Capítulo 4 Dirigindo
Eu fiquei alguns minutos encarando o teto depois de mandar a mensagem para Bianca.
O silêncio da casa parecia diferente agora.
Mais pesado.
Mais… errado.
Mas eu já tinha tomado a decisão.
Levantei com dificuldade da poltrona, o braço latejando quando fiz força demais. Soltei um xingamento baixo entre os dentes.
— Droga…
Ainda doía como o inferno.
Fui até o banheiro e encarei meu reflexo no espelho.
Olheiras. Barba por fazer. A tipoia branca contrastando com a camiseta preta.
Nada da imagem impecável que eu costumava sustentar.
Passei a mão pelo maxilar.
— Patético — murmurei.
Eu sempre fui o cara que chegava inteiro.
Seguro.
Dominante.
Agora mal conseguia abotoar a própria camisa.
A campainha tocou.
Olhei para o relógio.
Pontual.
Bianca nunca atrasava.
Respirei fundo e caminhei até a porta. Girar a maçaneta com uma mão só ainda era estranho.
Abri.
Ela estava ali.
Salto alto. Cabelo solto. Perfume marcante. Um vestido justo que chamaria atenção em qualquer lugar.
Ela abriu um sorriso lento.
— Então… o herói resolveu aparecer.
— Entra.
Ela passou por mim, o perfume invadindo a sala. Olhou ao redor.
— Você nunca me trouxe aqui antes.
— Nunca precisei.
Ela riu baixo.
Então os olhos dela caíram para a tipoia.
O sorriso diminuiu.
— Você realmente levou um tiro.
— Levei.
Ela se aproximou devagar.
— Posso ver?
— Não é bonito.
— Eu também não sou delicada.
Ela tocou de leve no meu braço bom, subindo os dedos até a borda da tipoia.
O toque era conhecido.
Antes, aquilo teria sido suficiente para acender algo imediato.
Mas agora…
Eu só sentia o peso do braço. A limitação. A dor pulsando.
— Você está pálido — ela murmurou.
— Estou ótimo.
— Mentira.
Ela me empurrou de leve até o sofá.
— Senta.
Eu ia retrucar.
Não retruquei.
Sentei.
Ela ficou em pé na minha frente, analisando meu rosto como se estivesse tentando entender algo.
— Você não me chamou só para companhia, chamou?
Eu sustentei o olhar dela.
— Você nunca reclamou de companhia.
Ela inclinou a cabeça.
— Não. Mas você nunca foi do tipo que chama por… necessidade.
A palavra me atravessou.
Necessidade.
Eu endureci o maxilar.
— Eu não preciso de ninguém.
Ela deu um meio sorriso.
— Claro que não.
O silêncio se instalou por alguns segundos.
Ela se aproximou mais.
Passou os dedos pela minha barba.
Desceu a mão pelo meu peito.
Lento.
Provocante.
Eu conhecia aquele roteiro.
Sempre funcionava.
Mas meu corpo não reagiu como antes.
Minha cabeça estava em outro lugar.
Em outra pessoa.
Balancei a cabeça levemente, afastando o pensamento.
— Você está estranho hoje — ela murmurou.
— Estou machucado.
— Não é só isso.
Ela se inclinou, aproximando os lábios do meu pescoço.
Normalmente, eu já teria segurado sua cintura.
Puxado.
Tomado controle.
Mas quando tentei levantar o braço… a dor veio forte, cortando qualquer impulso.
Soltei o ar entre os dentes.
Ela percebeu.
Se afastou um pouco.
— Isso ainda dói muito, não é?
— Não é nada.
— Anthony…
Ela sentou ao meu lado.
— Você não precisa provar nada.
Eu virei o rosto para ela, irritado.
— Eu não estou provando nada.
— Está sim.
O silêncio caiu pesado entre nós.
E então meu celular vibrou.
Meu coração falhou uma batida.
Eu sabia.
Eu simplesmente sabia.
Peguei o aparelho com a mão livre.
Mensagem.
Rosângela.
“Anthony, eu estava indo para sua casa, mas meu carro pifou. Estou desesperada no meio da mata…”
Meu corpo inteiro ficou tenso.
— O que foi? — Bianca perguntou.
Eu já estava de pé.
A dor no braço foi ignorada.
— Eu preciso sair.
— Agora?
— Agora.
Ela levantou também.
— Anthony, você mal consegue dirigir!
Eu já estava pegando as chaves.
O sangue corria diferente nas minhas veias agora.
Adrenalina.
Raiva.
Medo.
— Ela está sozinha na estrada.
Bianca ficou em silêncio por um segundo.
— Ela?
Eu nem respondi.
Já estava abrindo a porta.
Porque naquele instante…
não existia dor.
não existia orgulho.
não existia passado promíscuo.
Só existia uma mulher sozinha no meio da estrada.
— Ela?
A pergunta da Bianca ficou no ar.
Eu nem respondi.
Já estava no carro.
A porta bateu com força. A chave girou. O motor rugiu.
Meu braço protestou no mesmo instante.
— Aguenta… — rosnei para mim mesmo.
Segurei o volante com a mão esquerda. A direita mal ajudava, presa à tipoia. Trocar a marcha exigia um movimento torto, dolorido, mas eu não estava nem aí.
Ela disse que estava na metade do caminho.
Se eram quase seis horas até aqui…
Então ela devia estar a umas três horas de mim.
Três horas.
Sozinha.
No meio da estrada.
À noite.
Eu pisei no acelerador com força.
O carro respondeu.
— Eu vou chegar antes de qualquer coisa chegar nela… — murmurei.
Peguei o celular e coloquei no viva-voz. Tentei ligar.
Chamando.
Chamando.
Nada.
Sem completar.
Droga.
Tentei de novo.
Sem sinal.
— Atende… atende, Rosângela…
A estrada já estava escura. O céu completamente negro. Só os faróis cortando a pista.
Se aqui já estava assim…
Lá, no meio da mata, devia estar pior.
Muito pior.
A imagem dela sozinha dentro daquele carro atravessou minha cabeça.
Ela com medo.
Ela tentando parecer forte.
Ela fingindo que estava tudo sob controle.
Eu apertei o volante com mais força.
O braço latejou.
Ignorei.
A dor era irrelevante agora.
Eu aumentei a velocidade.
Os faróis dos outros carros passavam rápidos demais. Caminhões enormes cruzando ao lado, o vento sacudindo meu veículo.
Eu estava dirigindo com uma mão só.
E mal conseguia fazer isso direito.
Mas não importava.
— Que Deus proteja ela… — falei baixo, os olhos fixos na pista.
Eu não sou um homem de muitas orações.
Mas naquele momento…
Eu estava negociando com o céu.
Que nada acontecesse.
Que nenhum maluco parasse ali.
Que nenhum animal se aproximasse.
Que nenhum caminhoneiro percebesse um carro escondido na mata.
Liguei de novo.
Sem sinal.
— Droga!
Bati com a mão boa no volante.
O braço ferido reagiu com uma pontada violenta.
Soltei o ar entre os dentes.
— Fica comigo… fica bem… só fica bem até eu chegar…
O celular vibrou de repente.
Meu coração disparou.
Olhei rapidamente.
Sem notificação dela.
Era Rogério.
Ignorei.
Agora não.
Eu só precisava chegar.
O painel marcava a velocidade acima do que eu normalmente permitiria.
Mas eu não estava pensando como normalmente pensava.
Eu estava pensando como um homem que sabia exatamente o que poderia acontecer com uma mulher sozinha numa estrada escura.
E aquilo me deixava frio por dentro.
Eu tentei ligar mais uma vez.
Dessa vez chamou uma vez.
Duas.
Caiu.
Mas chamou.
Ela estava em algum ponto com um fio de sinal.
Isso significava que ela ainda estava lá.
Ainda esperando.
Eu acelerei mais.
A noite engolia a estrada.
E cada quilômetro parecia demorar uma eternidade.
Eu não sabia exatamente onde ela estava.
Mas eu sabia de uma coisa.
Eu ia procurar.
Eu ia rodar aquela estrada inteira se fosse preciso.
Porque a ideia de Rosângela com medo…
era insuportável.
