Capítulo 2 Sem gasolina

Eu olhava para o marcador de combustível marcando vazio absoluto e sentia o estômago despencar.

Eu tinha dirigido quase três horas.

Metade do caminho.

Metade.

E ainda faltavam praticamente mais três horas de estrada.

Eu bati a mão no volante.

— Como eu pude ser tão burra?

Eu saí correndo. Só pensei em escapar. Peguei documentos, bolsa, chave do carro… e esqueci o básico.

Gasolina.

O Chevette morreu de vez.

Silêncio.

Silêncio demais.

Olhei ao redor.

A estrada estava quase deserta. Um trecho cercado por mata fechada dos dois lados. Nenhuma casa. Nenhum posto. Nenhuma placa indicando cidade próxima.

Peguei o celular de novo.

Sem sinal.

Nenhuma barrinha.

— Não… não… por favor…

Caminhei alguns passos para fora do carro, levantando o celular para o alto como se isso fosse mudar alguma coisa.

Nada.

O vento começou a soprar mais frio.

O sol estava descendo rápido demais.

Eu abracei meu próprio corpo.

Ainda faltavam quase três horas de viagem.

E eu estava parada no meio da estrada.

Sozinha.

Sem combustível.

Sem rede.

Sem saber onde exatamente estava.

Meu coração começou a bater mais forte.

E se Marcos resolvesse me seguir?

E se ele pegasse a estrada?

Ele é caminhoneiro.

Ele conhece essas rodovias melhor do que eu.

A ideia me fez perder o ar.

Voltei para dentro do carro e tranquei as portas imediatamente.

Minhas mãos tremiam tanto que quase deixei a chave cair.

— Pensa, Rosângela. Pensa.

Eu podia tentar esperar alguém passar.

Mas e se parasse a pessoa errada?

Eu estava no meio do nada.

Uma mulher sozinha.

No fim de tarde.

Sem saída.

Eu encostei a testa no volante.

Eu só queria fugir.

E agora parecia que a estrada tinha decidido me testar.

E pela primeira vez desde que saí de casa…

eu senti medo não só do passado.

Mas do que poderia acontecer ali.

Naquele pedaço de mundo esquecido.

Olhei ao redor mais uma vez, tentando controlar o desespero que começava a tomar conta do meu peito. A estrada era praticamente deserta, cercada por mata dos dois lados. Respirei fundo e tomei uma decisão.

— Tá… você consegue… — murmurei para mim mesma, empurrando o Chevette lentamente até perto de uma árvore grande, tentando deixá-lo o mais escondido possível da estrada.

Demorou, exigiu força e quase me fez desistir no meio do caminho, mas consegui posicioná-lo parcialmente encoberto pelos galhos e pela sombra da vegetação.

Encostei no carro, ofegante.

— Pronto… agora é pensar.

Entrei e sentei no banco do motorista, pegando o mapa que estava no porta-luvas. Abri sobre o volante, analisando com atenção.

— Eu passei por um posto… quantos quilômetros atrás? — sussurrei, passando o dedo pela estrada desenhada no papel. — Aqui… acho que uns três… talvez cinco quilômetros… E o próximo…

Engoli seco.

— Nossa… daqui que eu vá e volte… é longe demais.

Levantei os olhos e observei a estrada. Alguns caminhões enormes passavam de tempos em tempos, o barulho ecoando assustadoramente no silêncio da mata.

Balancei a cabeça rapidamente.

— Não… melhor não. Vou me resguardar. Vou dormir aqui no carro… quietinha… esperando amanhecer.

Apertei os braços ao redor do próprio corpo, sentindo o frio já começar a se instalar.

— Ai, meu Deus… será que tem onça nessas matas? Ou… sei lá… algum bandido? Será que algum carro consegue me ver mesmo escondida aqui?

Passei as mãos no rosto.

— Deus, me ajuda… o que eu faço?

Olhei para o relógio no painel.

— Quase sete horas… — sussurrei, sentindo o coração apertar. — Era para eu estar chegando na casa do Anthony umas nove…

Fechei os olhos por um instante.

— Ele vai ficar preocupado… ainda mais daquele jeito… com o braço machucado…

Respirei fundo, tomei coragem e saí do carro. Subi com cuidado no capô, tentando ganhar altura. Levantei o celular para o alto, esticando o braço o máximo que consegui.

Nada.

Suspirei, já desistindo, quando um pontinho solitário apareceu no canto da tela.

— Ah! — murmurei, quase sem acreditar.

Abri rapidamente o aplicativo e comecei a digitar.

“Anthony, eu estava indo para sua casa, mas meu carro pifou. Estou desesperada no meio da mata. Estou mais ou menos na metade do caminho. Dirigi três horas e fiquei sem gasolina… eu não sei o que fazer.”

Meus dedos tremiam, mas continuei.

“Aqui quase não tem sinal. Estou em cima do carro e apareceu só um pontinho. Se eu não conseguir chegar hoje, vou dormir dentro do carro. Estou com muito medo… mas não tenho o que fazer.”

Hesitei por um segundo.

Enviei.

O pontinho piscou… e desapareceu.

— Ai, meu Deus… — sussurrei, olhando para o celular como se pudesse forçar o sinal a voltar. — Tomara que ele receba… pelo menos para ficar tranquilo…

Desci do carro e abracei o próprio corpo, sentindo o vento gelado da noite começar a soprar entre as árvores.

— Tá… vou ficar aqui… escondidinha… — murmurei, abrindo a porta. — Vou me enrolar… está muito frio… ainda tenho água… e umas barrinhas de cereal…

Quando fui entrar, meu pé acertou a roda do carro com força.

— Droga desse carro! — reclamei, chutando o pneu. — Essa porcaria! Por que eu não lembrei de colocar gasolina em você?

Passei as mãos no cabelo, frustrada.

— Ai, que raio de mim!

Encostei a testa no teto do carro e soltei um suspiro longo.

— Ai, Jurubeba… por que tu foi me dar esse trabalho todo de faltar gasolina? Tu sabe que eu tenho raiva de tu… Eu nunca lembro de botar a porcaria dessa gasolina…

Balancei a cabeça, soltando um riso nervoso misturado com cansaço, antes de entrar no carro e fechar a porta, tentando me convencer de que ficaria tudo bem até o amanhecer.

O silêncio da mata começou a ficar alto demais.

Eu estava encolhida no banco, abraçando as próprias pernas, quando ouvi.

Um estalo.

Depois outro.

Folhas sendo pisadas.

Congelei.

Meu coração começou a bater tão forte que eu tinha certeza de que qualquer coisa lá fora conseguia ouvir.

— Não… não… não… — sussurrei.

Mais um barulho.

Algo se movendo na mata.

Engoli seco. O medo veio como uma onda gelada subindo pela espinha.

— É bicho… deve ser bicho… — tentei me convencer.

Mas e se não fosse?

E se fosse alguém?

E se fosse algum tarado, algum bandido que tivesse visto o carro?

Meu Deus…

Olhei para os lados, respiração ficando curta.

— Eu não vou ficar aqui igual uma idiota esperando ser atacada.

Meu corpo tremia, mas uma coragem estranha começou a nascer — aquela coragem que só aparece quando o medo é grande demais.

Abri a porta devagar.

O vento gelado bateu no meu rosto.

Fui até o porta-mala, minhas mãos quase não obedecendo. Abri.

Peguei o macaco do carro.

Depois o martelo que ficava ali nas ferramentas.

Segurei um em cada mão.

Respirei fundo.

— Venha, seu bicho… — falei alto, a voz falhando. — Venha aqui! Eu enfrento você!

Meu coração parecia que ia sair pela boca.

— Venha! Eu tô aqui! Eu tô armada! Eu tenho um macaco e tenho um martelo!

Levantei as ferramentas como se fosse uma guerreira completamente surtada no meio da BR.

— Venha que eu tenho minhas ferramentas e sei usar elas! Venha, seu bicho! Seu tarado! Quem que tá aí?!

Silêncio.

A mata ficou muda de repente.

Só o vento.

Só minha respiração descompassada.

Mais um estalo.

Eu quase dei um grito.

Mas não esperei para descobrir.

Corri de volta, larguei as ferramentas no banco de trás, entrei no carro e bati a porta com força, travando tudo.

Encostei as costas no banco e abracei meus próprios braços com força, como se estivesse me segurando para não desmoronar.

— Ai, meu papazinho do céu… — minha voz saiu embargada. — Ai, meu papai querido… me ajuda…

As lágrimas começaram a cair.

— Me ajuda, Senhor… não deixa que nenhum mal me aconteça… não deixa ninguém chegar perto de mim…

Respirei fundo, tentando puxar ar, mas parecia que o oxigênio não entrava direito.

— Ai, Jesus… o que eu estou fazendo nessa estrada sozinha?

Encostei a cabeça no volante.

— Ai, minha cabeça…

Fechei os olhos, sentindo o frio, o medo, a solidão.

Lá fora, a mata continuava ali.

Escura.

Imensa.

E eu… pequena demais dentro daquele carro.

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