Capítulo 5 Você não me deixou sozinha

Chamou uma vez.

E caiu.

A tela ficou preta na minha mão.

Eu continuei olhando para ela como se, por insistência, fosse acender de novo.

Mas não acendeu.

Só o meu reflexo assustado ali.

Meu coração estava disparado.

— Eu acho que ele me viu… — sussurrei para o vazio.

Eu vi o nome dele.

Ele tentou ligar.

Ele viu.

Ele sabe.

Isso precisava significar alguma coisa.

Eu puxei o casaco que estava no banco e me enrolei nele. O tecido não era grosso o suficiente para o frio que começava a entrar pelas frestas invisíveis do carro.

Me encolhi mais no banco de trás.

Abraçada ao macaco.

O martelo ainda na mão.

E então eu chorei.

Baixinho.

Sem soluço alto.

Só lágrimas escorrendo em silêncio.

Pensei em tudo.

No tiro que ele levou.

No jeito que ele ficou pálido no hospital.

No orgulho dele.

Na forma como eu quase implorei para ir cuidar dele.

E agora eu estava ali.

Sozinha.

No meio do nada.

— Eu só queria ajudar… — murmurei, a voz embargada.

O tempo começou a passar de um jeito estranho.

Lento demais.

Eu olhei o relógio do celular.

Quarenta minutos.

Pareciam três horas.

Meu estômago roncou de repente.

Eu quase ri.

— Não é possível…

Procurei na bolsa.

Tateei no escuro até encontrar uma barra de cereal amassada.

Abri com cuidado para não fazer barulho — como se alguma coisa lá fora estivesse ouvindo.

Dei uma mordida.

A boca estava seca.

Engoli com dificuldade.

Achei a garrafinha de água.

Bebi dois goles pequenos.

Eu precisava economizar.

Vai que eu tivesse mesmo que passar a noite ali.

A palavra ecoou na minha cabeça.

Noite.

Ali.

Sozinha.

Lá fora, o som começou a mudar.

O vento ficou mais frio.

As árvores se mexiam com mais força.

E então eu ouvi.

A coruja.

Aquele som longo, arrastado.

Eu congelei.

Outro barulho na mata.

Galhos quebrando.

Folhas sendo pisadas.

Eu prendi a respiração.

— Não é nada… não é nada… é só bicho… é só bicho…

Mas o medo não obedecia lógica.

Meu corpo começou a tremer.

Não era só frio.

Era nervoso.

Era pânico tentando crescer.

Olhei o relógio de novo.

Duas horas.

— Já faz duas horas… — minha voz saiu quase sem som.

Duas horas dentro daquele carro.

Duas horas imaginando coisas.

Duas horas esperando faróis que não apareciam.

Meu coração apertou.

— Eu tô com muito medo…

Engoli seco.

Outra sensação começou a incomodar.

Pressão.

Vontade de fazer xixi.

— Não… não… agora não…

Cruzei as pernas instintivamente.

Olhei para as portas.

Olhei para o escuro do lado de fora.

Nem pensar.

— Eu não posso sair… eu não posso sair… eu não posso sair…

Repeti como um mantra.

Se eu abrisse aquela porta…

E se tivesse alguém ali?

E se alguém estivesse só esperando?

Apertei as coxas com mais força.

Respiração curta.

— Se eu tiver que passar a noite aqui…

A ideia me fez quase chorar de novo.

Eu me encolhi ainda mais no banco de trás.

Trancada.

Pequena.

Abraçada ao macaco como se fosse um travesseiro.

O martelo ainda firme na mão.

Os olhos arregalados no escuro.

Cada barulho parecia mais perto.

Cada minuto parecia mais longo.

Eu olhei o relógio de novo.

Duas horas e meia.

— Já faz duas horas e meia…

Minha voz saiu fraca.

A vontade de desfazer aquele xixi estava insuportável. Muito. Muito grande.

Eu sentia dor na parte baixa da barriga. As pernas já estavam doloridas de tanto ficar contraídas.

— Não… não… aguenta…

Apertei as coxas com mais força, encolhida no banco de trás.

O frio, o medo, a pressão na bexiga… tudo junto.

De repente.

Passos.

Claramente passos.

Meu coração quase parou.

Não era vento.

Não era bicho correndo leve.

Eram passos.

Pesados.

Pisando em folhas.

Se aproximando.

Meu corpo inteiro começou a tremer.

— Que ele não me veja, meu Deus… que ninguém me veja… que ninguém me veja… por favor… por favor…

Eu repetia baixinho, quase sem voz.

Agarrei o martelo com tanta força que meus dedos doeram.

Os passos pararam.

Do lado do carro.

Eu prendi a respiração.

Silêncio.

E então—

BATIDAS fortes no vidro.

Eu gritei.

O martelo quase caiu da minha mão.

As batidas vieram de novo.

Mais fortes.

Eu comecei a chorar descontrolada.

— Não… não… não…

E então eu ouvi.

— ROSÂNGELA! SOU EU! É O ANTHONY!

A voz dele.

A voz dele.

Meu corpo desmoronou.

Eu soltei o martelo no banco e praticamente me arrastei até a porta.

Minhas mãos tremiam tanto que eu quase não consegui destravar.

Abri.

Saí chorando.

E me joguei nele.

— Obrigada… obrigada… obrigada… — eu repetia, agarrada na camisa dele. — Você não me deixou aqui… você não me deixou aqui sozinha, Anthony…

Eu tremia inteira contra o peito dele.

Ele me envolveu com o braço bom, firme.

E disse, com a voz baixa e carregada de verdade:

— Eu jamais deixaria você aqui sozinha.

Ele ainda me segurava quando o olhar dele passou por cima do meu ombro… e parou dentro do carro.

No banco de trás.

O martelo.

O macaco.

Ele franziu a testa.

— Por que você pegou o martelo e o macaco?

Eu enxuguei o rosto, ainda tremendo.

— Eu estava com muito medo… muito… muito mesmo. Eu peguei pra me proteger. Se alguém tentasse me pegar… qualquer coisa… eu ia me defender com todas as minhas forças.

Ele ficou em silêncio por um segundo, absorvendo aquilo.

— Eu tô com muita dor, Anthony… — murmurei, envergonhada.

Ele se alarmou imediatamente.

— Onde? O que você tem?

Eu apertei as pernas, constrangida.

— Muita vontade de fazer xixi…

Por um segundo ele me encarou sério.

No outro, soltou uma risada baixa, aliviada.

Passei a mão no rosto, sem graça.

— Não ri de mim…

— Eu não estou rindo de você… — ele disse, ainda com um sorriso cansado. — Só… vem.

Ele pegou o celular, ligou a lanterna e caminhou comigo até a parte de trás do carro.

Virou de costas.

— Eu estou aqui. Pode ir.

Eu hesitei.

— Anthony… eu tô com medo de ficar sozinha…

Ele nem se virou, só estendeu o braço bom para trás, deixando a luz firme.

— Você não está sozinha.

A firmeza na voz dele me deu coragem.

Quando terminei, voltei rápido para perto dele.

Ele me observou por um instante.

Então eu olhei para o braço dele.

A tipoia.

O tecido já estava mais esticado.

— Como foi que você dirigiu até aqui com esse braço? — perguntei, assustada.

Ele soltou o ar devagar.

— Eu não usei ele.

Eu franzi a testa.

— Anthony…

— Usei uma mão só. O caminho inteiro.

Ele flexionou os dedos da mão ferida levemente e fez uma careta quase imperceptível.

— Algumas vezes eu precisei mexer um pouco… mas evitei.

O braço estava visivelmente mais inchado.

— Seu braço tá inchado… — falei baixo.

— Eu sei.

Ele olhou para a estrada.

Depois para mim.

— A gente ainda está longe de casa.

Meu coração apertou.

Ele não ia conseguir dirigir de volta daquele jeito.

Eu respirei fundo.

— Então a gente faz assim… — falei com cuidado. — Eu dirijo.

Ele virou o rosto lentamente para mim.

— Não.

— Anthony—

— Não, Rosângela.

Eu sustentei o olhar dele.

— Você veio me buscar ferido. Dirigiu horas com um braço só. Agora é minha vez.

Ele me encarou em silêncio.

— Eu dirijo.

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