Capítulo 2: O companheiro impossível
“Um homem vestido com um casaco preto, às doze horas.”
Quando Emelyn me avisou, eu inspecionava o ambiente com calma. Notei um homem vestido de preto e usando uma máscara. Pelo que ele fazia, acreditei que estava organizando alguma coisa para o banquete de hoje. Os Protetores Reais e os Guardas estavam de prontidão para defender a Família Real.
O antigo Rei e Luna, assim como o irmão do Rei Alfa, o príncipe Draco, e a irmã, a princesa Diana, viriam. No aniversário do Rei, eles costumavam voltar para casa. Como resultado, quase todos os membros da alcateia Green Moon queriam vir até aqui para ver o reencontro da família mais poderosa de Alvinia.
No mundo ocidental, Alvinia é um continente vasto. Ele é dividido em quatro partes. Anões e curandeiros vivem em Gardenia. O Lago de Fogo serve como castelo dos vampiros. Skyrim é o lar das bruxas e de outras criaturas com poderes elementais básicos, e fica na região montanhosa onde as nuvens são tão baixas que dá para quase tocar o céu. Já estive lá antes, e aquele lugar sempre me fascinou. A Capital Crescente, onde vivem os lobisomens, é a última parada.
“E agora, o momento mais aguardado de todos...” Eu não tirei os olhos do homem quando o mestre de cerimônias falou no palco. “Bruxas, lobisomens, curandeiros e outras criaturas! O reencontro da Família Real é o momento que todos nós estávamos esperando!”
Depois de ouvir o anúncio, vi o homem se afastar. Levei a mão à adaga no coldre e comecei a andar para segui-lo, supondo que ele iria chamar os companheiros para causar confusão.
“Para onde você está indo, Chandra?!” Pelo fone, eu ouvia a preocupação de Emelyn.
“Vou segui-lo.”
“O quê?! Não! Só fica de olho no Rei. Alguém já foi designado para fazer isso”, ela insistiu, mas eu a ignorei. Eu não duvido dos nossos colegas, mas acho que vou capturá-lo pessoalmente.
“Relaxa, Emelyn, eu dou conta—” Parei no mesmo instante quando, inesperadamente, senti um cheiro de menta com café. Era um aroma forte. Quando entendi o porquê, meus olhos quase saltaram das órbitas.
Não me diga que você vai me dar outro companheiro, Deusa da Lua. Ah, não! Eu só estou há dois dias aceitando a rejeição do Phoenix!
Olhei ao redor, cautelosa. Porque fui pega de surpresa por aquela revelação, esqueci o meu objetivo de perseguir o homem. Meu corpo inteiro tremeu enquanto meu cérebro tentava compreender o que estava acontecendo.
Todo mundo estava se divertindo, e o clima era animado. Havia sorrisos pintados nos lábios deles — mas o meu era o oposto. Até que meu olhar foi atraído para a frente.
Meu olhar se fixou num homem atraente à distância. A testa dele estava franzida, e os olhos corriam de um lado para o outro, como se procurasse alguém. Ele ergueu a cabeça de repente, e seus olhos gentis se prenderam aos meus. Meus lábios ficaram entreabertos enquanto meu coração martelava alto.
Não pode ser...
Dei um passo para trás, sobrecarregada e desprevenida, sem perceber a pessoa atrás de mim. Esbarrei numa mulher e derrubei a bandeja de vinho que ela carregava, chamando a atenção de todos — inclusive a dele.
O rosto do homem corou de surpresa. Quando percebeu que eu recuava de propósito, numa tentativa de me afastar sorrateiramente, as sobrancelhas dele se contraíram numa careta, como se tivesse se ofendido.
Eu ia disparar, mas ele foi ainda mais rápido, surgindo à minha frente. Eu conseguia ver a escuridão nos olhos dele. Ele cerrou o maxilar, e eu percebi que estava irritado por motivos que eu não entendia.
“Para onde você vai, moça?”
Olhei para baixo, para o meu braço, que ele estava segurando com força. Senti uma eletricidade se descarregar do meu corpo quando nossas peles se tocaram. Um arrepio subiu pela minha espinha. Aquelas sensações de conexão e faísca eram familiares demais. Não porque eu estivesse com medo dele, mas pelo que estava prestes a acontecer, soltei um suspiro ofegante.
Por que o meu segundo companheiro era o Rei Alfa?
Lobisomens reconhecem seu parceiro assim que o veem. Quando captam o cheiro único do companheiro, o lobo dentro deles enlouquece — como eu estava vivenciando agora. Nem nos meus pensamentos mais insanos eu me imaginei como companheira dele.
— Solta — protestei, lembrando que eu ainda tinha um trabalho a cumprir.
O canto da boca dele repuxou.
— Valente, mas não intimidadora. Por favor, venha comigo.
Fiquei furiosa com o jeito como ele falou comigo, como se eu fosse uma serva. Arranquei meu braço com violência do aperto dele.
Eu via a confusão nos olhos de todos, e não me escaparam as conversas sobre o que estava acontecendo. Eu não me importava com eles, desde que eu tivesse de permanecer firme para conseguir o homem que eu estava caçando. O cenário já era complicado, ainda mais com a presença da Família Real.
— Não — eu disse, passando por ele.
Quando os Guardas Reais bloquearam meu caminho de repente, dei um passo para trás. Eu sabia que ele usava a mente para ordenar aos homens que me impedissem de fugir.
— O que está acontecendo, Chan? — perguntou Emelyn, preocupada, mas eu não respondi.
Saltei e os chutei, nocauteando-os em segundos. Quando vi que tentavam se aproximar e me agarrar, me movi rápido.
Disparei socos contundentes e os chutei com toda a minha força. Como eu não era uma guerreira comum, eles foram caindo um a um, desabando inconscientes no chão.
Os Guardas Reais restantes ficaram com medo de se aproximar, os olhos cheios de pavor. Enxuguei o suor da testa com o antebraço antes de encarar o Alfa novamente.
— Me deixe ir — pedi, com a voz controlada.
Eu estava me esforçando para não explodir. Ele me olhou nos olhos, enfiou as mãos nos bolsos e suspirou pesado.
— Você vai voltar?
Por causa da pergunta, meu olhar ficou preso nele. Ele soou como se esperasse que eu desse a resposta que ele queria ouvir.
— Você ainda quer que eu volte? — perguntei de novo.
— Eu esperei por você por quase metade da minha vida — ele respondeu, sem pestanejar. — Você já descobriu.
— Chandra, os Guardas Reais estão lutando no norte da Alcateia da Lua! Eles precisam de você — informou Emelyn.
Eu apenas assenti e não disse nada. Tenho certeza de que ela viu meu sinal.
— Mais rápido, Chan!
Virei para encarar o Rei Alfa mais uma vez.
— Vou tentar... — foi tudo o que consegui dizer, antes de disparar e me esgueirar para trás da árvore.
Soltei um suspiro fundo e chamei minha loba.
— Você está pronta para lutar?
— Ele é o nosso segundo companheiro, Chandra?! — ela estava explodindo de alegria.
Levantei o rosto para o céu, olhando para a lua.
— Não sei por que a Deusa da Lua me deu isso, mas temos uma luta pela frente. Você está feliz com isso?
Por que eu sequer fiz uma pergunta tão simples? Eu já sabia que a resposta era sim, porque eu sentia a empolgação de Ruby.
— Qual é o problema? Ele é gostoso pra caramba!
Aceitei minha raiva, que corria fundo nas minhas veias e me impulsionava a virar uma fera feroz. Enquanto eu me transformava em loba, meus olhos mudaram. Ruby é uma pedra preciosa marrom-avermelhada escura, com olhos de safira vermelha.
— Ah, não seja uma loba tão paqueradora, Ruby!
Ela riu e mostrou a língua. Em seguida, comecei a correr para o norte.
