Capítulo 2

Ponto de vista de Sheryl

Caí com força no colchão macio; o impacto ainda assim lançou uma fisgada de dor pelos meus ombros e pelo joelho machucado, apesar da roupa de cama fofa. Rhett se ergueu sobre mim, a figura imponente quase bloqueando a luz do quarto, deixando o rosto dele envolto em sombra.

— Que diabos você estava pensando? Enfrentar cinco homens sozinha? — a voz dele saiu perigosamente baixa. — Nunca ouviu falar em levar seguranças?

Então pareceu congelar de repente, o olhar descendo para o meu joelho.

Puxei o vestido, lutando para parecer composta, embora eu soubesse que ele conseguia perceber meu tremor. Eu nunca deixaria que ele soubesse como a simples proximidade dele acelerava meu coração.

— Ora, ora. Rhett Hayes está mesmo preocupado comigo? — mantive o tom leve e sarcástico.

Ele soltou uma risada fria, os lábios se torcendo num sorriso cruel.

— Não se ache, Sheryl. Eu só estou preocupado que você me faça passar vergonha se alguém te der uma surra.

As palavras dele me cortaram. Forcei-me a manter a fachada gelada, embora eu suspeitasse que meus olhos me traíssem. Dois anos de casamento tinham erguido um muro impenetrável entre nós, com palavras como armas escolhidas.

— Não se preocupe com a reputação da família Hayes — disse, com a voz sem qualquer calor. — Você já destruiu o pouco de bom nome que ainda tinha, não é?

Algo tremulou nos olhos dele. Durante nossos dois anos de casamento, ele exibira casos e criara escândalos, enquanto eu ficava limpando a bagunça dele para preservar a imagem da família.

— Já que estamos falando disso — continuei, trazendo de propósito o que eu tinha visto mais cedo —, a Vanessa parece bem especial para você. Ela te segue para todo lado, não segue?

O ar ficou pesado de repente. A expressão de Rhett endureceu quando ele deu um passo à frente, apoiando as mãos de cada lado de mim, me aprisionando na presença dele.

— Escute bem, Sheryl. A Vanessa não é da sua conta.

— Como não é?! — quase gritei. — Ela é a sua queridinha, não é? É assim que toda a alta sociedade de Boston chama ela.

— Sheryl... — ele estreitou os olhos, a expressão mudando para um flerte cheio de desprezo. — Já que você tem tanto tempo livre pra se importar com isso, talvez devesse passar esse tempo comigo, em vez disso.

— Vai pro inferno! Vai atrás da sua amante! — rosnei, tentando empurrá-lo, mas sem força.

Os olhos dele se fixaram na minha boca e, de repente, ele esmagou os lábios nos meus. Eu resisti ao beijo, minhas mãos batendo no peito dele, mas ele capturou meus pulsos com facilidade, o corpo pressionando o meu contra o colchão. Desesperada, eu mordi o lábio inferior dele — com força.

Ele se afastou num sobressalto, soltando um sibilo de dor.

— Jesus Cristo, Sheryl! Você é o quê, um cachorro com raiva?

Encarei o lábio dele, levemente sangrando, e soltei uma risada amarga.

— Encosta em mim de novo e eu faço pior do que morder. Você não precisa me amar, mas precisa, sim, me respeitar. Você achou mesmo que podia pular da cama dela pra minha? Some da minha frente!

Ele me soltou, os olhos retomando aquele distanciamento familiar.

Ao olhar para aqueles olhos, senti um cansaço profundo e uma tristeza me inundarem. Afinal, o quanto a Vanessa era importante para ele? A pergunta pesava no meu coração como uma pedra.

Rhett se virou para a janela, de costas para mim, os ombros tensos.

Ele já tivera outras mulheres antes, mas essas eram fáceis de tirar da vida dele. Vanessa, porém, era diferente — persistente, sempre presente. Ele a protegia deliberadamente, e isso a tornava impossível de eliminar. Essa constatação partiu meu coração mais do que qualquer coisa.

Rhett permaneceu em silêncio. Eu me levantei, ajeitei a roupa e caminhei até a porta com toda a dignidade que consegui reunir.

—Estou cansada. Vou embora —eu disse, sem rodeios. —Se você não voltar até as onze, nem se dê ao trabalho de aparecer em casa.

Ao sair da sala, atravessei o saguão opulento do The Velvet Club e encontrei Amy esperando, ansiosa, junto à coluna de mármore perto da entrada.

Ela veio depressa na minha direção, a preocupação estampada no rosto. —Senhora Ross, a senhora está bem?

—Por que você ainda está aqui? —perguntei, surpresa ao vê-la.

—Eu fiquei preocupada com a senhora —ela respondeu, mexendo nervosamente na alça da bolsa. —Então pedi à garçonete para me deixar esperar aqui no saguão.

Amy olhou ao redor, tensa, antes de continuar: —Eu ouvi dizer que foi o herdeiro dos Hayes que levou a senhora. Todo mundo diz que ele tem um temperamento terrível. Ele... machucou a senhora?

Pensei no distanciamento frio nos olhos dele e soltei uma risada amarga. —Eu estou bem. Vou chamar um carro para você. Você já fez o suficiente por hoje.

—E a colaboração? —ela perguntou, aflita. —A gente... perdeu?

—Sinceramente, Amy, é melhor para nós ficarmos sem esse tipo de parceria.

A expressão preocupada dela se aprofundou. —Mas o senhor Donovan vai querer resultados. Ele já está falando da publicidade de trabalhar com a Luxe Gems.

Suspirei, massageando a têmpora, onde uma dor de cabeça começava a se formar. Pelas janelas imponentes, vi um táxi amarelo encostando na guia.

—Sua carona chegou —eu disse, conduzindo-a com delicadeza em direção à saída. —Amanhã a gente resolve o Donovan. Vai para casa e descansa.

Observei Amy entrar no táxi, sentindo uma pontada de culpa por tê-la arrastado para isso. Quando o carro se afastou, fiquei parada perto da entrada, relutante em voltar para uma mansão vazia. Foi então que eu ouvi—vozes urgentes e passos apressados.

Técnicos de emergência estavam colocando alguém numa maca: um homem num terno caro, agora manchado de sangue. O rosto dele mal era reconhecível sob o inchaço e os hematomas, mas havia algo familiar nele.

Antes que eu conseguisse identificar quem era, Mark surgiu ao meu lado, um dos seguranças mais confiáveis de Rhett.

—Senhora Hayes —disse ele, com profissionalismo. —O chefe me pediu para garantir que a senhora chegue em casa em segurança.

Olhei de novo para o homem ferido, sendo colocado numa ambulância. —O que aconteceu com ele?

A expressão de Mark permaneceu impassível. —Alguns convidados não entendem as regras do clube. A situação já foi resolvida.

Um arrepio desceu pela minha espinha quando reconheci a vítima—James Peterson, o diretor de marketing da Luxe Gems.

Quem tinha feito aquilo com ele? A segurança do clube poderia ter contido o sujeito, mas não teria ido tão longe. Tinha sido Rhett? Ha, claro. Ele podia não se importar comigo, pessoalmente, mas com certeza protegeria a reputação da esposa a qualquer custo. Belo exemplo de dois pesos e duas medidas.

—Eu posso dirigir —eu disse, sabendo que não adiantaria.

—O senhor Hayes insiste —Mark respondeu, já abrindo a porta do sedã executivo que aguardava.


Quando empurrei a porta da nossa propriedade, o cansaço pesou nos meus ombros como um casaco de inverno. A noite tinha se assentado de vez sobre Boston, combinando com o meu humor. O que eu não esperava era encontrar um homem de meia-idade, num terno impecável, parado na nossa sala, com uma maleta médica na mão.

—Senhora Hayes —ele me cumprimentou, com um profissionalismo ensaiado. —Sou o doutor Thompson. O senhor Hayes me instruiu a examinar o seu joelho.

Olhei para baixo, reparando no ferimento. O sangue já havia secado nas bordas.

—Não vai ser necessário. Eu mesma cuido disso. —Minha tentativa de dispensá-lo soou vazia até para mim.

O doutor Thompson não se abalou. —O senhor Hayes foi bem insistente, senhora. Ele mencionou especificamente que a senhora tem o hábito de negligenciar o próprio bem-estar.

Claro que mencionou. Mesmo quando tentava ser atencioso, Rhett conseguia ser insuportavelmente controlador.

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