Capítulo 3 Ela quer ir
O silêncio da casa estava me sufocando.
Eu nunca pensei que fosse dizer isso, mas preferia o barulho da UTI. O bip constante das máquinas, o entra e sai de enfermeiros, a sensação de que, se algo piorasse, alguém correria até mim.
Aqui não.
Aqui era só eu… e um braço que mal obedecia.
A tipoia pesava mais do que devia. Ou talvez fosse o orgulho que estivesse pesando.
Eu estava sentado na poltrona da sala quando o telefone tocou. Olhei para ele como se fosse um inimigo.
Rogério.
Suspirei antes de atender.
— Fala.
— Como você está?
— Vivo.
Ele soltou um meio riso do outro lado.
— Você sempre foi simpático assim ou é efeito da morfina?
— Já passou o efeito. Infelizmente.
Houve uma pequena pausa.
— Anthony… eu preciso falar uma coisa com você.
Eu já conhecia aquele tom. Era o mesmo que ele usava antes de dar uma notícia que eu não queria ouvir.
— Fala logo.
— A Rosângela quer ir cuidar de você.
Meu maxilar travou.
— O quê?
— Ela se prontificou. Disse que pode ficar uns dias aí, até você melhorar.
Eu fechei os olhos e apoiei a cabeça no encosto da poltrona.
— Rogério… eu preciso de um enfermeiro.
Frisei cada palavra.
— Eu sei que preciso de ajuda. Eu estava na UTI. Levei um tiro. Mal consigo mexer esse braço. Eu não posso nem trocar uma porcaria de camisa sozinho. Mas eu preciso de um enfermeiro. Profissional.
— Eu sei que a Rosângela não é enfermeira, Anthony.
— Então pronto.
— Mas ela quer ajudar.
Eu ri, mas não tinha humor nenhum no som.
— Eu não quero que ninguém tenha pena de mim.
Silêncio.
Depois a voz dele veio mais firme.
— Ela não está com pena de você.
Eu apertei o celular com mais força.
— Não?
— Não. Ela quer ajudar em agradecimento.
— Agradecimento pelo quê?
Ele respirou fundo.
— Por você ter salvado a Elizabeth. Ela estava grávida, Anthony. Grávida dos meus filhos. Você entrou naquela casa enquanto o bandido ainda estava lá dentro. Você lutou com ele. Você levou um tiro no meu lugar.
A lembrança veio como um soco.
A porta arrombada.
O som de coisas quebrando.
E eu entrando sem pensar duas vezes.
— Eu fiz o que precisava ser feito.
— Você salvou minha esposa e meus filhos. Você podia ter morrido.
Fiquei em silêncio.
Eu lembrava do estampido. Da queimação no braço. Do chão frio.
Mas nunca fiz esperando algo em troca.
— Eu não fiz esperando gratidão.
— Eu sei. E é exatamente por isso que ela quer ajudar.
Meu peito apertou de um jeito que eu não gostei.
— Eu não quero que ela me veja assim.
— Assim como?
Engoli seco.
— Fraco.
A palavra saiu mais baixa do que eu pretendia.
— Você não está fraco, Anthony. Você está se recuperando.
— Para mim dá no mesmo.
— Escuta. Se for trabalho demais pra ela, a gente contrata um enfermeiro profissional. Eu pago. Mas deixa ela ir. Deixa ela tentar.
Passei a mão pelo rosto, frustrado.
— Eu não acredito que você vai me fazer passar por isso, Rogério.
Ele riu.
— Ah, você aguenta. Você aguenta, meu caro amigo.
— Você é um traidor, sabia?
— Eu prefiro o termo “amigo agradecido”.
Suspirei.
Eu realmente precisava de ajuda.
Mas a ideia de Rosângela andando por essa casa… vendo minhas limitações… vendo minha vulnerabilidade…
Era diferente.
— Quando ela vem?
— Provavelmente chega hoje à noite.
Meu coração deu um salto involuntário.
Hoje.
— Se isso for demais pra ela…
— A gente resolve. Eu prometo.
Fiquei alguns segundos em silêncio antes de responder.
— Tá.
— Tá o quê?
— Tá. Deixa ela vir.
Eu ouvi o sorriso na voz dele.
— Mais tarde eu passo aí pra te ver.
— Não precisa.
— Eu vou mesmo assim.
Revirei os olhos.
— Vai dirigir direito.
— Olha quem fala.
A ligação foi encerrada.
Eu fiquei ali, parado, encarando a sala vazia.
Rosângela.
Dentro da minha casa.
Cuidando de mim.
Apoiei a cabeça para trás e soltei o ar devagar.
— Isso vai dar problema…
Porque uma coisa era sentir aquela atração silenciosa quando eu estava inteiro.
Outra coisa completamente diferente…
Era deixá-la me ver quebrado.
Eu ainda estava com o celular na mão quando a tela acendeu novamente.
Mensagem.
Deslizei o dedo devagar.
“Sumido… ainda está vivo ou me esqueceu? 😏”
— Bianca.
Soltei um riso nasal.
Bianca.
Alta, loira, escandalosamente bonita e completamente descomplicada. A gente nunca prometeu nada um ao outro. Era leve. Era físico. Era simples.
Simples.
Coisa que minha vida definitivamente não estava sendo agora.
Eu encarei a mensagem por alguns segundos.
Antes de levar um tiro, antes da UTI, antes dessa maldita tipoia… minha vida era outra.
Eu trabalhava demais. Saía demais. Não criava vínculos. Não deixava ninguém ficar tempo suficiente para conhecer minhas falhas.
Era mais fácil assim.
Muito mais fácil.
O celular vibrou de novo.
“Ou está ocupado demais para mim?”
Eu apoiei a cabeça no encosto da poltrona e soltei o ar devagar.
Rosângela.
Ela chegaria hoje.
Entraria na minha casa.
Cuidaria de mim.
Veria minhas limitações.
Veria minha vulnerabilidade.
E aquilo me deixava inquieto de um jeito que eu não sabia explicar.
Eu não queria misturar as coisas.
Não queria que ela pensasse que eu estava esperando algo.
Não queria que ela visse… necessidade.
Meus dedos começaram a digitar antes que eu pensasse demais.
“Estou vivo. Meio quebrado, mas vivo.”
A resposta veio rápida.
“Que história é essa de quebrado?”
Olhei para a tipoia.
Olhei para o braço que ainda doía latejante.
E então uma ideia atravessou minha mente.
Errada.
Imatura.
Mas confortável.
Se Rosângela vai estar aqui…
Bianca não pode aparecer depois.
Mas pode aparecer antes.
Só para provar — para mim mesmo — que eu ainda estava no controle.
Que eu ainda era o mesmo homem.
Que eu não precisava de ninguém.
Digitei:
“Levei um tiro. Estou de molho em casa.”
Três pontinhos apareceram imediatamente.
“O quê??? Você está bem?”
“Estou. Só preciso de ajuda por uns dias.”
Hesitei.
Depois escrevi:
“Quer passar aqui mais tarde?”
Fiquei encarando a tela.
Meu coração bateu diferente.
Não era empolgação.
Era… fuga.
A resposta demorou alguns segundos.
“Você convidando? Isso é novidade 😏”
“Não começa.”
Ela riu por mensagem.
“Posso ir sim. Que horas?”
Olhei para o relógio.
Se Rosângela chegaria à noite…
Eu tinha algumas horas.
“Antes das sete.”
“Estarei aí.”
Eu joguei o celular no sofá ao lado.
Passei a mão pelo rosto.
— Isso é uma péssima ideia… — murmurei.
Mas ao mesmo tempo…
Era confortável.
Bianca não exigia nada.
Não fazia perguntas profundas.
Não me olhava como se enxergasse além do que eu mostrava.
Rosângela, por outro lado…
Ela tinha aquele jeito quieto.
Aquele olhar atento.
Aquele tipo de presença que desmonta um homem sem precisar tocar.
Eu fechei os olhos por um instante.
Eu não estava chamando Bianca por desejo.
Eu estava chamando por defesa.
Porque se Rosângela entrasse naquela casa e me encontrasse sozinho…
vulnerável…
esperando por ela…
eu não saberia lidar.
Abri os olhos e encarei o teto.
— Eu ainda sou o mesmo homem de antes — falei baixo, como se estivesse tentando convencer a mim mesmo.
