Capítulo 8 Quarto
Entrar na casa dele foi… estranho.
Não pelo tamanho — embora fosse grande demais pra um homem só.
Mas porque tudo ali tinha a cara dele.
Organizado. Sério. Silencioso.
Anthony entrou primeiro, tentando parecer independente mesmo claramente precisando de ajuda.
— Eu consigo — ele repetiu.
— Eu sei — respondi. — Mas eu também consigo ajudar.
Ele não discutiu dessa vez.
Subimos devagar. Cada degrau parecia uma negociação com o braço imobilizado. Eu fiquei ao lado, pronta pra segurar se ele desequilibrasse.
Quando chegamos ao corredor, ele apontou com o queixo.
— O quarto é aquele do fim. Preparei hoje mais cedo.
Preparei.
A palavra ficou ecoando na minha cabeça.
Ele tinha preparado um quarto pra mim.
Ele abriu a porta.
Eu parei na entrada.
O quarto era simples, mas bonito. Lençóis claros. Uma colcha macia. Cheiro de roupa limpa. A janela dava pra parte lateral do jardim.
— Se não gostar, a gente muda — ele disse, encostado no batente.
Eu entrei devagar.
Passei a mão pela colcha.
Maciez absurda.
Sem pensar duas vezes, me joguei de costas na cama.
— Meu Deus!
O colchão praticamente me abraçou.
— Isso aqui é ilegal de tão confortável!
Ele riu baixo.
— É só uma cama normal.
— Mentira. Isso aqui é tecnologia da NASA.
Virei o rosto pra ele.
Ele estava ali, parado na porta, com o braço na tipoia… cabelo levemente bagunçado da viagem… expressão cansada.
E ainda assim…
Lindo.
Ridiculamente lindo.
Eu sentei rápido antes que meu olhar entregasse demais.
— Obrigada — falei, mais séria.
Ele deu de ombros.
— Você vai trabalhar pra mim. O mínimo que posso fazer é oferecer um quarto decente.
Ficamos alguns segundos em silêncio.
— Eu vou tomar um banho — anunciei, quebrando o clima.
— Fica à vontade. Se precisar de alguma coisa, meu quarto é o primeiro à esquerda.
Eu assenti.
Esperei ele sair.
Quando a porta fechou, eu respirei fundo.
Fui até o banheiro.
Azulejos claros. Toalhas dobradas com cuidado. Tudo no lugar.
Eu liguei o chuveiro e fiquei olhando a água cair por alguns segundos.
Nunca imaginei que ele fosse dirigir duas horas e meia com um braço imobilizado.
Nunca imaginei que ele fosse ficar desesperado daquele jeito.
Ele estava com medo.
Por mim.
Entrei debaixo da água quente e fechei os olhos.
Meu coração ainda estava meio descompassado.
Não era só pelo susto da estrada.
Era por ele.
Ele é lindo até com aquele braço na tipoia.
Talvez… principalmente assim.
Porque não é só aparência.
É o jeito.
A firmeza.
O cuidado disfarçado de implicância.
Eu apoiei a testa na parede fria do box.
Estou na casa dele.
Na casa do Anthony.
Isso não era parte do plano.
Eu vim pra trabalhar.
Só isso.
Temporário.
Eu repeti a palavra na minha cabeça como se ela pudesse me proteger.
Temporário.
Terminei o banho.
A água quente tinha levado a poeira da estrada… mas não tinha levado ele da minha cabeça.
Me sequei devagar. Vesti uma camisola simples — nada demais. Confortável. Clara. Inocente demais pra casa de um homem como aquele.
Quando saí do banheiro, enxugando o cabelo com a toalha, foi que eu vi.
Em cima da cômoda.
Um copo de leite.
E uma fatia generosa de bolo.
Eu parei no meio do quarto.
Meu coração fez aquele movimento estranho de novo.
Caminhei devagar até lá.
Ao lado do prato… um bilhete.
Dobrado.
Peguei.
Reconheci a letra firme antes mesmo de abrir.
“Pra você não dormir com fome.”
Só isso.
Sem assinatura.
Sem ironia.
Sem provocação.
Simples.
Direto.
Cuidadoso.
Eu fiquei alguns segundos olhando aquelas palavras como se fossem algo muito maior do que eram.
Porque eram.
Ele tinha subido.
Tinha deixado ali.
Sem bater na porta.
Sem fazer alarde.
Sem transformar em brincadeira.
Eu sentei na cama devagar.
Peguei o copo.
Ainda estava morno.
Ele tinha esquentado.
Eu mordi o bolo.
Caseiro.
Provavelmente da cozinheira… mas tinha sido ele que trouxe.
Eu respirei fundo.
Anthony dirige duas horas e meia com um braço imobilizado.
Anthony resmunga.
Anthony provoca.
Anthony chama meu carro de lata velha.
Mas Anthony também deixa leite morno e bolo com bilhete na cômoda.
Sem plateia.
Sem testemunha.
Só por cuidado.
Eu encostei o bilhete no peito por um segundo.
Ridícula.
Completamente ridícula.
— É temporário — sussurrei pra mim mesma.
Mas minha voz não soou tão convencida quanto deveria.
Olhei em volta do quarto outra vez.
A cama macia.
O silêncio da casa.
A sensação estranha de segurança.
Eu nunca imaginei que ele fosse me buscar.
Nunca imaginei que ele se preocuparia daquele jeito.
E agora…
Eu estava na casa dele.
De camisola.
Comendo bolo que ele deixou.
Isso não era parte do plano.
Terminei o leite.
Deitei.
Apaguei a luz.
Mas antes de fechar os olhos, uma pergunta insistiu na minha cabeça:
Ele também está acordado pensando em mim?
Virei de lado.
Abracei o travesseiro.
Perigoso demais.
Eu preciso dormir.
Pela manhã eu preciso cuidar dele.
Eu vim para isso.
Trabalho.
Foco.
Mas minha mente não ficou quieta.
Ela foi para o Antony.
Para o jeito que ele me buscou.
Para o cuidado silencioso.
Para o bilhete.
E então… foi para outra lembrança.
Meu primo Marcos.
Ele tentou mais uma vez me agarrar.
Meu corpo enrijeceu só de lembrar.
Eu preciso de um lugar seguro.
Ele não vai desistir.
Eu sei que não.
Preciso me mudar.
Vou deixar meu irmão na casa, já que ele vai casar.
Ele merece começar a vida dele tranquilo.
E eu…
Eu preciso começar a minha.
Um apartamento pequeno.
Só meu.
Se eu conseguir um emprego aqui, eu fico.
Fico perto da Lyz.
Recomeço.
Eu vou torcer para que dê tudo certo.
Porque dessa vez…
Eu preciso que dê.
Fui fechando os olhos.
Pensando naquele homem.
Tão forte… e ao mesmo tempo tão frágil nesse momento.
O braço imobilizado.
O cansaço escondido atrás das provocações.
O cuidado silencioso que ele tenta disfarçar.
Ele não gosta de parecer vulnerável.
Mas está.
E amanhã ele vai precisar de mim.
Eu vim para isso.
Eu darei o meu melhor para cuidar dele.
Não por obrigação.
Não só por trabalho.
Mas porque… eu quero.
Suspirei baixo no escuro.
— Vai dar tudo certo — murmurei para mim mesma.
