Capítulo 1

Ponto de vista de Sheryl

Minha tranquilidade noturna foi estilhaçada pelo toque estridente do celular. A voz de Amy Grant veio do outro lado, trêmula.

— Senhorita Ross... por favor, me ajude... eu tô no banheiro do Velvet Club...

— Amy? O que está acontecendo? — Meus dedos se apertaram em torno do aparelho, e o medo se acumulou no meu estômago.

— Eles estão me forçando a beber... dizendo que, se eu não colaborar, vão cancelar o acordo... — As palavras dela se desfizeram em soluços abafados.

Desliguei e agarrei as chaves do carro, conferindo o relógio — 21h25. Droga. Eu devia ter desconfiado que aqueles supostos “clientes” não estavam interessados em negócios. Amy era minha assistente mais competente; essa negociação deveria ser simples.

Vinte minutos depois, eu estacionava diante do Velvet Club. O clube tinha fama no distrito portuário de Boston — sua decoração luxuosa mal conseguia esconder as negociatas imundas feitas em salas privadas. Meus saltos ecoaram secos no mármore enquanto eu avançava rumo à área VIP.

Pela porta entreaberta, peguei um vislumbre da cena lá dentro. Amy estava acuada num sofá de couro por cinco homens de terno. A maquiagem dela estava borrada, o cabelo, desgrenhado, e o drinque em sua mão parecia perigosamente perto de derramar.

— Vamos lá, querida. Um pequeno sacrifício por um contrato de um milhão de dólares... parece uma troca justa pra mim! — Um homem calvo esticou a mão para o rosto dela, com palavras pingando insinuações nojentas.

— Assim que você assinar esse contrato, vai entreter a gente a noite inteira. Senão... — Outro homem girou o copo, encarando-a com cobiça.

Amy parecia um animal encurralado, tentando se encolher para longe dos avanços deles. Eu me lembrei de como ela tinha se arrumado com cuidado de manhã, empolgada com a ideia de fechar essa conta. A raiva atravessou meu corpo, quente e visceral.

Respirei fundo e chutei a porta, escancarando-a. Ela bateu na parede com um estrondo satisfatório, e todas as cabeças na sala se viraram para mim.

— Senhorita Ross! — Os olhos de Amy se encheram de alívio.

— Pelo visto, estou interrompendo o “entretenimento” de vocês — eu disse, com a voz glacial. — Amy, venha aqui.

O careca assobiou, me examinando de cima a baixo.

— Ora, ora, mais uma beleza entra na festa. Noite de sorte pra gente.

Encostei o olhar naquele grupo bêbado, fria.

— Quem exatamente vocês representam? Vocês têm alguma ideia de quem eu sou?

— Claro que temos. Diretora da Glamour Realm, a princesinha da família Ross. — O careca deu um sorriso torto ao se levantar, cambaleante. — Sou James Peterson, diretor de marketing da Luxe Gems. O acordo de hoje acontece nos nossos termos: ou a Amy entretém a gente, ou não tem acordo. — Ele veio na minha direção, oscilando. — Embora a gente aceite você como substituta com prazer, senhorita Ross.

Eu ri, sem humor.

— Luxe Gems? Uma das subsidiárias da Hayes Enterprise?

— Exatamente. Então é melhor colaborar. O Grupo Hayes não é alguém que você possa se dar ao luxo de enfrentar. — Peterson exibiu um ar convencido. — Aqui está sua escolha: ou você e sua assistentinha dão pra gente uma noite bem divertida, ou a Glamour Realm perde seu maior fornecedor.

Antes que ele terminasse, minha palma acertou o rosto dele num tapa estalado. O som cortou a sala, deixando uma marca vermelha nítida de mão na bochecha dele.

A sala ficou em silêncio.

— V-você... você me bateu? — James levou a mão ao rosto, me encarando, incrédulo.

— Deixa eu te oferecer uma alternativa — eu disse, com uma calma mortal. — Ou vocês vão embora agora mesmo, ou eu quebro o nariz de cada um de vocês. A escolha é de vocês.

— Vadia! Peguem ela! Ensinem uma lição! — James gritou para os companheiros.

Eles vieram cambaleando na minha direção, com os movimentos desajeitados por causa do álcool. Saí de lado do primeiro agressor, fincando meu salto agulha no joelho dele. O uivo de dor foi interrompido quando peguei uma garrafa da mesa e a esmaguei na cabeça de outro homem. O terceiro recebeu uma cotovelada na garganta, tropeçando para trás, agarrado ao pescoço.

Eu já tinha lidado com a minha cota de tarados. Não era nenhuma especialista em artes marciais, mas depois de ficar por conta própria desde os quinze anos — quando continuar na mansão dos Ross se tornou insuportável —, fiz questão de aprender a me proteger. Dez anos vivendo de forma independente não tinham sido em vão. Eu tinha aprendido o que precisava para sobreviver.

O quarto homem agarrou meu braço com força, doendo, mas eu reagi com uma cabeçada no queixo dele. Ele me soltou, cambaleando para trás.

Antes que eu recuperasse o equilíbrio, James me empurrou por trás. Perdi a estabilidade, o joelho batendo na quina da mesa de centro. Uma fisgada de dor subiu pela minha perna quando ele agarrou um punhado do meu cabelo.

— Acha que é alguém especial? Hoje à noite eu vou...

Eu enfiei o joelho entre as pernas dele. A ameaça terminou num gemido agudo quando ele se dobrou. Me soltei, desferindo um chute giratório no peito que o arremessou contra o sofá.

O cômodo virou um caos — cinco homens deitados ou sentados, gemendo de dor. Eu ajeitei a roupa, ignorando a pulsação no joelho e mantendo a postura.

— Fiquem à vontade para entrar em contato com a equipe jurídica da família Ross se quiserem prestar queixa. — Meu tom escorria sarcasmo.

James lutou para se sentar.

— Você vai se arrepender disso... O sr. Hayes vai...

A porta se escancarou de novo. Uma figura alta ficou recortada no vão, e a presença dele dominou o ambiente na hora. Quando entrou, a luz revelou o cabelo escuro perfeitamente aparado, os traços marcantes e aqueles olhos castanho-escuros perturbadores — o próprio Rhett Hayes.

Meu coração falhou uma batida. Que diabos ele estava fazendo ali?

Então meu olhar se desviou para a mulher esperando do lado de fora. Vanessa Clark. Ótimo, era só o que me faltava — provavelmente tinha vindo para o encontrinho deles.

— Sr. Hayes! — James tentou se levantar, o pânico tomando conta do rosto. — Essa mulher maluca atacou a gente! Ela...

— Cale a boca. — Só duas palavras, mas James se calou na mesma hora.

O olhar de Rhett se voltou para mim, indecifrável. Então ele agarrou meu braço e me arrastou para fora do cômodo. A mulher deu alguns passos à frente.

— Sr. Hayes — ela chamou, mas, ao ver que ele não a reconheceu nem por um segundo, parou onde estava, sem nos seguir.

Quando chegamos ao elevador, eu forcei uma parada, e ele se virou para mim.

— Que porra é essa?

— Me solta — protestei. — Eu preciso cuidar da Amy.

A mão dele apertou meu ombro com firmeza.

— Isto não é um pedido.

Senti o calor da palma através da minha blusa, provocando uma sensação estranha pelo meu corpo. Antes que eu pudesse processar, ele já estava me conduzindo ao elevador. Eu me desvencilhei, parei uma garçonete que passava e pedi que ela cuidasse da Amy, enfiando algum dinheiro na mão dela.

Resolvido isso, Rhett me segurou de novo, praticamente me arrastando para dentro e me encurralando num canto do elevador.

— Impressionante.

Então ele prendeu meus pulsos acima da minha cabeça, o corpo pressionando o meu enquanto se inclinava até o meu ouvido, o hálito quente roçando a minha pele.

— A noite passada não foi suficiente pra te deixar exausta, foi?

Meu pulso disparou. Maldito.

Ele soltou uma risada fria e, quando o elevador apitou no último andar, me puxou para dentro da suíte dele.

Próximo Capítulo