só nós duas. O pai não pode ir.

O Michael nem piscou — comprou as passagens no mesmo dia.

Eu achava que ele era o pai perfeito, me dando e dando à Lily um tempo de qualidade entre mãe e filha.

Até aquela maldita ligação.

.....

Eu estava no quarto do hotel, atualizando o Michael sobre a nossa viagem.

Achei que tinha desligado. Ia jogar o celular na cama quando ouvi a voz de uma mulher.

Emma.

— Tem certeza de que a Sarah não vai voltar mais cedo? — Ela estava ofegante.

A voz do Michael veio em seguida: — Relaxa. A Lily já resolveu isso. A garota quer aquele piano com força.

— Meu Deus, Michael... — a Emma gemeu. — Te foder na sua cama é uma adrenalina. Olha, como eu tô com a camisola da Sarah?

O som de corpos se chocando, misturado aos gemidos abafados do Michael.

A Emma continuou: — Muito melhor do que na minha casa. Sabe o que me excita? Ficar aqui deitada, imaginando a cara da Sarah quando descobrir.

O Michael riu — um som gutural, quase animal.

A voz da Emma ficou mais ousada. — Admite, Michael. Me foder na cama que você divide com a Sarah... é incrível, não é?

Aí vieram sons mais fortes, mais violentos.

— Porra, sim. — O Michael respirava com dificuldade. — E a Lily... ela é perfeita. A garota sabe distrair a Sarah como ninguém, como uma profissional do caralho.

A bile subiu na minha garganta.

Minhas mãos começaram a tremer. Eu mal conseguia segurar o celular.

O Michael e a amante dele estavam transando na minha cama.

E quem estava acobertando os dois era a minha filha.

O tom da Emma ficou cortante: — Por que você tem tanto medo de ela saber? Ela descobre, você se divorcia, e a gente pode ter a nossa vida.

O Michael ficou em silêncio por um instante. Quando voltou a falar, a voz dele estava séria, mortal.

— Eu te disse desde o começo: nada de divórcio. A Sarah é minha esposa, meu porto seguro, a pessoa mais importante da minha vida. Mas você...

— Você me faz me sentir vivo de novo. Como se eu estivesse conquistando alguma coisa. Essa emoção, essa adrenalina proibida... eu não tenho isso com a Sarah.

— Emma, você é selvagem, você é suja, você grita o meu nome na cama dela. É isso que eu quero.

Os sons ficaram ainda mais intensos.

O grito agudo da Emma quando ela gozou.

O palavrão baixo do Michael.

E, por fim, a respiração satisfeita de duas pessoas.

Eu fiquei sentada naquele quarto de hotel, pálida como os lençóis, mal conseguindo respirar.

A gente nunca imaginou que o Michael fosse trair.

Nós fomos o primeiro amor um do outro.

Namoradinhos do ensino médio — história clássica, né?

No segundo ano da faculdade, o Michael apareceu no meu dormitório, com os olhos vermelhos.

O pai dele foi pego traindo. A mãe dele fez as malas e foi embora.

O Michael desabou nos meus braços, chorando.

— Eu odeio traidores. Eu nunca vou ser como ele. Nunca.

As lágrimas dele encharcaram minha blusa.

— Eu juro, Sarah, eu nunca vou fazer você passar pelo que a minha mãe passou.

Eu abracei ele, fazendo carinho no cabelo dele. — Eu acredito em você, Michael. A gente é diferente.

Ele me apertou mais forte.

Naquela época, eu realmente achava que a gente era diferente.

Com as mãos tremendo, eu encerrei a ligação e comecei a procurar o perfil da Emma nas redes sociais.

Cliquei na galeria de fotos dela, e o meu mundo desabou por completo.

No último Dia de Ação de Graças — a foto mostrava Emma, Michael e Lily num parque de diversões.

Eu me lembrava daquele dia — eu estava de cama, com uma febre altíssima. Lily parecia tão preocupada: “Mãe, descansa. Eu tô tão entediada… o papai pode me levar no parque de diversões?”

Eu estava fraca demais pra fazer qualquer coisa além de assentir.

No mês passado — na foto, os três num resort de praia. Lily, com um biquíni novo, sentada no colo da Emma, e os braços do Michael envolvendo as duas.

Foi naquele fim de semana que eu fui a uma festa. Michael disse que ia levar a Lily pra casa dos pais dele. A Lily ainda ligou, toda manhosa, pra me convencer: “Mãe, posso dormir na vovó com o papai?”

Eu disse que sim, claro, e lembrei ela de se comportar.

Cada foto.

Cada mentira que a minha filha contou.

Minhas lágrimas caíam na tela.

Os comentários estavam cheios de mensagens carinhosas.

“Vocês são uma família tão feliz!”

Eu tapei a boca, lutando contra a vontade de vomitar.

Quando eu dei à luz a Lily, eu quase morri — uma hemorragia enorme. Michael desabou do lado de fora do centro cirúrgico.

Quando eu acordei, ele estava segurando a minha mão, com lágrimas escorrendo pelo rosto.

“Uma criança é o suficiente. Eu não quero correr o risco de te perder de novo.”

A partir daquele momento, nós viramos uma família feliz de três. Estável, feliz, perfeita.

Mas agora, a filha que eu quase morri pra trazer ao mundo estava ajudando o pai a trair.

Eu sentia como se alguém estivesse esmagando o meu peito, apertando meu coração com força dentro do punho.

Eu não conseguia respirar. Não conseguia pensar.

Eu não sei quanto tempo fiquei ali sentada até a tela do meu celular acender.

O nome do Jason apareceu.

“Sarah, eu ralei pra caramba pra te conseguir essa oportunidade. Três anos. Você pode abrir seu próprio escritório. Eu sei que família é importante pra você, mas seu talento não pode ser desperdiçado. Você não quer lutar pela sua carreira mais uma vez?”

Com três anos de casamento, a empresa do Michael decolou.

“Sarah, você cuida da casa, eu construo o nosso futuro. É o arranjo perfeito.”

“Você não precisa mais trabalhar. Eu vou te dar tudo.”

Eu aceitei.

De arquiteta a dona de casa em tempo integral.

Eu nunca achei que “dona de casa” fosse um palavrão.

Até hoje.

Eu baixei a cabeça e encarei a mensagem do Jason.

Se eu não tivesse escutado, por acaso, a conversa no telefone do Michael com a amante, talvez eu até tivesse levado adiante meu plano de recusar oficialmente a oportunidade quando voltasse pra casa, só pra continuar protegendo o que eu achava que era a nossa pequena família feliz.

Mas a realidade tinha me dado um tapa na cara.

Eu abri a conversa do Jason.

Respondi: “Jason, quando eu posso começar?”

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