Capítulo 1
Nunca entendi por que meu corpo desabava toda vez que eu fazia a prova Merritt.
No primeiro ano, desmaiei no meio da prova. Num segundo eu estava resolvendo uma questão; no seguinte, a sala inclinou e escureceu. Me carregaram para fora numa maca, com metade do teste ainda em branco.
No segundo ano, eu nem cheguei tão longe. Sentei, a página começou a ondular diante dos meus olhos e, então, não houve mais nada.
A essa altura, a cidade inteira já me conhecia como a garota que desmaiava. Em primeiro lugar em todo simulado, em toda prova-treino — e um desastre no instante em que valia de verdade.
Amanhã seria minha terceira tentativa, e a última. Aquela prova era o único jeito de eu conseguir pagar a faculdade e, depois de dois apagões, ninguém além de mim ainda achava que eu fosse dar conta.
A porta do meu quarto se abriu.
— Ainda acordada, Sloane? Fiz um chá pra você. Bebe enquanto está quente e vai pra cama.
Minha mãe entrou com uma caneca fumegante, sorrindo daquele jeito macio e caloroso de sempre. Pousou a caneca na minha mesa e afastou o cabelo do meu rosto.
— Você se exige demais. Eu não me importo com o seu resultado amanhã. Eu só quero você saudável. Bebe isso, dorme um pouco, faz o seu melhor. É tudo o que eu peço.
O chá tinha um cheiro doce, como sempre. Minha boca salivou.
E alguma coisa dentro de mim disse, alto e certeiro: não.
Nos dois anos, ela tinha me trazido essa mesma caneca na noite anterior. Nos dois anos, eu bebi cada gota. Nas duas vezes, acordei numa cama de hospital com a prova já terminada.
— Por que está demorando tanto? — meu irmão, Cole, apareceu na porta, mascando chiclete. — Ela faz chá pra você toda noite. Você acha que isso é de graça? — Ele abriu um sorriso de canto. — Se eu tivesse desmaiado duas vezes, já tinha desistido e arrumado um emprego. Você pode beber um galão disso aí e ainda assim engasgar.
— Cole. — A voz da minha mãe continuou suave. — Não fale assim com a sua irmã. — Aí voltou a olhar para mim, gentil outra vez. — Não escuta ele. Vai, bebe tudo. Eu espero e levo a caneca.
Eu olhei para todo aquele amor no rosto dela, e meu estômago revirou.
Peguei a caneca e me obriguei a sorrir.
— Está muito quente. Vou deixar esfriar um pouco antes.
— Frio vai te dar dor de estômago, e você tem a prova amanhã. — A voz dela ganhou uma ponta de aspereza, e os olhos desceram para a caneca nas minhas mãos. — Bebe. Eu vou esperar.
Um gelo subiu pela minha espinha.
Eu ergui a caneca e então fingi uma tosse na manga.
— Desculpa... meu estômago está meio ruim. Você pode pegar um pouco de água morna pra mim primeiro? Eu bebo logo depois.
Ela franziu a testa, calculando se eu estava mentindo. Depois suspirou.
— Você dá um trabalho... — E saiu.
No segundo em que os passos dela sumiram pelo corredor, eu me mexi.
Puxei a garrafa vazia que eu tinha escondido embaixo da mesa e despejei o chá nela — rápido, escutando se ela vinha pela escada — tudo, menos uma película fina no fundo da caneca. Tampei e enfiei sob as roupas dentro da minha mochila.
Quando ela voltou com a água, eu estava limpando a boca e estendendo a caneca vazia para ela.
— Pronto.
Ela observou a película no fundo por um segundo. Então os ombros relaxaram, e ela sorriu — sorriu de verdade desta vez.
— Boa menina. Dorme um pouco. — Ela parou na porta. — Amanhã tudo isso vai acabar.
A porta fez um clique ao fechar. Os passos dela se afastaram.
Eu fiquei ali, tremendo. Tirei a garrafa de novo, embrulhei numa camiseta e empurrei o mais fundo que consegui na bolsa.
Dois anos. Dois desmaios. Uma cidade inteira certa de que havia algo errado comigo.
Mas desta vez eu não tinha encostado no chá.
Desta vez, eu disse a mim mesma, nada podia dar errado.
