Capítulo 3

Ponto de vista da Sadie

O sol da tarde entrava inclinado pelas janelas altas do saguão principal enquanto eu estava na entrada do prédio, vendo minhas amigas se dispersarem para suas atividades separadas. Brooklyn foi correndo em direção aos campos esportivos, com o rabo de cavalo balançando. Maya seguiu para a sala de debates, já tirando suas anotações coloridas. Zoe foi em direção ao prédio de música, com os fones de ouvido já colocados.

E eu virei à esquerda, em direção ao prédio de artes.

Fotografia eletiva. Eu tinha escolhido justamente porque exigia foco, porque eu podia me esconder atrás de uma câmera e fingir que o mundo era só composição e luz. Sem pensamentos. Sem sentimentos. Só abertura e velocidade do obturador.

O prédio de artes cheirava a tinta e líquido revelador, aquele aroma químico forte que, de algum jeito, parecia mais limpo do que o resto do campus. Subi as escadas até o segundo andar, onde a sala de fotografia ficava no fim de um corredor inundado de sol.

Vinte e poucos alunos já estavam espalhados pela sala quando entrei. Séries diferentes, círculos sociais diferentes. Essa era a questão das eletivas — elas misturavam todo mundo de um jeito que a estrutura rígida das matérias obrigatórias nunca fazia.

Escolhi um lugar perto da janela, longe dos grupinhos de alunos conversando. Montei meu tripé. Ajustei o visor. Concentrei-me nas tarefas mecânicas.

— Certo, pessoal, vamos nos acalmar. — A sra. Rivera entrou na sala, com seus óculos redondos vintage refletindo a luz. Ela devia ter uns quarenta anos, com cabelos curtos riscados de prata e uma presença leve e acolhedora que fazia a sala parecer menos uma sala de aula e mais um estúdio. — Bem-vindos de volta. Espero que todos tenham tido um bom fim de semana.

Alguns murmúrios concordando. Alguém mencionou uma festa. Outra pessoa reclamou da lição de casa.

A sra. Rivera sorriu e foi até as janelas, com seu cardigã comprido esvoaçando atrás dela.

— Hoje não vamos falar sobre regras de composição, nem sobre a regra dos terços, nem sobre nada dessas coisas técnicas. Hoje, vamos fazer uma coisa, e uma coisa só: aprender a enxergar a luz.

Ela agarrou as cortinas pesadas e as abriu completamente.

A luz da tarde invadiu o espaço, dourada e inclinada, espalhando desenhos pelo chão. As sombras das árvores dançavam sobre as tábuas de madeira. Partículas de poeira giravam nos feixes de luz.

— A luz é o que torna a fotografia possível — disse a sra. Rivera, gesticulando para a sala transformada. — Mas, mais do que isso, a luz é o que torna extraordinárias as coisas comuns. É assim que você vê o mundo. Como você se sente em relação ao que está olhando. Então, hoje, eu quero que vocês simplesmente... olhem. Vejam como a luz incide. Como ela dá forma às coisas. Como ela muda tudo.

Fiquei olhando os desenhos no chão. Luz dourada. Sombras escuras. O contraste entre elas.

Meus dedos se moviam automaticamente, ajustando o visor, mas minha mente estava em outro lugar.

A luz sempre fazia isso. Surgia sem aviso. Ia embora sem pedir permissão.

Assim como ele.

Pensei no jeito como a luz do sol costumava ficar presa no cabelo dele durante aquelas noites de verão no drive-in. No jeito como seu perfil ficava quando ele se virava para mim, iluminado por trás pelo brilho da tela do cinema. No jeito como seus olhos azul-claros refletiam tudo — o pôr do sol, as estrelas, eu.

Dezessete anos e idiota. Eu achei que o nosso verão poderia nos proteger. Mas um acidente me apagou completamente da vida dele. Ele conseguiu tudo o que eu queria para ele — só não a mim. A nossa história? Sumiu. Como se nunca tivesse acontecido.

A luz não pertence às sombras, pensei, observando os desenhos mudarem à medida que nuvens passavam lá em cima. Ela só atravessa.

— Sadie?

Pisquéi. A sra. Rivera estava me olhando com uma preocupação gentil.

— Você está bem? Parecia estar em outro lugar.

— Estou bem — respondi automaticamente. — Só... pensando na luz.

Ela sorriu.

— Ótimo. É exatamente isso que você deveria estar fazendo.


A aula terminou às três e quarenta. Arrumei minha câmera devagar, deixando a sala esvaziar ao meu redor. Sem pressa. Sem ter para onde ir. Só mais uma tarde tentando não pensar nas coisas que eu não podia mudar.

Eu já estava na metade do corredor do prédio de artes quando ouvi.

Gritos agudos. Estridentes, empolgados, aquele tipo de som que só surgia quando algo grande estava acontecendo.

Três garotas passaram correndo por mim, quase batendo no meu ombro.

— Meu Deus, ele voltou!

— Quem? Espera… você tá falando sério?

— Tô! Ele tá no Portão Leste agora! Alguém postou no Lion’s Den!

— Para. Jake Montgomery? Ele sumiu faz quase um ano!

Meus pés pararam.

— Eu sei! Pelo visto ele acabou de voltar de Boston. E meu Deus, as fotos… ele tá ainda melhor do que antes.

Elas sumiram na esquina, as vozes se dissolvendo numa algazarra animada.

Fiquei no corredor vazio, e de repente minha bolsa da câmera pareceu muito pesada.

Ele tinha voltado.

Jake tinha voltado.

Eu devia ir pro dormitório. Eu devia ir pra qualquer lugar, menos em direção ao Portão Leste. Eu não devia, de jeito nenhum, ir atrás dele, porque isso seria patético e desesperado e exatamente o tipo de coisa que eu tinha prometido a mim mesma que não faria mais.

Meus pés começaram a andar.

Só pra ter certeza de que ele tá bem, eu disse a mim mesma. Só pra confirmar que ele voltou em segurança. Só isso. Só isso.

A mentira tinha gosto amargo.

O caminho até o Portão Leste cortava uma alameda ladeada de árvores, e as folhas caídas estalavam sob meus tênis. O ar da tarde era fresco, trazendo aquele cheiro cortante de outono — folhas morrendo e fumaça distante de lenha. Meu coração martelava contra as costelas a cada passo.

Quanto mais eu me aproximava, mais gente eu via. Alunos aglomerados em grupos, celulares em punho, esticando o pescoço para enxergar. O Portão Leste costumava ser tranquilo, uma das entradas laterais que quase ninguém usava. Agora parecia a entrada de um show.

Desacelerei, ficando na borda da multidão. Me escondendo atrás do tronco de um carvalho velho.

E então eu o vi.

Uma Maserati preta parada junto ao meio-fio, a porta do motorista aberta. Jake estava ao lado dela, conversando com o professor Harrison, do departamento de finanças. Usava uma camisa Oxford branca, as mangas dobradas até os antebraços, calça social preta. O cabelo castanho-escuro estava um pouco bagunçado pelo vento e, mesmo de longe, eu conseguia ver o traço firme do maxilar, o jeito como a luz do sol recortava seu perfil.

Ele parecia exatamente o mesmo. Exatamente como eu lembrava. Exatamente como nos meus sonhos.

Exatamente como alguém para quem eu não tinha o direito de olhar.

— …uma bela recepção de volta — dizia o professor Harrison, a voz alcançando o silêncio ao redor. — Os alunos certamente sentiram sua falta.

A resposta de Jake foi baixa, educada, mas distante.

— Desculpe pela multidão, professor. Eu devia ter escolhido um horário menos óbvio pra voltar.

— Não tem problema. — Harrison deu um tapinha no ombro dele. — Vá descansar. Te vejo amanhã à tarde. Duas horas, na minha sala.

— Sim, senhor.

O motor da Maserati ronronou ao ganhar vida. Jake entrou no banco do motorista com aquela graça sem esforço que vinha de uma vida inteira de confiança, de nunca precisar pensar duas vezes se pertencia a algum lugar.

E então ele se foi, o carro desaparecendo pela estrada ladeada de árvores.

A multidão começou a se dispersar, os alunos se afastando em pequenos grupos, ainda vibrando de empolgação. Eu fiquei onde estava, encostada na casca áspera do carvalho, incapaz de me mexer.

Um cara de camisa branca de botões passou por mim, rindo com os amigos.

A mesma cor de camisa. O mesmo estilo, até.

Mas não era a mesma coisa.

O branco de Jake não era quente nem macio. Era frio, limpo e intocável, como neve recém-caída no pico de uma montanha. Bonito de um jeito que fazia você querer olhar, mas nunca tocar, porque sabia que só estragaria.

Fechei os olhos e apoiei a cabeça na árvore.

É por isso que você precisa esquecê-lo, eu disse a mim mesma. É por isso que nunca teria dado certo. É por isso que—

Mas meu cérebro não colaborou. Em vez disso, me arrastou para trás, para memórias que eu tinha tentado enterrar com tanta força.

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