Capítulo 6 Sua louca

Duas horas e meia de estrada.

Meu braço já estava queimando.

O bom formigando de cansaço. O imobilizado pulsando dentro da tipoia, inchado pelo esforço.

E nada.

Nenhum carro parado no acostamento.

Nenhum sinal dela.

— Não faz isso comigo, Rosângela… — murmurei, os olhos varrendo a pista escura.

Eu reduzi a velocidade.

Voltei alguns quilômetros.

Nada.

Meu coração começou a acelerar diferente.

Errado.

Eu virei no primeiro retorno e refiz o trajeto, agora mais devagar, analisando cada metro da estrada.

E então eu vi.

Uma entrada estreita.

Quase escondida.

Uma estrada de terra que levava para dentro da mata.

Eu teria passado direto se não estivesse procurando desesperadamente.

Mas ali…

Marcas recentes de pneu na terra.

Meu estômago gelou.

Eu virei o volante com cuidado e entrei.

A estrada era irregular. Escura. Fechada por árvores altas.

Andei alguns metros.

Faróis desligados à frente.

E lá estava.

O carro dela.

Parado mais para dentro da floresta.

Sozinho.

No escuro.

Meu coração bateu forte no peito.

Eu estacionei atrás, desliguei o motor e por um segundo só ouvi o som da noite.

Insetos. Vento nas folhas. Um silêncio pesado demais.

— Droga…

Saí do carro.

A dor no braço quase me fez xingar de novo, mas ignorei.

Fui caminhando devagar.

Quando me aproximei do vidro, vi.

Ela estava no banco de trás.

Encolhida.

Abraçada ao macaco do carro.

Um martelo firme na mão.

Os olhos arregalados no escuro.

Meu cenho franziu.

— O que essa doida tá fazendo com isso…

Eu bati no vidro.

Forte.

Ela gritou.

O martelo quase caiu da mão dela.

Eu bati de novo.

— ROSÂNGELA! SOU EU! É O ANTHONY!

Ela me encarou por um segundo que pareceu eterno.

Reconheceu.

E tudo mudou.

Ela se atrapalhou destravando a porta, abriu e praticamente caiu para fora do carro.

Veio direto para mim.

Chorando.

Se jogando nos meus braços.

— Obrigada… obrigada… obrigada… — repetia, agarrada na minha camisa como se eu fosse desaparecer.

E naquele instante…

Toda reclamação que eu ensaiei na estrada…

Sumiu.

Ela tremia inteira contra mim.

Fria. Assustada. Desmontada.

Eu a envolvi com o braço bom, puxando para perto.

— Eu jamais deixaria você aqui sozinha.

E eu falei baixo.

Não como bronca.

Como promessa.

Ela se apertou mais contra mim.

E eu senti.

Ela tinha passado medo de verdade.

Meu olhar caiu por cima do ombro dela.

Para o banco de trás.

O macaco.

O martelo.

Eu quase ri.

Quase.

Mas só balancei a cabeça.

Essa mulher ainda me mata.

De preocupação.

De raiva.

— Como esse carro veio parar aqui? — perguntei.

Ela fungou, enxugando o rosto.

— Eu empurrei.

Eu virei o rosto devagar para ela.

— Você fez o quê?

— Eu empurrei mais pra dentro… achei que ficaria mais escondido.

Eu fiquei encarando aquela mulher por uns segundos.

Sozinha. No escuro. Empurrando carro.

— Você é completamente maluca.

Ela deu de ombros, ainda tremendo.

— Eu precisava tentar ficar segura. Eu imaginei que só conseguiria ir pra sua casa amanhã de manhã… ia a pé até o posto, voltava com um galão…

Eu balancei a cabeça.

Corajosa. E inconsequente.

— Agora vamos sair daqui.

Ela então olhou para meu braço.

O inchaço já marcava a tipoia.

— Seu braço, Anthony…

Eu respirei fundo.

— Depois eu vejo isso.

— Está mais inchado.

— Eu sei.

Ela mordeu o lábio.

— Desculpa… a culpa é minha.

Eu segurei o rosto dela com a mão boa.

— Não começa.

Olhei em direção à entrada da trilha.

— Meu carro está lá na estrada. Vamos até ele.

Caminhamos juntos pela terra irregular.

Eu com o braço latejando. Ela grudada no meu lado.

Quando saímos da trilha e chegamos à estrada, meu carro estava exatamente onde deixei.

Faróis apagados. Silencioso.

Ela parou ao lado dele.

— Esse é seu carro?

— É.

Destravei.

Ela ficou olhando, impressionada.

— Eu dirijo.

Eu soltei um riso curto.

— Não.

— Anthony… você dirigiu mais de duas horas com um braço só.

— E continuo dirigindo.

Ela cruzou os braços.

— Você não vai aguentar.

— Meu carro é novo.

Ela abriu um sorriso animado.

— Eu adoro carros novos.

Eu comecei a rir mesmo contra a dor.

— Eu tô com medo é de você, sua louca.

— Vamos, bobão. Eu dirijo.

Eu olhei para ela. Para o jeito determinado. Para o braço que já estava realmente começando a queimar.

Suspirei.

Entreguei a chave.

Ela entrou no banco do motorista.

E quando a luz interna acendeu…

Os olhos dela brilharam.

— Que máquina… eu nunca dirigi um carro desse.

Eu me acomodei com cuidado no banco do passageiro.

— É o novo Mercedes-Maybach GLS.

Ela passou a mão pelo volante como se fosse um troféu.

— Perfeito. Eu estou apaixonada por ele.

Eu ri.

— Eu sabia que você era interesseira.

Ela me lançou um olhar ofendido.

— Eu sabia que você era rico… mas não sabia que era tanto.

Eu encostei a cabeça no banco.

— Eu nem sempre fui rico, Rosângela.

Ela virou o rosto para mim, curiosa de verdade.

— Sério? Mas você é médico… achei que médicos já nasciam ricos.

Eu balancei a cabeça.

— Não foi meu caso, gatinha.

Olhei para frente, a estrada escura diante de nós.

— Meu pai era segurança. Minha mãe zeladora. Três filhos. Eu sou o do meio.

Ela ficou quieta.

Respeitosa.

— E você chegou até aqui…

Eu dei um meio sorriso.

— Cheguei.

A dor no braço pulsou de novo.

Ela ligou o carro com cuidado.

— Mas isso é história pra outro momento.

— É.

Ela colocou o carro em movimento.

E pisou no acelerador.

Forte.

Meu corpo foi pra frente junto.

— JESUS! — meu coração foi parar na boca. — Você sabe dirigir, sua louca?!

Ela nem olhou pra mim.

— Sei! Tenho carteira!

O motor respondeu grave, potente.

Ela abriu um sorriso enorme.

— Meu Deus, Antony… que carro é esse? UAU! Que máquina!

Eu fiz o sinal da cruz com a mão boa.

— Socorro, Deus…

Ela riu.

— Para de drama!

O velocímetro subindo.

A estrada escura passando rápido demais.

— Mulher, assim não chegamos vivos em casa!

Ela diminuiu só um pouco… só o suficiente pra fingir responsabilidade.

— Relaxa. Eu dirijo bem.

O carro respondeu macio, estável, poderoso.

Ela passou a mão pelo volante com admiração.

— Isso aqui parece que flutua…

— Ele flutua quando a pessoa não tenta decolar com ele — resmunguei.

Ela gargalhou.

O vento batia de leve nas árvores enquanto saíamos da trilha e pegávamos a estrada principal.

Ela acelerou de novo.

Eu fechei os olhos por um segundo.

— Eu devia ter deixado você na floresta.

— Mentira.

— Verdade. Pelo menos lá eu morria parado.

Ela riu mais alto.

— Você tá com medo?

Eu virei o rosto devagar.

— Eu tô com medo de você.

Ela fez uma ultrapassagem suave demais para o meu gosto.

— Confia em mim.

Eu respirei fundo.

Confiar nela nunca foi o problema.

O problema é que ela não tem medo de nada.

— Rosângela…

— Hm?

— Se você arranhar esse carro eu desmaio.

Ela abriu um sorriso malicioso.

— Então segura firme, doutor.

E acelerou mais um pouco.

Eu apertei o banco com a mão boa.

— Eu salvo vidas no hospital… e vou morrer no meu próprio carro.

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