Capítulo 1 Rosângela
Meu nome é Rosângela. Tenho vinte e dois anos e aprendi cedo que algumas pessoas não nascem com a sorte de ter um lugar seguro no mundo.
Não tenho pai. Não tenho mãe. Tenho um irmão — o Victor — que faz o que pode para ser casa, proteção e família ao mesmo tempo. E tenho um primo.
Marcos.
Só de pensar nesse nome, meu corpo reage antes da minha mente. O estômago fecha. A respiração encurta. A memória não pede permissão para voltar.
Quando eu tinha dezesseis anos, ele quase conseguiu.
Quase é uma palavra pequena demais para carregar o peso que carrego desde então. Não fui violada por inteiro, mas também nunca voltei a ser a mesma. Meu corpo aprendeu a travar, a se defender, a fugir antes mesmo de o perigo se anunciar. Talvez por isso eu seja o que alguns chamam de “meio virgem”. Ou talvez eu só seja alguém que teve a inocência arrancada cedo demais.
Desde aquele dia, eu fujo.
Fugir virou hábito. Estratégia. Sobrevivência.
Marcos trabalha como caminhoneiro. A cada quinze dias, aparece em Belo Horizonte. E a cada quinze dias, eu desapareço. Fico na casa da Elizabeth, minha melhor amiga, minha irmã de alma. O único lugar onde consigo dormir sem acordar assustada.
Ou… conseguia.
Elizabeth precisou ir para Itajubá. A irmã dela, Camila, passou por uma cirurgia delicada no coração. O tempo virou dias, os dias viraram semanas, e no meio disso tudo, Elizabeth se casou com Rogério — um médico respeitado, querido por todos. Eu acompanhei tudo de perto. Fiz amigos. Me senti… segura.
Foi lá também que eu vi Anthony pela primeira vez.
Doutor Anthony.
Charmoso. Lindo. Intenso. O tipo de homem que entra em um ambiente e muda o ar sem esforço. Ele salvou a Elizabeth durante um assalto. Salvou ela e os bebês que ela carregava — gêmeos. Levou um tiro por isso.
Ficou na UTI. Entre a vida e a morte.
Quando soube que ele estava prestes a sair do hospital e precisaria de uma enfermeira para cuidados em casa, meu coração disparou antes mesmo de a razão pensar. Não foi só gratidão. Foi admiração. Foi aquela paixão silenciosa, líquida, que a gente tenta negar, mas sente.
E também foi medo.
Medo de ficar em Belo Horizonte. Medo de Marcos.
Por isso, quando Elizabeth comentou casualmente que Anthony precisava de alguém, eu me ofereci na hora. Mesmo sabendo que ele não tinha ficado nada satisfeito ao saber que dependeria de uma mulher. De mim. De alguém que ele mal conhecia.
Mesmo sabendo que talvez ele me recusasse.
Ainda assim, aquela era minha chance de fugir. De novo.
Naquela tarde, eu estava no café onde trabalho, servindo mesas, enchendo xícaras, tentando não pensar demais no que me esperava em Itajubá. Saía às quatro da tarde. Dez minutos. Faltavam só dez minutos.
Eu pensava no Anthony. Em como ele me receberia. Em como eu iria me comportar. Em como seria cuidar de alguém tão… imponente, mesmo ferido.
Foi quando a porta se abriu.
— Trinha… vim te buscar. Tô morrendo de saudade de você.
A voz.
Meu corpo congelou.
A xícara quase caiu da minha mão.
Lentamente, levantei os olhos.
Marcos.
Parado ali, grande, confiante, sorrindo como se tivesse todo o direito de estar ali. Como se não fosse o pesadelo que me persegue há anos.
— O que você tá fazendo aqui? — minha voz saiu baixa, falha.
— Ué, priminha — ele riu. — Vim te buscar.
— Eu tô trabalhando. Não posso ir com você.
Ele se aproximou um pouco mais.
— Eu te espero. Essas estradas tão perigosas demais. Eu só quero te proteger.
Proteção.
A palavra me deu náusea.
— Vai pra casa, Marcos. O Victor tá lá.
— Não tá não. Tá na casa da namorada. Eu falei com ele. Disse que ia cuidar de você esse fim de semana inteiro.
— Eu não vou estar em casa — falei rápido. — Vou pra Itajubá.
O sorriso dele mudou. Ficou duro.
— Então cancela. Vai depois que eu for embora. Toda vez que eu venho, você não tá. Resolvi fazer essa surpresa. — Ele piscou. — Trouxe até um presentinho pra você. Tá lá no caminhão.
— Obrigada, mas não precisa.
Olhei para o relógio. Dez minutos.
Me aproximei do caixa e falei quase num sussurro:
— Seu João… eu preciso ir embora um pouco mais cedo. Por favor, guarda meu emprego. Eu volto.
Ele me olhou sério, preocupado.
— Vai tranquila, minha filha. O emprego é seu. Dirige com cuidado.
Respirei fundo.
— Posso pedir mais um favor?
Ele assentiu.
— Meu primo tá aí… eu não queria que ele me acompanhasse até em casa. O Victor não tá. Se o senhor puder distrair ele só um pouquinho…
Seu João não perguntou nada. Apenas fez que sim.
Enquanto ele levava café e pão até a mesa do Marcos, eu saí pelos fundos da lanchonete. Corri. Meu coração parecia querer sair pela boca.
Cheguei em casa ofegante. Subi as escadas de dois em dois degraus. Peguei meus documentos. Joguei roupas na mala sem dobrar. Peguei a chave do meu Chevette rosa — meu orgulho, minha liberdade.
Quando comecei a descer as escadas…
Ouvi.
O som pesado de um caminhão estacionando.
Meu corpo inteiro gelou.
Fiquei imóvel por alguns segundos, o coração disparado, o ar preso nos pulmões. Então ouvi a porta bater. O som dos passos pesados no quintal. Cada passo dele parecia ecoar dentro de mim.
— Rosângela… — a voz dele veio arrastada, falsa, como se fosse carinho.
Dei dois passos para trás instintivamente, minhas costas encontrando a parede da sala. Quando ele entrou, o sorriso no rosto me causou náusea. O mesmo sorriso de anos atrás. O mesmo que me tirava o ar.
— O que você está fazendo aqui, Marcos? — minha voz saiu fraca, mas eu não ia me calar.
Ele se aproximou devagar, como quem caça. Quando tentei passar por ele, senti sua mão me puxando com força. Meu corpo foi jogado contra a parede, o impacto arrancou o ar dos meus pulmões.
— Me solta! — gritei, tentando empurrá-lo.
Ele me prensou ainda mais, o corpo colado ao meu, a mão descendo pelo meu braço, pela minha cintura. Comecei a tremer inteira.
— Hoje você vai ser minha… por completo. Custe o que custar.
— Victor! — gritei, desesperada. — Victor!
Mas eu já sabia. Ele não estava.
O pânico me invadiu como uma onda sufocante. As imagens do passado voltaram com força, minhas pernas fracas, a cabeça girando. Ele sorriu, satisfeito com meu medo.
Foi então que algo dentro de mim quebrou.
Juntei toda a força que ainda tinha, levantei o joelho e o chutei com tudo entre as pernas. O grito dele foi alto, animal. Ele se curvou de dor, me soltando.
Não pensei. Corri.
Peguei minha bolsa, quase tropeçando nos próprios pés, atravessei a porta e alcancei o carro. Minhas mãos tremiam tanto que quase deixei a chave cair.
Quando liguei o motor, ouvi o grito vindo de trás:
— Eu vou te pegar! Você não vai escapar de mim!
Arranquei sem olhar para trás. As lágrimas caíam livres enquanto eu dirigia, o peito doendo, o medo grudado em mim.
Mas eu estava viva.
E dessa vez… eu ia fugir para não ser alcançada nunca mais.
