Capítulo 3
—Acabou? —eu me sentei num pulo na cama. Minha cabeça parecia cheia de agulhas.
Três dias. Eu tinha ficado apagada por três dias.
—O que vocês fizeram comigo? —arranquei a agulha do soro do dorso da minha mão. O sangue brotou. Meus dedos não paravam de tremer—o que quer que tivessem colocado em mim ainda estava ali, puxando meus braços, meus pensamentos. Forcei meus olhos a encarar o rosto dela. —Não tem nada de errado comigo. O problema é você. Você colocou alguma coisa na minha comida. Não colocou?
A porta se abriu e Cole entrou, com as mãos nos bolsos.
Os olhos da minha mãe se encheram, as lágrimas transbordando. Ela enfiou a mão na bolsa e largou uma folha de papel dobrada em cima do cobertor.
—Sloane, eu não queria que você visse isso. Mas você está piorando. —A voz dela tremeu. —Você tem um transtorno de ansiedade grave há anos. Os apagões, o jeito que o seu corpo desliga...
Olhei para baixo. Um carimbo de clínica no topo, as palavras impressas limpas e frias: transtorno de ansiedade grave com colapso dissociativo induzido por estresse.
—Isso é falso. —rasguei ao meio, depois ao meio de novo. —Eu nunca pisei nessa clínica. Você inventou isso.
—Sloane. —Cole se encostou na parede, braços cruzados, o rosto fazendo simpatia enquanto os olhos faziam outra coisa. —Para. O médico falou com todas as letras—você quis isso tanto que quebrou o próprio cérebro. Desmaiar é só o seu corpo te protegendo. Olha o que você fez com a mamãe. Só aceita.
Olhei ao redor do quarto, para todos eles, para a pena paciente e ofendida estampada na cara de cada um, e o chão pareceu inclinar.
Essa era a armadilha. Eles queriam que eu virasse a garota louca que viviam descrevendo, até todo mundo acreditar. Naquele momento, eu podia gritar a verdade até minha garganta sangrar, e ninguém ficaria do meu lado.
Então eu parei.
Enterrei o rosto nas mãos e me obriguei a soluçar. —Desculpa. Talvez... talvez eu esteja doente mesmo. Desculpa.
Minha mãe atravessou o quarto e me envolveu nos braços, alisando meu cabelo. —Boa menina. Agora está tudo bem. Chega de provas. A mamãe vai cuidar de você.
Eu deixei que ela me abraçasse. Por cima do ombro dela, meus olhos estavam secos.
Por dentro, alguma coisa fria se encaixou no lugar. Eu ia descobrir exatamente o que tinham feito comigo. Só não aqui. Ainda não.
Eles me levaram para casa e mal me deixaram sair do campo de visão deles. Me vigiavam como se eu pudesse fugir, ou quebrar.
Dois dias depois, eu disse à minha mãe que precisava ir correndo ao mercado comprar absorventes. Era a única tarefa em que ela nunca me acompanhava.
Em vez disso, fui à biblioteca e puxei os resultados num computador público.
Minha nota estava lá embaixo, no fim da lista. Zeros onde eu tinha perdido a seção da tarde. Pelo terceiro ano seguido. Três anos da minha vida, sumidos.
Aí encontrei o nome do Cole. Meu irmão, que copiou meus deveres por anos e nunca terminou um livro sequer, estava sendo indicado para a bolsa Merritt—bolsa integral, a única coisa naquela casa que valia mais do que eu.
Encarei a tela e ri baixinho. Não existia versão disso em que Cole merecesse. Nenhuma.
Voltei para casa e desenterrei o frasco do fundo da minha mochila. O chá lá dentro tinha ficado turvo e azedo. Despejei numa garrafa de água limpa e fechei bem.
Com o dinheiro que eu vinha juntando, achei um laboratório particular e paguei para testarem a presença de drogas.
Três dias depois, enquanto a família inteira estava espalhada pelo sofá discutindo, feliz, onde fazer a festa do Cole, meu celular vibrou no bolso.
Me enfiei no banheiro e atendi.
—Senhorita Carrow —disse o homem. —Seus resultados urgentes chegaram.
