Capítulo 11

Ponto de vista de Sheryl

Espreguicei-me preguiçosamente enquanto a luz da manhã atravessava as janelas. Minha mão foi instintivamente para o lado da cama onde Rhett costumava estar, encontrando apenas lençóis frios. Ele já tinha ido embora.

Isso vinha virando um padrão ultimamente — acordar sozinha, me perguntando para onde ele tinha sumido.

Envolvendo-me num robe de seda, desci descalça até encontrar Martha se movimentando pela cozinha. Ela ergueu o olhar quando entrei, e seu rosto imediatamente assumiu aquele sorriso acolhedor.

— Bom dia, senhora Hayes. O café da manhã estará pronto em instantes.

Vasculhei a sala de jantar com os olhos, notando a ausência de Rhett.

— Que horas o Rhett saiu?

Martha assentiu, colocando uma xícara de café fumegante sobre a mesa.

— O senhor Hayes saiu bem cedo, senhora. Não tomou café da manhã.

— Ele que morra de fome, por mim — resmunguei e, então, perguntei com aparente casualidade: — Ele comentou para onde estava indo?

— Não, senhora. Só disse que tinha negócios no centro.

Peguei o celular e digitei uma mensagem para Rhett: [Vai para o inferno que você quiser, mas é BOM você aparecer até as 16h e ir comigo à mansão dos Ross. Se não, eu vou quebrar sua preciosa coleção de carros com um taco de beisebol.]

Apertei enviar, imaginando a cara dele ao ler. Por mais que bancasse o durão, Rhett tratava aqueles carros como se fossem filhos.

Depois do café da manhã, me recolhi ao escritório, pensando em esquemas de design para o novo projeto. Aí, de repente, lembrei que, ontem à noite, no meu acesso de raiva, eu tinha esquecido de perguntar por que ele de repente queria trabalhar com a Glamour Realm.

De vez em quando, minha mente vagava para o jantar que teria na casa do meu pai. Robert faria aquele teatrinho de preocupação, e Christine e a filha dela, sem dúvida, encontrariam novas maneiras de me embrulhar o estômago.

Por volta das duas da tarde, depois de um breve descanso, lembrei de Timothy — meu adorável meio-irmãozinho tinha implorado por brinquedos novos na última vez que eu o vi. Apesar da tensão constante com a minha madrasta, eu não conseguia deixar de adorar Timothy. Ele era a única coisa pura na casa dos Ross.

Chamei um carro e fui ao shopping, mandando mensagem para Rhett me buscar às quatro.

Na seção de brinquedos, escolhi com cuidado um robô que se transformava e um conjunto elaborado de blocos de montar. Timothy ia amar os dois. Paguei a mais para embrulhar para presente, imaginando o rosto dele, empolgado, ao abrir.

Quando terminei, já era quase quatro horas. Fui até a entrada do shopping, sacolas nas mãos, para esperar Rhett.

Uma floricultura pequena perto da entrada chamou minha atenção. Enquanto eu aguardava, um estranho bem-vestido se aproximou, segurando um pequeno buquê de rosas cor-de-rosa.

— Para uma mulher bonita — disse ele, com um sorriso ensaiado. — Você me daria a honra de aceitar?

Forcei um sorriso constrangido.

— Obrigada, mas eu sou casada.

Ele insistiu:

— É apenas uma apreciação da beleza. Por favor, não recuse.

Antes que eu pudesse protestar de novo, ele enfiou as flores na minha mão e se afastou depressa.

Nesse instante, um Porsche preto e elegante encostou na calçada. Os vidros eram escuros, mas reconheci na hora o carro de Rhett. Juntei minhas sacolas e as flores indesejadas e fui na direção do veículo.

Tentei abrir a porta do passageiro, mas estava trancada. Dei leves batidas no vidro com os dedos, mas não obtive resposta. O que ele estava fazendo? Quando eu já ia me virar e ir embora, o vidro desceu, revelando a expressão tempestuosa de Rhett.

Ele se inclinou por cima do banco do passageiro e arrancou as flores da minha mão, arremessando-as no chão com tanta força que as pétalas se espalharam pela calçada.

— Que porra é essa? — perguntei, genuinamente chocada com aquela demonstração infantil.

— Sheryl, você é barata pra caralho — ele rosnou, a voz perigosamente baixa. — Umas flores de merda e você já fica toda sorridente e coradinha?

— Você é cega? A gente tem flores melhores em casa — continuou, com a mandíbula travada. — E se alguém tivesse colocado um escuta ou uma bomba aí dentro? Você ia aceitar toda feliz?

Fitei-o por um instante, até a compreensão cair. Meus lábios se curvaram num sorriso provocador.

— Rhett, você está com ciúme porque outro homem me deu flores?

Os olhos dele se estreitaram em fendas.

— Não se ache.

— Tá sim! — eu ri. — O grande Rhett Hayes com ciúme de um cara qualquer e das rosas baratinhas dele.

Vendo a expressão dele escurecer ainda mais, não resisti e cutuquei de novo. Meti dramaticamente uma mecha de cabelo atrás da orelha e suspirei, teatral.

— Ai, Deus, é tão cansativo ter homens me dando flores todos os dias.

Os olhos dele faiscaram, perigosos. No segundo seguinte, o motor rugiu e o Porsche disparou da guia, me deixando numa nuvem de fumaça.

Em pé na calçada movimentada, vi o carro dele sumir no trânsito, me sentindo ao mesmo tempo irritada e divertida. O Rhett Hayes estava mesmo com ciúme? O homem que dizia que nosso casamento não passava de um acordo comercial?

Quando estendi a mão para pegar o celular e chamar um motorista, ouvi o ronco familiar do motor se aproximando. O Porsche cantou pneu ao parar bem na minha frente, fazendo vários pedestres recuarem num pulo.

Rhett chutou a porta do passageiro, abrindo-a.

— Entra — ordenou, com uma expressão tempestuosa.

Eu não me mexi, firme no lugar.

— Sheryl — ele avisou, a voz descendo um tom. — Entra. Agora.

Vendo a raiva genuína nos olhos dele, decidi não abusar mais da sorte. Entrei no banco do passageiro sem dizer mais nada.

Assim que me acomodei, a presença fria dele me envolveu. O carro cheirava ao perfume dele e a couro, uma combinação que eu passara a associar tanto a conforto quanto a perigo.

Ficamos em silêncio tenso por um momento, o ar entre nós eletrizado.

— Sheryl, você tem desejo de morrer? — ele perguntou por fim, a voz mal acima de um sussurro.

Sustentei o olhar dele sem vacilar, ainda incapaz de resistir a uma última alfinetada.

— Qual é o problema? Ciúme, Hayes?

Antes que eu terminasse, ele avançou, me prendendo contra o banco. Uma mão se apoiou no encosto de cabeça atrás de mim; a outra segurou meu queixo com firmeza. O rosto dele ficou a centímetros do meu, a respiração quente batendo nos meus lábios.

— Rhe— mmph...

Minhas palavras morreram quando a boca dele se chocou contra a minha, dominante e possessiva. Não havia nada de gentil naquele beijo — era uma reivindicação, um castigo, um aviso. Os dedos dele se enfiaram no meu cabelo, me mantendo no lugar enquanto aprofundava o beijo.

Quando finalmente se afastou, nós dois estávamos ofegantes. Os olhos dele tinham deixado a raiva e escurecido para outra coisa completamente diferente.

— Nunca mais aceite flores de outro homem — ele disse, a voz áspera.

Não consegui evitar o sorrisinho que surgiu nos meus lábios.

— Ou o quê?

Um sorriso perigoso brincou no canto da boca dele.

— Ou eu vou garantir que você não consiga sair andando deste carro… muito menos ir a qualquer floricultura.

Capítulo Anterior
Próximo Capítulo