Capítulo 4

Ponto de vista de Sadie

Ensino médio. Verão do segundo ano. Antes de tudo desmoronar.

O drive-in Sunset ficava na beira de Lincoln Heights, onde os bairros chiques davam lugar a galerias de lojas e postos de gasolina. Era velho e caindo aos pedaços, o tipo de lugar que passava filmes que já tinham saído de cartaz por cinco dólares e não fazia perguntas se você ficasse depois do horário de fechar.

Mamãe tinha acabado de abrir o cybercafé. O dinheiro estava curto. Eu tinha pegado turnos no drive-in pra ajudar, trabalhando na lanchonete e conferindo ingressos.

Na maioria das noites, era tranquilo. Famílias com crianças. Adolescentes procurando algum lugar barato pra ficar de bobeira. Um ou outro casal se pegando na última fila.

Aí, numa sexta-feira de julho, ele apareceu.

Maserati preta. Sozinho. Carro caro, roupa cara, mas havia algo nele que parecia exausto. Gasto. Como se estivesse fugindo de alguma coisa que nem conseguia nomear.

Ele não assistiu ao filme. Só ficou sentado no capô do carro, encarando as estrelas, abrindo e fechando um isqueiro prateado. Clique. Clique. Clique.

Eu devia ter mandado ele embora quando o ingresso venceu. Era a regra. Mas alguma coisa no jeito como ele estava — perdido, talvez, ou só cansado de fingir — me fez levar uma Coca-Cola em vez disso.

— Fechamos às dez — eu disse, colocando a garrafa no capô. — Mas posso fingir que não vi você se precisar de um lugar quieto.

Ele olhou pra mim então. Olhou de verdade. Aqueles olhos azul-claros focando como se eu fosse a primeira coisa real que ele tinha visto em semanas.

— Obrigado — ele disse. E então, mais baixo: — Eu só precisava de um lugar que não fosse... lá.

Eu não perguntei onde era “lá”. Achei que não era da minha conta.

Mas ele continuou voltando. Toda sexta-feira. Às vezes ele falava. Às vezes não. Às vezes trazia café do Starbucks pra mim, mesmo eu nunca tendo pedido. Às vezes eu guardava pra ele a melhor vaga, mesmo eu definitivamente não podendo fazer aquilo.

E então veio a noite em que choveu.

O carro dele quebrou no estacionamento, bateria arriada. Eu tinha emprestado o guarda-chuva da mamãe, o transparente com cabo de madeira. Ele olhou praquilo como se eu tivesse entregado algo precioso.

Quando ele devolveu na semana seguinte, tinha um bilhete enfiado dentro.

Obrigado. —J

Só isso. Duas palavras. Mas eu guardei aquele bilhete na gaveta da minha escrivaninha por meses.

E então chegou meu aniversário. Três de agosto. Eu tinha comentado de passagem, sem esperar nada. Mas naquela noite ele apareceu com uma caixinha embrulhada em papel pardo.

Dentro havia um isqueiro Zippo prateado. Não era caro — provavelmente de algum brechó ou feira —, mas ele parecia quase nervoso quando me entregou.

— Eu reparei que você está sempre com frio — ele disse. — Mesmo no verão. Então eu pensei... sei lá. Algo quente.

Eu encarei ele, sem entender.

— Pra acender velas — ele esclareceu, sem graça. — Ou... sei lá. É idiota. Esquece.

— Não é idiota — eu disse depressa. — É perfeito.

E tinha sido. Não pelo que era, e sim pelo que significava: ele tinha reparado em mim. Tinha pensado em mim. Tinha se importado o suficiente pra escolher alguma coisa.

Naquela noite, o último filme já tinha acabado, mas nenhum de nós se deu ao trabalho de ir embora.

A chuva martelava o pátio vazio em cortinas prateadas, transformando as luzes de neon do drive-in em faixas borradas de cor. Os alto-falantes estalavam baixinho com os créditos finais de algum romance antigo que nenhum de nós, de fato, tinha assistido.

Jake se sentou ao meu lado no capô da Maserati, as mangas arregaçadas, a chuva encharcando o tecido branco da camisa até ele grudar na pele. O cabelo escuro dele estava molhado, caindo sobre a testa, e de vez em quando ele empurrava as mechas para trás com uma mão displicente, como se não percebesse o quão absurdamente bonito ficava.

Ou talvez percebesse.

Entre nós havia uma garrafa pela metade de um coquetel barato de pêssego que ele comprara num posto de gasolina ali na estrada.

— Gosto horrível — eu ri depois do primeiro gole.

— Você tomou um segundo.

— Isso foi pesquisa.

Ele sorriu então — devagar, cansado, de verdade. Não o sorriso polido que usava na escola. Era algo mais suave. Perigoso de um jeito completamente diferente.

A chuva continuava caindo.

Chuva morna de verão. Forte o bastante para nos encharcar por completo, mas nenhum de nós se mexeu.

Eu já nem lembro do que estávamos falando. Alguma coisa sobre ir embora da cidade. Sobre se sentir preso. Sobre como as pessoas podiam ficar solitárias mesmo cercadas por todo mundo que supostamente deviam amar.

O álcool de pêssego deixava tudo meio nebuloso nas bordas.

O joelho dele roçou no meu.

E ficou ali.

Meu coração perdeu o ritmo.

Jake me olhou em silêncio, os olhos azul-claros mais escuros sob a chuva e o brilho do neon. Meu Deus, ele era lindo assim — meio desfeito nas bordas, exausto, real o bastante para tocar.

Não o garoto dourado da escola.

Só ele.

O trovão ribombou em algum lugar distante.

— Sabe o que é estranho? — ele disse baixo.

— O quê?

— Eu esqueço as coisas quando estou com outras pessoas. — O polegar dele deslizou distraído pelo isqueiro prateado na mão. Clic. Clic. — Mas com você... — Ele ergueu os olhos para os meus. — Tudo parece mais nítido.

A chuva escorreu pela linha do maxilar dele. Pelo pescoço. A gola da camisa estava aberta o suficiente para fazer meu estômago se contrair.

De repente, eu não conseguia respirar direito.

Ele percebeu.

Eu soube que ele percebeu porque o olhar dele desceu — devagar — até a minha boca.

O mundo pareceu parar ali.

Uma chiadeira de estática de filme crepitava ao fundo. Chuva batendo no metal. Licor de pêssego na minha língua. O joelho dele pressionado contra o meu como uma pergunta que nenhum de nós sabia fazer em voz alta.

E então ele se inclinou.

Não rápido.

Como se estivesse me dando tempo de impedi-lo.

Eu não impedi.

A mão dele subiu primeiro, os dedos frios e úmidos no meu maxilar, virando meu rosto com cuidado — como se eu fosse algo frágil. Mas no segundo em que a boca dele tocou a minha, todo aquele cuidado desapareceu.

Não foi delicado.

Foi faminto, daquele jeito sem fôlego e adolescente que os primeiros beijos têm quando vocês dois estão fingindo que não querem isso há tempo demais.

Água de chuva e doçura de pêssego e o gosto forte do álcool.

Eu soltei um som pequeno contra a boca dele — surpresa, trêmula — e ele expirou como se aquele som, sozinho, tivesse desfeito tudo dentro dele.

— Sadie — ele murmurou contra meus lábios.

O jeito como ele disse meu nome quase me destruiu.

Ele me beijou de novo, mais forte dessa vez, uma mão escorregando para o meu cabelo molhado, a outra agarrando a borda do capô ao meu lado como se estivesse se segurando para não fazer algo pior.

Tudo nele era avassalador.

O calor dele apesar da chuva.

O cheiro de fumaça e colônia cara e tempestades de verão.

O jeito como ele me olhava como se eu fosse a única coisa real que ainda existia no mundo.

Quando enfim nos afastamos, os dois respirando rápido demais, a chuva pingando dos cílios dele, Jake apoiou a testa de leve na minha.

E, numa voz tão baixa que quase não ouvi, ele disse:

— Você é a primeira coisa de verdade que eu sinto em muito tempo.

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