Capítulo 6

Ponto de vista da Sadie

A situação do refeitório estava ficando ridícula.

Eu estava me escondendo no dormitório havia três dias seguidos, só saindo para as aulas que eu simplesmente não podia faltar. Minha rotina tinha virado algo pateticamente simples: acordar, checar o corredor, calcular os lugares mais prováveis em que Jake estaria com base no horário dele (que eu definitivamente não tinha decorado), e então planejar meu caminho de acordo.

O incidente do isqueiro tinha quebrado alguma coisa dentro de mim. Não de um jeito dramático, de partir a vida ao meio. Mais como uma rachadura silenciosa que continuava se espalhando, deixando tudo levemente fora de equilíbrio.

Na sexta-feira à tarde, a mensagem da Brook acendeu o grupo.

Brook: SOS. O refeitório é um DESASTRE. A fila tá saindo pela porta. Quem topa ir no The Burger Joint em vez disso?

Maya: Apoiado. Me recuso a comer num zoológico.

Zoe: Hoje eles têm aquela promoção de leve dois, pague um.

Eu encarei o celular, deitada de costas no quarto vazio do dormitório. As outras meninas provavelmente ainda estavam em aula. Sair parecia perigoso. Ficar parecia patético.

Eu: Tô dentro.

Brook: SIIIIM. Encontramos lá embaixo às 6?

Pelo menos num lugar aleatório de hambúrguer fora do campus, eu não ia precisar me preocupar em dar de cara com ele.


O Toyota do pai da Brook tinha cheiro de aromatizador de baunilha e café velho. A Maya foi na frente, me deixando espremida atrás entre a Zoe e uma pilha de equipamentos de futebol da Brook.

“Graças a Deus a gente tá escapando”, disse a Brook, saindo do estacionamento. “Juro que o refeitório virou algum tipo de centro de adoração do Jake Montgomery. Vocês viram o Lion’s Den hoje de manhã? Alguém começou uma enquete sobre que carro ele dirige.”

“Um Maserati”, disse a Maya, sem tirar os olhos do celular. “Quattroporte S Q4. Custa por volta de 130 mil dólares.”

“Como é que você sabe disso?”

“Eu tenho olhos. E também, alguém postou fotos.”

A Zoe olhou para mim. “Você tá bem aí atrás? Tá quieta.”

“Só cansada”, eu disse no automático.

O The Burger Joint estava cheio, mas não insuportável. Toalhas xadrez vermelhas e brancas, letreiros de neon, paredes cobertas de pôsteres vintage de filmes. O cheiro de carne grelhada e cebola frita me atingiu no segundo em que entramos.

A recepcionista nos levou a uma mesa de canto perto da cozinha. Eu imediatamente peguei o lugar de costas para a entrada — um hábito que eu tinha desenvolvido nos últimos dias. Se eu não visse a porta, eu não ficava obcecada vigiando.

A Brook pediu um cheeseburger duplo com bacon. A Zoe pegou o clássico com batatas fritas. A Maya foi de frango grelhado e uma Coca Diet.

“Sadie?”, a garçonete chamou.

“O mesmo que a Zoe.”

Eu não estava com fome. Não tinha estado com fome havia dias. Mas, se eu não pedisse nada, as meninas iam se preocupar, e eu não aguentava mais olhares preocupados.

O restaurante era barulhento — rock clássico tocando nas caixas, o chiado da chapa, gente rindo e conversando. Era para distrair. Era para ajudar.

Em vez disso, eu só me sentia entorpecida.

“Então”, disse a Brook, inclinando-se para a frente, conspiratória. “Quando seus pais voltam?”

Meus dedos se apertaram em volta do copo d’água. “Pelo menos mais um mês. O Richard tem negócios em Londres, depois eles vão para Paris e Roma.”

“Deve ser estranho”, disse a Zoe, com cuidado. “Ficar sozinha por tanto tempo.”

“Eu tô acostumada.” A mentira já vinha fácil agora. “E eu tenho vocês.”

“E o seu meio-irmão?”, perguntou a Maya. “Liam, né? Ele não te convidou pra ficar com ele?”

Meu estômago despencou.

“Ele mencionou”, eu disse com cautela. “Mas a gente mal se conhece. Seria estranho.”

Mesmo eu tendo virado, tecnicamente, enteada de um bilionário, eu sabia que nunca pertenceria de verdade ao mundo polido e cintilante deles.

“Ele não é amigo do Jake Montgomery?”, os olhos da Brook brilharam. “Eu vi os dois juntos no estacionamento ontem. Eles estavam—”

“Dá pra não?” As palavras saíram mais afiadas do que eu pretendia.

Três pares de olhos se fixaram em mim.

Eu forcei uma respiração. “Desculpa. Eu só… não me importo muito com o círculo social do Jake Montgomery.”

A Maya empurrou os óculos para cima, me estudando com aquele olhar analítico que ela tinha às vezes. Como se estivesse resolvendo uma equação e eu fosse a variável que não batia.

A garçonete chegou com a nossa comida antes que alguém pudesse insistir mais.

Fiquei cutucando minhas batatas fritas, empurrando-as pelo prato sem realmente comer. O hambúrguer permaneceu intocado. Minha garganta estava apertada demais para comida.

Do outro lado da mesa, Brook estava no meio de uma frase sobre o treino de futebol de amanhã quando parou de repente.

Os olhos dela se arregalaram.

— Meu Deus.

Maya seguiu a direção do olhar dela.

— Você só pode estar brincando.

— Sadie — Zoe disse baixinho. — Não vira.

Meu corpo inteiro enrijeceu.

— Jake Montgomery acabou de entrar — Brook sussurrou. — Com a turma toda dele.

Não.

Não, não, não, não, não.

Isso não podia estar acontecendo. Não aqui. Não agora. Eu tinha sido tão cuidadosa.

— O lugar está lotado — Maya observou. — Eles estão procurando mesa.

Meu coração parecia estar tentando atravessar minha caixa torácica. Mantive os olhos fixos no meu prato, desejando me tornar invisível. Se eu não me mexesse, não olhasse, talvez—

— Ei! Aquela não é a minha irmã?

A voz de Liam cortou o barulho do restaurante como um holofote.

Fechei os olhos. Puxei um ar que não fez absolutamente nada para me acalmar.

Então me virei.

Liam estava sorrindo como se tivesse acabado de ganhar na loteria, abrindo caminho entre as mesas na nossa direção. Vestia a camisa de treino dos Lions, com o cabelo úmido de suor, irradiando aquela energia de golden retriever que tornava impossível ficar brava com ele.

Atrás dele, vinham mais três caras.

Cole ajeitou os óculos, com uma expressão calma e natural. — Oi, gente. Eu sou o irmão mais velho da Zoe — apresentou-se com naturalidade, arrancando um sorriso rápido de Zoe quando os olhares dos dois se encontraram do outro lado do salão.

Tyler, forte como um tanque, parecia levemente divertido.

E Jake.

Jake, de moletom azul-marinho e jeans escuros, mãos nos bolsos, os olhos azul-claros percorrendo a nossa mesa com um desinteresse educado.

Até pousarem em mim.

Algo tremeluziu na expressão dele. Rápido demais para eu identificar. Então sumiu.

— Sadie! — Liam chegou à nossa mesa, ainda radiante. — Caramba, qual a chance? Vocês também fugiram do refeitório?

Minha boca estava seca demais para formar palavras. Consegui apenas assentir.

— Isso é perfeito. — Liam se virou para apontar para os amigos. — Gente, esta é minha meia-irmã, Sadie Brooks. Meu pai se casou com a mãe dela há dois meses, então agora eu basicamente tenho uma irmãzinha. — A voz dele era calorosa, sincera. — Ela é incrível. Superinteligente, bem quietinha, mas, tipo, de um jeito legal.

Eu queria morrer.

— Sadie — Liam continuou, alheio ao meu colapso interno —, estes são os meus caras. Jake, Cole e Tyler. A gente é amigo desde o ensino fundamental.

Jake estava a talvez uns dois metros de distância.

Perto o bastante para eu ver o jeito como o moletom caía sobre os ombros dele. A corrente prateada no pescoço. As leves sombras sob os olhos, que o faziam parecer cansado e, de algum jeito, ainda mais injustamente atraente.

Perto o bastante para que, quando ele olhou para mim, realmente olhou, eu sentisse aquilo como um toque físico.

— Oi — consegui dizer. Minha voz saiu pouco acima de um sussurro.

A expressão de Jake permaneceu perfeitamente neutra. Educada. Exatamente a cara que se faz para uma estranha.

— Liam falou de você — ele disse. Quatro palavras. Baixas. Suaves. A mesma voz que um dia sussurrara meu nome contra a minha boca sob a chuva.

Então ele fez a única coisa para a qual eu não estava pronta.

Tirou a mão direita do bolso e a estendeu para mim.

— Jake Montgomery. Já que você é irmã do Liam... acho que isso faz de você quase da família.

Fiquei encarando a mão dele.

Dedos longos. Unhas limpas. Uma pulseira de couro no pulso. A mesma mão que segurara meu rosto na chuva. Que se enfiara no meu cabelo. Que segurara a minha enquanto nos sentávamos no capô do carro dele e conversávamos até o amanhecer.

Brook me chutou por baixo da mesa.

Forcei-me a me mexer. Forcei minha mão a se estender e pegar a dele.

No segundo em que nossa pele se tocou, algo elétrico percorreu meu braço.

A mão dele estava quente. A minha estava gelada, como sempre.

O aperto dele se intensificou — só por um segundo, o suficiente para eu sentir o calo na palma da mão — e os olhos dele se estreitaram uma fração.

Como se alguma coisa estivesse tentando vir à tona e ele a estivesse forçando de volta para o fundo.

Então o momento se quebrou.

— Prazer em conhecer você — ele disse.

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