Capítulo 2
Comecei a arrumar minhas malas.
Apesar de voltarmos para casa amanhã, só de pensar em como Michael e Lily tinham se unido para me enganar, eu sentia um nojo absoluto daquela casa.
Enviei um e-mail para o melhor escritório de advocacia especializado em divórcios, pedindo uma consulta.
Anotei uma lista detalhada de bens — imóveis, ações, contas bancárias, as participações do Michael na empresa.
Depois de doze anos de casamento, eu devia exigir a parte que era minha por direito.
Olhando para Lily dormindo, meus sentimentos eram confusos.
Ela tinha cooperado com o pai para me enganar, mas, no fim das contas, ainda era só uma criança.
“Eu vou lutar pelo melhor futuro pra você, mesmo você tendo me traído”, sussurrei.
Abri meu notebook e entrei no sistema de segurança da nossa casa.
As imagens das câmeras passaram, cena por cena.
Durante a semana em que estivemos na Europa, Michael levou a amante para casa quase todos os dias.
Sala, cozinha, suíte do casal — em todo lugar havia cenas íntimas dos dois.
E o mais nojento: na suíte, a amante do Michael estava usando a minha camisola de renda.
A minha camisola. A minha cama.
Repugnante.
Salvei todos os vídeos e fechei o computador.
Meu coração parecia como se alguém tivesse arrancado um pedaço dele, uma dor quase inacreditável.
Meu celular vibrou. Michael tinha mandado uma mensagem: “Amor, tô morrendo de saudade. Não vejo a hora de você voltar pra casa.”
Olhei para a mensagem, lembrando que, poucas horas antes, durante a nossa ligação, ele ainda estava sendo íntimo com a amante.
Que ironia.
No dia seguinte, no aeroporto internacional, Michael me esperava na saída com um enorme buquê de rosas vermelhas.
“Bem-vinda de volta, querida”, disse ele, me abraçando.
Eu senti nojo, mas me forcei a parecer tranquila.
No carro, a caminho de casa, Michael tirou uma caixinha.
“Presente de boas-vindas.”
Um colar de diamantes, impecável.
“Eu senti sua falta a cada minuto que você ficou longe.”
Lily disse animada do banco de trás: “Mamãe, é tão lindo! O papai disse que escolheu especialmente pra você!”
Se eu ainda não soubesse de nada.
Então, naquele momento, diante daquele presentinho que meu marido tinha preparado especialmente para mim, eu talvez tivesse me emocionado até as lágrimas, como sempre, e depois abraçado os dois, dizendo que ter os dois era a coisa mais feliz da minha vida.
Mas eu realmente não conseguia mais.
Olhando para o colar, eu nem tinha coragem de estender a mão e pegar.
Talvez o clima estivesse estranho.
E, bem na hora em que Michael ia dizer alguma coisa, eu reparei numa nota fiscal quase caindo do bolso dele.
Por impulso, eu peguei.
Era o comprovante de compra de uma joalheria.
Dois valores idênticos: US$ 8.500.
Um para mim, outro para ela.
“Você derrubou um comprovante”, eu disse, mantendo a calma.
O rosto de Michael mudou na mesma hora, e ele arrancou o papel da minha mão.
“É de uma cliente”, ele respondeu, olhando de relance para Lily.
Lily cooperou imediatamente: “Sim, mamãe. O papai disse que era pra uma parceira de negócios muito importante. Eu sugeri que ele comprasse igual!”
Essa criança já tinha uma habilidade absurda pra mentir.
Igualzinha ao pai.
Aquilo só me trouxe um frio desolador no peito.
Traída ao mesmo tempo pelo marido e pela filha.
Essa carne da minha carne ainda estava ajudando o pai e a amante a encobrir tudo, como se eu não fosse nada, como se eu nem fosse a mãe dela.
Comparado à dor da traição do Michael, o comportamento da Lily me gelava até os ossos.
Michael percebeu minha frieza e passou a agir com ainda mais cuidado.
Ele pegou na minha mão: “Deixa eu te mostrar hoje à noite o quanto eu senti sua falta.”
Havia uma intenção sugestiva no olhar dele quando beijou meu pescoço.
“Hoje à noite, só você e eu. A Lily pode dormir no quarto dela.”
Eu me lembrei das imagens da amante na nossa cama e senti ânsia.
“Eu tô cansada do voo.”
“Ah, Sarah. Já faz uma semana.” As mãos dele começaram a deslizar.
“Dirige pra casa primeiro, Michael.” Eu afastei a mão dele e virei o rosto para a janela.
Quando chegamos, eu me sentei diante da penteadeira, olhando no espelho para mim mesma com o colar de diamantes.
Michael me abraçou por trás com delicadeza: “Você tá linda.”
Respirei fundo e me controlei.
“Michael, eu preciso te falar uma coisa.”
Depois de tantos anos de sentimentos, eu estava longe de ser tão calma quanto parecia por fora. Eu só não queria perder totalmente o controle.
Vamos nos separar numa boa, pensei.
Talvez meu tom estivesse sério demais. Michael, que sorria até um instante atrás, pareceu confuso e, sem perceber, endireitou a postura, falando com suavidade:
“Está acontecendo alguma coisa?”
Eu olhei para ele, para aquele homem que eu tinha amado por doze anos. Só de pensar na traição dele, eu me sentia péssima.
Uma dor intensa e pulsante me envolveu.
Eu respirei fundo várias vezes até, por fim, conseguir me acalmar.
E comecei devagar:
“Michael, vamos nos div...”
