Capítulo 7 Temporário
Eu ria.
Mas agora eu estava dirigindo direito.
Ou pelo menos o suficiente para ele parar de se benzer.
— Eu salvo vidas no hospital… e vou morrer no meu próprio carro — ele resmungou.
Eu balancei a cabeça.
— Drama. Você é dramático demais pra um homem de quase dois metros.
Ele bufou.
— Eu tô com um braço só, Rosângela.
— E eu tô dirigindo um carro que custa mais do que a minha vida inteira. Cada um com seu problema.
Ele virou o rosto devagar.
— Você não vale pouco.
Eu senti a frase bater diferente.
Mas não dei o gosto.
— Foco na estrada, doutor. Não começa.
Silêncio curto.
Eu diminui um pouco a velocidade. Só um pouco.
O braço dele estava realmente inchado. A tipoia já marcava o tecido da camisa.
— Está doendo? — perguntei, fingindo desinteresse.
— Não.
Mentira descarada.
— Anthony.
— Tá. Um pouco.
— Você dirigiu duas horas e meia com um braço imobilizado. Você não é herói.
— Eu sei.
— Então para de agir como se fosse.
Ele me lançou um olhar lateral.
— Você estava sozinha no meio da estrada, no escuro. Não me dá lição de imprudência.
Eu mordi o lábio pra não rir.
— Eu estava armada.
— Com um martelo, Rosângela.
— E um macaco.
— Ah, então tudo sob controle.
Eu finalmente ri.
A tensão estava indo embora agora que ele estava ali. Vivo. Reclamando. Irritante.
— Você empurrou o carro sozinha? — ele perguntou depois de alguns minutos.
— Empurrei.
— Pra dentro da mata?
— Achei estratégico.
Ele fechou os olhos e respirou fundo.
— Você é completamente maluca.
— Eu prefiro o termo criativa.
A cidade começou a aparecer no horizonte. Luzes. Movimento. Vida.
Eu senti meu corpo relaxar de verdade.
— Então — falei casualmente — amanhã eu começo oficialmente.
Ele virou o rosto.
— Oficialmente o quê?
— Seu castigo.
— Meu o quê?
— Eu vou trabalhar na sua casa. Você esqueceu? Estou indo cuidar do paciente insuportável que dirige com braço quebrado.
Ele soltou um riso nasal.
— Eu não preciso de babá.
— Precisa sim.
— Eu dou conta.
— Você quase perdeu o braço bom hoje.
Ele ficou quieto.
Ponto pra mim de novo.
— É temporário — ele disse.
— Eu também.
Ele franziu a testa.
— Como assim?
— Eu estou lá temporariamente. Não se acostuma comigo.
Ele me olhou de um jeito estranho.
Não intenso.
Não profundo.
Mas avaliando.
— Difícil.
Eu senti o calor subir pelo meu pescoço.
— Difícil o quê?
— Não se acostumar.
Silêncio.
Eu foquei na pista.
— Você fala demais quando está com dor.
— E você dirige rápido demais quando está nervosa.
— Eu não estou nervosa.
— Você quase decolou esse carro.
— Testando estabilidade.
Ele riu de verdade dessa vez.
O som encheu o carro.
E eu odiei o quanto gostei de ouvir.
Paramos no sinal.
Eu virei pra ele.
— Amanhã eu assumo o controle da sua casa.
— Isso me preocupa.
— Vou organizar horários, medicação, comida.
— Você vai mandar em mim?
— Absolutamente.
Ele arqueou a sobrancelha.
— Quero ver.
O sinal abriu.
Eu acelerei suave dessa vez.
— Você vai ver, doutor.
Depois de quase duas horas e meia de viagem, a placa de Itajubá apareceu iluminada na entrada da cidade.
Eu senti aquele alívio automático no peito.
Casa.
Ou pelo menos… quase isso.
— Anthony … amanhã eu tenho que dar um jeito de pegar meu carro.
Ele nem hesitou.
— Não se preocupa com aquela lata velha.
Eu virei pra ele na hora.
— Respeita meu carro!
E dei um tapa no braço bom dele.
— Aí!
— Desculpa! — falei, levando a mão à boca.
— Você escolheu justamente o braço que funciona, Rosângela!
Eu tentei não rir.
— Reflexo.
Ele balançou a cabeça.
— Eu já mandei o reboque. Amanhã ele vai estar são e salvo… enfeitando minha garagem com aquela cor rosa horrorosa.
— Poxa! Humilhou, viu.
— Aquilo não é rosa. É um pedido de socorro.
— Ele é um guerreiro, tá? Já me tirou de várias enrascadas.
Ele me olhou de lado.
— Eu imagino… tendo a dona que tem.
Eu estreitei os olhos.
— Engraçadinho.
Fiquei alguns segundos quieta antes de continuar.
— Eu tenho ele há três anos… foi quando comecei a trabalhar no café. Juntei o dinheiro e comprei. Aprendi a dirigir sozinha… e depois que tirei a carteira.
Ele virou o rosto devagar.
— Você aprendeu sozinha?
— Sim.
Assenti simples, como se não fosse nada.
— Meu irmão não sabia na época. Eu sou dois anos mais velha que ele… então precisava me virar pra sustentar nós dois.
Ele ficou me olhando de um jeito diferente.
Não era pena.
Era respeito.
— E hoje?
— Hoje ele já tem emprego. Vai até casar.
Falei respirando fundo.
Um orgulho quieto.
— E seus pais? — ele perguntou, a voz menos provocadora agora.
— Já faleceram. Um tio tentou cuidar da gente… mas não deu muito certo.
Dei de ombros.
— Daí ficamos só eu e o Victor.
O carro ficou em silêncio por alguns segundos.
A cidade já estava quase toda vazia. Luzes amarelas, ruas tranquilas.
— Você cresceu rápido demais — ele disse baixo.
— Alguém tinha que pagar as contas.
Ele apoiou a cabeça no banco.
— Você me surpreende.
— Eu sei.
— Não era elogio.
— Eu sei.
Ele bufou.
Eu sorri.
Viramos a última esquina.
— Chegamos!
Buzinei três vezes.
— Uhuuuuu!
Ele quase pulou no banco.
— Para, sua louca! Já é madrugada! Vai acordar os vizinhos!
— É pra eles saberem que agora eu estarei por aqui!
— Isso não é ameaça, é aviso prévio de caos.
Eu ri alto.
Estacionei na frente da casa dele.
Ficamos alguns segundos em silêncio dentro do carro.
A fachada estava escura. Tudo quieto.
— Bem-vinda ao seu novo emprego temporário — ele disse.
— Bem-vindo ao seu novo pesadelo doméstico.
Ele abriu a porta com dificuldade.
Eu saí do meu lado e fui direto ajudar.
— Eu consigo — ele disse.
— Claro que consegue. E mesmo assim eu vou ajudar.
Ele me encarou.
— Você sempre foi assim?
— Assim como?
— Teimosa.
— Não. Eu sou insistente.
Ele riu pelo nariz.
Eu passei o braço dele com cuidado pelo meu ombro.
— Amanhã começa sua reabilitação.
— Amanhã começa meu arrependimento.
— Anthony?
— Hm?
— Se acostuma.
Ele olhou pra mim com aquele meio sorriso irritante.
— Já estou começando a suspeitar disso.
