Capítulo 3
“Michael, vamos se div...”
Antes que eu conseguisse terminar a frase, o celular do Michael tocou de repente, com um toque que eu nunca tinha ouvido.
Ele se levantou na hora, apertando o telefone na mão enquanto ia a passos largos para a sala.
— Desculpa, Sarah, ligação urgente de um investidor. Deixa eu atender.
Eu não disse nada, mas, pela expressão no rosto dele, eu sabia que era só mais uma mentira.
Depois de falar isso, ele olhou para a Lily.
A Lily assentiu e correu na hora para abraçar o meu braço, tagarelando animada sobre a nossa viagem, tentando desviar a minha atenção.
Essa criança que eu tinha criado com as minhas próprias mãos tinha virado uma faca apontada direto para mim.
Eu abaixei o olhar para ela e não consegui evitar a pergunta:
— Lily, você ama mesmo a mamãe?
A Lily, que até um segundo atrás não parava de falar, ficou muda de repente. Piscou e, então, abriu o sorriso mais doce do mundo.
— Claro! Eu amo a mamãe mais do que tudo!
Dito isso, ela ficou na ponta dos pés e me deu um beijo na bochecha.
Nesse meio-tempo, o Michael já tinha terminado a ligação.
Ele veio depressa na minha direção, com o rosto sério.
— Sarah, eu preciso sair. A professora de piano da Lily pediu uma reunião urgente.
Os dedos dele esfregaram, sem perceber, a aliança — e eu me lembrei de repente que esse era o tique dele quando mentia.
Então ele olhou para a Lily de novo.
A Lily colaborou, assentindo:
— É, mamãe. A professora Emma falou pro papai que eles precisam conversar sobre o meu acampamento de música em Viena no verão. Eu esqueci de comentar.
Num segundo era investidor; no outro, era a professora de piano.
O Michael nem me deu chance de responder. Pegou a chave do carro e saiu.
— Dirige com cuidado, papai! — a Lily gritou, toda meiga.
No instante em que a porta se fechou, eu não consegui evitar uma risada amarga.
Essa dupla de pai e filha achava mesmo que eu era idiota.
Vendo o Michael ir embora, eu fui direto para a suíte do casal.
A Lily veio atrás, observando enquanto eu arrumava as coisas. Ela piscou:
— Mamãe, você tá fazendo as malas?
— Tô pensando em ficar uns dias na casa do vovô e da vovó — eu disse, como quem não quer nada.
A Lily pareceu lembrar de alguma coisa e saiu correndo.
Eu continuei arrumando minhas coisas no quarto.
Eu voltei em silêncio para a suíte e encarei a nossa cama king-size, lembrando das imagens das câmeras deles juntos.
Só de pensar no Michael e naquela mulher transando nessa cama, eu sentia vontade de vomitar.
Eu resolvi tirar todos os lençóis, tudo, sem deixar nada.
Entre o colchão e a base, meus dedos tocaram um pedacinho de tecido sedoso.
Eu puxei — uma calcinha de renda branca, definitivamente não do meu tamanho.
Era o “souvenir” que a amante do meu marido tinha deixado na minha cama.
Lutando contra o enjoo, eu coloquei aquilo num saco plástico e fechei.
Assim que terminei, ouvi a Lily ao telefone no escritório.
— Papai, a mamãe talvez vá pra casa do vovô e da vovó, então você não precisa voltar cedo.
— Hum... eu sei.
— Ah, e aquela boneca de edição limitada que a Emma me deu é tão linda. Não esquece de agradecer ela por mim.
Então essa tal “professora Emma” era a amante do meu marido.
Eu não ouvi o resto.
Eu só me senti completamente despedaçada.
Como eu ia viajar para Nova York em dez dias, nem me dei ao trabalho de procurar outro lugar. Eu me hospedei num hotel.
Sem precisar considerar as preferências do Michael nem as necessidades da Lily, a vida ficou surpreendentemente leve.
Na primeira noite depois que eu saí, o Michael me mandou mensagem: “Amor, já tô com saudade. Quando você volta pra casa?”
Eu fiquei olhando para aquilo, imaginando a cena enquanto ele digitava — talvez deitado na nossa cama, talvez com aquela mulher ao lado.
Uma onda de nojo, como eu nunca tinha sentido, me tomou.
Eu apaguei a mensagem na hora.
Ainda em Paris, eu já tinha entrado em contato com a melhor advogada de divórcio.
A Margaret me disse ao telefone:
— Sra. Stevens, suas provas são extremamente contundentes. Os vídeos de vigilância, as ligações gravadas e aquele... indício físico comprovam claramente a infidelidade.
— Os papéis do divórcio estão prontos. Como o Michael é a parte culpada, a senhora tem direito à metade de todos os bens do casamento, incluindo as ações da empresa dele.
Nesse casamento, quem estava errado era o Michael.
Então eu não ia abrir mão de um centavo do que era meu por direito.
Três dias depois, eu recebi um convite para o concerto da escola da Lily.
“Prezado Sr./Sra. Stevens: Temos a honra de convidá-los para o recital de piano de sua filha, Lily. Temos especial satisfação em anunciar que a renomada professora de piano Emma Rodriguez estará presente como nossa professora convidada especial...”
Eu não esperava ter a chance de conhecer a amante do Michael antes de ir embora.
Eu iria a esse recital para apoiar a apresentação da minha filha.
E também queria conhecer a mulher que destruiu a minha família.
Antes do concerto, eu mandei uma empresa de entregas levar uma caixa de presente elegante para o escritório do Michael.
Dentro estavam os papéis do divórcio e a calcinha de renda branca.
