Capítulo 3

Ponto de vista de Sheryl

— Tanto faz. — Fiz um gesto de desdém, afundando no sofá. — Seja rápido.

O médico trabalhou com eficiência, limpando e fazendo o curativo. Fiz uma careta quando o antisséptico ardeu, mas me recusei a soltar qualquer som.

— É só um ferimento superficial, nada grave — ele me informou, guardando os materiais. — Mantenha limpo, passe esta pomada todos os dias e evite molhar nas próximas quarenta e oito horas.

Depois de acompanhá-lo até a porta, fiquei sozinha na nossa sala de estar cavernosa. O silêncio parecia me esmagar por todos os lados.

— Um machucadinho desses e ele manda um médico. Ele acha que isso vai me impressionar? Que vou esquecer o idiota que ele é? — resmunguei para a casa vazia. Ainda assim, apesar da irritação, um calorzinho indesejado tremeluzia no meu peito. Eu o apaguei depressa.

Depois de um banho — tomando cuidado para manter o joelho enfaixado bem seco —, conferi a hora. Meia-noite. Nenhum sinal de Rhett.

— Desgraçado... — sibilei, puxando o cobertor para cima.

No escuro, o rosto pálido de Kenneth Hayes se materializou na minha memória. Cinco anos atrás. Nosso único encontro. Os últimos dias dele. Aqueles olhos — tão parecidos com os de Rhett — presos nos meus com uma intensidade inesperada para um homem à beira da morte.

— Sheryl — ele tinha dito, a voz pouco acima de um sussurro —, espero que você se case com o Rhett... dê a ele a família completa de que ele precisa. Ele é muito mais frágil do que parece.

Eu tinha concordado. Não só por ser o pedido de um homem morrendo, mas porque, desde o primeiro instante em que vi Rhett Hayes, alguma coisa elétrica tinha me atravessado. Amor à primeira vista — um clichê que eu nunca admitiria para ninguém, muito menos para o próprio Rhett.

— Eu posso ter me apaixonado por ele — virei de lado, socando o travesseiro até ele ceder —, mas isso não me impede de querer estrangular aquele homem metade do tempo. Cada dia ao lado daquele cafajeste infiel parecia uma punição pelos meus sentimentos.

O toque estridente do meu celular cortou meus pensamentos sombrios. O nome de Daniel Quinn piscou na tela. O assistente pessoal de Rhett nunca ligava tão tarde, a menos que algo estivesse errado — e esse “algo” invariavelmente era mais um escândalo precisando de controle de danos.

— O que foi, Daniel? — atendi, já temendo a resposta.

— Sra. Hayes, peço desculpas por incomodá-la a essa hora — a voz dele trazia a tensão de quem entrega uma notícia ruim —, mas acho que a senhora vai querer ver as últimas atualizações nas redes sociais.

Franzindo a testa, peguei meu tablet e abri os assuntos do momento. Meu estômago despencou. Ali, com uma nitidez digital gritante, estava Rhett com Vanessa, os corpos inclinados um para o outro numa proximidade que só podia ser descrita como íntima. A manchete estourava: #CEO da Hayes Enterprise em encontro noturno com uma mulher: casamento em crise?

— Aquele filho da puta! — Quase arremessei o tablet do outro lado do quarto.

— Eles estão no Silver Lane Bowling Club — Daniel continuou, cauteloso. — Se isso não for resolvido rápido, os jornais de amanhã vão ser... problemáticos. Eu não tenho como intervir diretamente com o sr. Hayes, então...

— Eu entendi — interrompi, fria. — Me mande o endereço.

Desliguei, a fúria me arrancando da cama. Vesti um vestido branco sereia, nem me dei ao trabalho de passar maquiagem, e peguei as chaves do carro. Na garagem, ignorei a coleção de veículos de luxo de Rhett e escolhi meu Porsche prateado. O motor rugiu, traduzindo perfeitamente a minha raiva.

Vinte minutos depois, empurrei as portas do Silver Lane e fui imediatamente atacada pelo cheiro de cigarro e pela pancada de uma música carregada de grave.

A iluminação fraca não escondia o que eu procurava — Rhett, num reservado no canto, os traços aristocráticos e o terno impecavelmente ajustado exalando uma elegância sem esforço mesmo naquele ambiente sórdido. As linhas perfeitas do maxilar forte e dos ombros largos só eram maculadas por Vanessa, praticamente grudada nele, a presença espalhafatosa dela chocando com a aura refinada dele como bijuteria ao lado de um diamante perfeito.

Joel West, o confidente de Rhett, foi o primeiro a me ver, cutucando Rhett e assentindo na minha direção. Rhett se virou; aqueles olhos escuros, completamente indecifráveis, encontraram os meus.

— O que você está fazendo aqui? — A voz dele carregava o frio de um inverno em Boston.

Respirei fundo, forcei o rosto a vestir uma máscara agradável e me aproximei.

— Está tarde. Fiquei preocupada, então achei que devia vir te buscar de carro e te levar para casa.

Senti um par de olhos pousado em mim algumas mesas adiante — um sujeito de terno, com um olhar predatório me despindo como se eu fosse o prato especial da noite.

Rhett percebeu na mesma hora. O maxilar dele se contraiu antes de ele se voltar para o homem.

— Olha para outro lugar antes que você perca os seus olhos. — A ameaça baixa na voz dele atravessou a distância com perfeição.

De repente, o homem achou o uísque dele a coisa mais fascinante do mundo.

Rhett voltou a atenção para mim, a irritação evidente.

— Quem mandou você me caçar? O Daniel?

— Os tabloides já estão rodando com o seu mais novo escândalo — retruquei, mantendo a voz firme. — Nossas ações abrem em sete horas. Faz as contas.

Um sorriso sem humor cruzou o rosto dele.

— Comovente preocupação. Com a Hayes Enterprise ou com o Ross Group?

— Agora não são essencialmente a mesma coisa? — respondi, com um sorriso discreto.

Fui até a pista, peguei uma bola e a lancei em direção aos pinos. Oito caíram com um estrondo satisfatório. Peguei outra bola para o spare, derrubando os dois pinos restantes com precisão.

— Pronto. Jogo encerrado. Hora de ir para casa. — Virei-me para encará-los, esfregando as mãos com uma sensação deliberada de ponto final.

— Tão ansiosa para me levar para casa? Não consegue dormir sem mim? — Rhett recostou na cadeira, aquele sorrisinho debochado de sempre brincando nos lábios.

— Claro. Nós somos casados, não somos? Dormir sozinha não seria diferente de ser viúva. — Mantive a expressão perfeitamente neutra, embora meus olhos não saíssem dos dele.

O sorrisinho dele vacilou um pouco.

— Cristo, essa sua boca é uma lâmina envenenada.

— Queria que fosse mesmo capaz de te cortar. — As palavras saíram mais afiadas do que eu pretendia, e vi os olhos de Vanessa se arregalarem, genuinamente surpresa com o veneno na minha voz.

— Ah, Sheryl — Vanessa se intrometeu, com uma doçura enjoativa. — Isso é completamente inocente. A gente só decidiu colocar o papo em dia numa partida amigável. Nada além disso.

A sinceridade calculada dela me embrulhou o estômago.

Deslizei meu celular pela mesa, a tela exibindo a foto comprometedora — Vanessa praticamente jogada em cima de Rhett, numa pose que ninguém em sã consciência chamaria de platônica. Toquei na imagem de propósito.

— É isso que você chama de “amigável”? — eu disse, mudando o olhar para Vanessa. — Que criatividade. Então você se pendura em todos os seus amigos homens assim?

A compostura perfeita de Vanessa falhou por um segundo.

— Sheryl, você entendeu errado. Afinal… — ela ronronou, lançando a Rhett um sorriso ensaiado que não chegava aos olhos —, se houvesse alguma coisa entre nós, por que esperaríamos? Nós nos conhecemos desde sempre, não é, Rhett?

A expressão de Rhett escureceu.

— Cristo, Vanessa. Você nunca cala a boca?

A dureza da resposta dele a assustou visivelmente. Qualquer réplica esperta que ela tivesse preparado morreu quando ela percebeu a irritação genuína dele.

Não consegui conter um sorriso frio.

— Eu vejo mulheres jogando esse seu joguinho desde o colégio interno, Vanessa. Se você quer ele tanto assim, convence ele a se divorciar de mim e casar com você direito. Até lá… — inclinei-me mais, baixando a voz — …fica na sua.

Eu estava além de exausta desses dramas fabricados que exigiam contenção de danos semana sim, semana também.

— Só não se esqueça — acrescentei, com uma calma deliberada —: o sobrenome Hayes não é uma fantasia que qualquer um veste.

Os olhos de Vanessa se estreitaram.

— Se aquele incidente trágico de dois anos atrás não tivesse acontecido, você provavelmente nem estaria—

— CHEGA! — O punho de Rhett bateu na mesa antes de ele virar tudo de uma vez. Vidro estilhaçou pelo chão quando garrafas e copos explodiram ao impacto. — Eu mandei você calar a boca. Você é surda pra caralho além de burra?

O clube inteiro se calou, todos os olhos voltados para o nosso canto.

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