Capítulo 1

Ponto de vista de Sadie

Acordei com o coração tentando socar para fora da minha caixa torácica.

O sonho ainda estava ali, grudado na minha pele como umidade. Jake Montgomery, vendado e amarrado na beira daquela piscina de borda infinita idiota na propriedade da família dele. A camiseta branca encharcada, colada em abdominais que não tinham o menor direito de existir num aluno do último ano do ensino médio. Eu, sentada no colo dele como se tivesse todo o direito de estar ali, os dedos enroscados no cabelo dele enquanto eu o beijava como se estivesse tentando provar alguma coisa.

"Você gosta mesmo de mim desse tanto?" Jake-do-sonho murmurou contra a minha boca, a voz toda rouca e divertida.

"O bastante para te trancar," eu disse, e disse sério.

Então ele se soltou, me jogou na água, e—

Enfiei o rosto no travesseiro e soltei um som que era metade gemido, metade choramingo. Meus lábios ainda formigavam. Meu corpo inteiro parecia estar ligado numa tomada. Aquela era a terceira vez naquela semana, e cada sonho estava ficando pior. Mais detalhado. Mais real. Mais físico.

Eu tinha dezessete anos e, ao que tudo indicava, era uma pervertida completa.

"SADIE!" A voz de Brooklyn atravessou meu auto-ódio como uma buzina de navio. "Você precisa ver isso!"

Abri um olho só. Minha colega de quarto estava praticamente vibrando ao lado da minha cama, com a tela do celular tão enfiada na minha cara que eu conseguia contar os pixels. Maya estava sentada de pernas cruzadas na própria cama, já totalmente arrumada, com as anotações do debate espalhadas ao redor como se estivesse acordada desde o amanhecer. Zoe estava perto da janela, os dedos se movendo sobre teclas invisíveis de piano, do jeito que fazia quando tentava permanecer neutra.

"O quê?", consegui dizer, com a voz ainda áspera de sono e vergonha.

"O discurso do Jake Montgomery na Cúpula de Liderança Jovem de Boston!" Brooklyn estava fazendo aquela coisa de quicar nas pontas dos pés, cada centímetro dos seus um metro e sessenta irradiando pura energia caótica. "Você viu o que a escola postou ontem à noite? Meu DEUS, Sadie, ele está—só assiste."

Ela apertou o play antes que eu pudesse protestar.

O vídeo preencheu a tela dela. Jake estava atrás de um púlpito, usando um terno azul-marinho que provavelmente custava mais do que o primeiro carro da minha mãe, com as cores dos Lincoln Heights Lions ficando criminosamente bem nele. Atrás dele, algum modelo complicado de investimento financeiro brilhava numa tela enorme. Mas eu não conseguia me concentrar nisso. Estava ocupada demais catalogando detalhes que meu cérebro aparentemente tinha memorizado sem a minha permissão: o jeito como o cabelo castanho-escuro dele estava penteado para trás, destacando aquela testa perfeita e aquelas maçãs do rosto afiadíssimas. Aqueles olhos azul-claros que sempre pareciam um pouco cansados, um pouco perigosos, como se ele não dormisse havia dias e pudesse fazer alguma loucura por causa disso.

A voz dele saiu pelos alto-falantes do celular de Brooklyn. Grave. Suave. Cada sílaba caindo com uma confiança preguiçosa que fez meu estômago virar.

Eu conhecia aquela voz. Conhecia desde um ano atrás, daquele verão antes de tudo mudar, quando ele me prensou contra a parede do velho cinema drive-in e—

"Ele é literalmente perfeito", suspirou Brooklyn. "Tipo, geneticamente perfeito. Como isso é justo?"

"As meninas de Lincoln Heights vão ficar insuportáveis pelo próximo mês", disse Maya, sem tirar os olhos das anotações. Ela empurrou os óculos de aro dourado mais para cima no nariz. "A seção de comentários já está um desastre."

"Não é só a nossa escola", acrescentou Zoe, em voz baixa. Ela tinha aquele jeito de artista de enxergar as coisas, como se estivesse sempre com metade de si em outro mundo. "Olha as respostas. Meninas de outros estados estão surtando."

Soltei um som indiferente e me virei na cama, puxando o edredom até o queixo. Se eu fechasse os olhos, talvez pudesse fingir que não tinha passado o último ano apaixonada de forma patética por alguém que nem se lembrava de que eu existia.

Só que ele sabia que eu existia. Uma vez.

Naquele verão entre o segundo e o terceiro ano, quando a mamãe ainda fazia turnos dobrados e eu ajudava no StarNet Café — antes de ela se casar com Richard Montgomery, dois meses atrás, e virar nossa vida de cabeça para baixo com o dinheiro de Lincoln Heights e a política de clube de campo — Jake apareceu certa noite, com cara de quem estava fugindo de alguma coisa, e nós—

"Sadie, você nem está olhando!", reclamou Brooklyn.

"Eu vi", murmurei no travesseiro.

"Não seja chata. Assiste de novo. Com a gente."

Eu queria dizer a ela que já tinha assistido àquele discurso idiota dezessete vezes, que tinha decorado exatamente o jeito como a boca dele se movia quando dizia portfólio de investimentos, que eu tinha gravado a tela como uma maluca e depois apagado na mesma hora, de vergonha. Mas isso exigiria explicar por que eu me importava, e eu preferia morrer.

Então me sentei, peguei meu próprio celular e fingi rolar o Instagram enquanto elas davam replay no vídeo.

Grande erro.

A conta oficial da escola tinha postado aquilo por toda parte. Os comentários eram exatamente o que eu esperava: um monte de emojis de fogo, gente digitando aleatoriamente de tão surtada e observações cheias de segundas intenções que fizeram meu rosto queimar.

a proporção entre a cintura e os ombros dele devia ser ilegal

O JEITO QUE A VOZ DELE FICA MAIS GRAVE QUANDO ELE DIZ 'INVESTIMENTO ESTRATÉGICO' 😭😭😭

eu deixaria ele me explicar juros compostos por HORAS

Passei por esses comentários, tentando ignorar o jeito como meu pulso acelerava toda vez que eu via o nome dele. Então parei num comentário que fez meu estômago despencar.

ele não tirou um ano sabático no ano passado? ouvi dizer que foi por causa de uma namorada

Meu polegar congelou na tela.

sim eu ouvi isso também! aparentemente ela está numa academia de balé chique em Boston. eles estão juntos há séculos

faz sentido. a família Montgomery provavelmente só namora gente de famílias tradicionais e ricas

O celular escorregou um pouco na minha mão. Apertei os dedos, encarando aquelas palavras até elas ficarem borradas.

Namorada.

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