Capítulo 5

Ponto de vista de Sadie

O refeitório estava um caos.

Eu nunca tinha visto aquilo tão lotado. Todas as mesas ocupadas, gente em grupinhos perto das janelas, celulares em punho, todo mundo falando ao mesmo tempo sobre a mesma coisa.

Jake Montgomery tinha voltado.

Brooklyn me arrastou pela multidão, com Maya e Zoe vindo atrás. “Você ouviu falar do menu especial?”, Brook estava praticamente tremendo de empolgação. “Linguine com lagosta de Boston e cheesebúrgueres de trufa negra. O chef fez pra comemorar que o discurso do Jake viralizou.”

“Ou porque todo mundo tá aqui esperando ver ele”, Maya disse, seca.

Ela não estava errada. A fila do almoço se estendia até a porta, mas metade das pessoas nem olhava para a comida. Estavam vasculhando o salão com os olhos, esticando o pescoço em direção à entrada.

Meu estômago se revirou.

Deixei a Brook me puxar para a frente, mas tudo parecia distante. Abafado. Como se eu estivesse debaixo d’água e todo mundo estivesse respirando ar normal.

“…ouvi dizer que ele pode comer aqui hoje…”

“…consegui o print em que ele sorriu…”

“…a namorada dele deve ser modelo ou algo assim…”

Eu me concentrei na nuca da Brook. Em colocar um pé na frente do outro. Em não pensar no sonho de ontem à noite, nem nos comentários do Lion’s Den de manhã, nem no fato de que Jake tinha uma namorada bailarina perfeita em Boston, que provavelmente nunca acordava se odiando.

Quando finalmente chegamos ao começo da fila, a funcionária da cantina balançou a cabeça antes mesmo de Brook conseguir perguntar.

“Acabou tudo. Vocês chegaram tarde.”

O rosto da Brook desabou. “Mas—”

“Deveriam ter vindo mais cedo.” A mulher já se virou para a próxima pessoa.

Pegamos o que tinha sobrado — salada murcha, macarrão comum com cara de ter ficado horas debaixo da lâmpada aquecedora — e nos esprememos numa mesa no canto, perto do fundo.

Fiquei cutucando a comida. Não sentia gosto de nada.

Ao nosso redor, o refeitório zumbia com o nome do Jake. Alguém disse que ele tinha uma reunião com o professor Harrison hoje à tarde. Outra pessoa insistiu que ele nunca comia no refeitório mesmo. Um grupo de meninas perto das janelas não parava de atualizar o Lion’s Den, lendo em voz alta cada post novo sobre ele.

“Sadie.”

Levantei o olhar. Brook me encarava com aquela expressão preocupada que ela fazia às vezes. “Você tá bem? Você não comeu nada.”

“Eu tô bem.” Espetei um pedaço de alface. “Só tô cansada.”

“Tem certeza? Você tá meio… estranha o dia todo.”

“Tenho.”

Maya se recostou na cadeira, me estudando por cima dos óculos. “Isso é por causa do sonho?”

Meu garfo bateu no prato, fazendo barulho.

“O quê? Não. Eu já falei, não foi nada.”

“Ahã.” Brook abriu um sorriso. “Nada. Por isso você tá com cara de quem teve o cachorro chutado.”

Zoe tocou meu braço com cuidado. “A gente só tá preocupada. Você parece muito abalada.”

Eu não estava abalada.

Eu estava humilhada. Patética. Sentada aqui num refeitório cheio de gente surtando por um garoto que nem lembrava que eu existia, enquanto eu não conseguia parar de pensar no jeito que ele tinha me beijado um ano atrás, na chuva.

“Eu preciso de ar”, eu disse de repente, me levantando.

“Sadie—”

“Depois eu encontro vocês.”

Peguei minha bolsa e atravessei a multidão antes que elas pudessem vir atrás.

Lá fora, o calor me acertou como uma parede.

Mesmo assim eu continuei andando. Para longe do refeitório, longe do barulho, longe de todas aquelas vozes dizendo o nome dele como se ele fosse algo sagrado.

A área comercial perto da escola estava quase vazia a essa hora. Só algumas lojas, uma cafeteria, a papelaria de arte onde eu às vezes comprava coisas para fotografia.

Eu não tinha um plano. Não sabia para onde estava indo.

Eu só precisava me mexer.

Dentro da papelaria, estava um gelo. O ar-condicionado tão forte que eu via os arrepios subindo nos meus braços. Peguei o primeiro caderno espiral que vi — barato, simples, exatamente o que eu precisava para a aula — e paguei sem olhar direito.

Quando voltei para fora, o contraste fez minha cabeça girar.

Eu andei devagar pela borda da calçada, ficando na sombra sempre que dava. Meus fones estavam no ouvido, mas eu não estava ouvindo a música. Eu só precisava de alguma coisa para preencher o silêncio.

Ele tem namorada.

Ele não lembra de você.

Você não é nada pra ele.

Fechei os olhos por um segundo e tentei respirar, atravessando aquilo.

Tentei não pensar no isqueiro que ele tinha me dado. Aquele que eu guardei na gaveta da minha escrivaninha por um ano, embrulhado no mesmo papel pardo, porque jogá-lo fora parecia impossível.

Tentei não pensar no fato de que eu tinha comprado para ele exatamente o mesmo isqueiro de aniversário uma semana depois. Que mandei gravar na base a data do nosso primeiro beijo.

Tentei não pensar se ele tinha guardado. Se tinha jogado fora. Se ao menos percebeu que estava faltando.

Quando cheguei aos portões da escola, já era quase duas horas.

A entrada principal estava silenciosa. A maioria das pessoas estava na aula ou ainda no almoço. Só eu, o calor e a faixa vazia de concreto que levava até o prédio principal.

Eu estava prestes a atravessar quando algo chamou minha atenção.

Um brilho prateado no chão, perto do portão.

Parei.

Me abaixei.

Peguei.

Um isqueiro Zippo. Prateado. Arranhado nas bordas pelo uso.

Meu coração parou.

Virei-o com as mãos trêmulas, já sabendo o que encontraria na base.

07.15

O mundo inclinou.

Esse era o isqueiro que eu tinha dado a ele. Aquele para o qual eu economizei. Aquele pelo qual fiquei vinte minutos naquela loja de gravações, escolhendo uma data simples porque eu queria que fosse perfeito.

E ele tinha deixado cair.

Largado aqui no chão como se fosse lixo.

Como se não significasse nada.

Como se eu não significasse nada.

Fiquei ali, segurando-o, sentindo algo se partir dentro do meu peito. Algo que mal vinha se sustentando desde aquela manhã.

Ele não tinha simplesmente me esquecido.

Tinha esquecido isso também.

“Com licença.”

A voz veio de trás de mim.

Fiquei imóvel.

Eu conhecia aquela voz. Reconheceria em qualquer lugar, mesmo depois de um ano de silêncio.

Devagar — tão devagar que eu conseguia sentir cada segundo —, me virei.

Jake estava a uns dois metros de distância.

Ele estava exatamente como eu me lembrava. Alto. Ridiculamente bonito. Cabelo escuro caindo sobre a testa, olhos azul-claros captando a luz da tarde. Camiseta branca, jeans preto, aquele colar com cruz de prata que ele sempre usava.

Atrás dele estavam alguns caras de blazer do conselho estudantil. Eles deviam ter acabado de sair de alguma reunião.

“Esse isqueiro”, Jake disse, assentindo na direção da minha mão. A voz dele era educada. Distante. Exatamente o tom que se usa com um estranho que acabou de te fazer um pequeno favor. “É meu. Eu deixei cair mais cedo.”

Eu não conseguia respirar.

Não conseguia me mexer.

Não conseguia fazer nada além de ficar ali, olhando para ele, enquanto meu corpo inteiro ficava dormente.

Ele não me reconheceu.

Estava olhando direto para mim e não me reconheceu.

“Senhorita?” Um dos caras do conselho estudantil deu um passo à frente. “Você está bem?”

Forcei-me a assentir. Forcei minha mão a se abrir.

“Sim. Desculpa. Toma.”

Estendi o isqueiro.

Ele pegou. Nossos dedos se tocaram por meio segundo — metal frio, pele quente — e algo na postura dele ficou imóvel.

Só por um batimento.

Então a expressão dele se suavizou de novo. Educada. Vazia.

“Obrigado”, ele disse.

Foi só isso.

Só “obrigado”.

Como se eu fosse ninguém. Como se a data gravada na base não significasse nada. Como se nós nunca tivéssemos existido.

“De nada”, consegui dizer.

Minha voz saiu errada. Baixa demais. Trêmula demais.

Os olhos de Jake se estreitaram levemente, como se ele estivesse tentando entender por que eu soava estranha. Mas, antes que pudesse dizer qualquer coisa, um dos caras do conselho estudantil chamou por ele.

“Jake, precisamos ir. O professor Harrison está esperando.”

“Certo.” Jake guardou o isqueiro no bolso sem olhar para ele de novo. Fez um pequeno aceno para mim. “Obrigado de novo.”

Então ele se virou e foi embora.

Fiquei ali, vendo-o partir.

Vi-o desaparecer pela entrada principal com aqueles caras do conselho estudantil, rindo de alguma coisa que um deles disse.

Vi-o ir embora como se nada tivesse acontecido.

Como se eu não fosse nada.

Minhas pernas começaram a se mover antes que eu decidisse mexê-las. Rápido. Mais rápido. Quase correndo quando cheguei ao prédio do dormitório.

Cheguei ao banheiro, tranquei a porta e escorreguei até o chão, encostada nela, antes que o primeiro soluço escapasse de mim.

Não foi alto. Foi daquele tipo baixo e feio que deixa a garganta em carne viva e as mãos tremendo ao redor do espaço vazio onde o isqueiro costumava estar.

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