Capítulo 4

Ponto de vista de Sheryl

Fiquei ali, observando as nuvens de tempestade se formarem no rosto de Rhett — escuras, perigosas, mal contidas. Os três homens ao lado dele se levantaram imediatamente, como soldados pressentindo uma explosão iminente. Joel foi o primeiro a avançar, sempre o pacificador.

— Não vamos remexer no passado, Vanessa — disse ele, em voz baixa, depois se virou para Rhett. — Qual é, cara. Esfria a cabeça. Somos todos amigos aqui.

Mas o olhar de Rhett continuou cravado em Vanessa, os olhos frios e predatórios.

Minha mente voltou para dois anos atrás, um mês antes do nosso casamento. Senhorita Cole — eu não conseguia lembrar o primeiro nome dela, embora a mídia o tivesse mencionado incontáveis vezes. A garota que estava sempre ao lado dele, recebendo de Rhett uma ternura que eu nunca o vira dirigir a mais ninguém. Até aquele dia. O ataque veio sem aviso — e ela não hesitou. Colocou-se na frente da bala que era para ele. Sobreviveu, por um triz, mas entrou em um coma que a roubou de nós.

Depois disso, Rhett a transferiu para algum centro médico particular, escondida do mundo. E então — só então — cumpriu sua obrigação de se casar comigo. Nossa união não passava de um arranjo de negócios, meticulosamente planejado por Kenneth e por meu pai, Robert Ross. Rhett nunca se opôs, mas também nunca o aceitou de verdade.

Nosso casamento? Não houve um. Apenas papéis, assinaturas e um punhado de testemunhas. O mundo exterior só sabia que a Hayes Enterprise tinha uma nova senhora, alguma herdeira de boa família. Mas quase ninguém conhecia o rosto da Sra. Hayes. Eu era uma sombra, uma intrusa que tinha tomado o lugar de direito daquela garota.

— Acertei num ponto sensível? — ouvi a mim mesma dizer com uma risada amarga, que pareceu gelo na minha garganta. — Ainda tão devotado à garota Cole? Talvez seja melhor a gente se divorciar, então.

O ar ao nosso redor congelou.

— Sheryl Ross! — a voz de Rhett baixou para aquele tom perigoso que fazia até seus inimigos mais endurecidos vacilarem. — Nem pense em tocar nesse assunto, porra.

Todos à nossa volta pareceram parar de respirar. Eu nem podia mencioná-la sem tirá-lo do sério. Bem, não era essa a confirmação perfeita do que eu já sabia? Era ela quem importava. Eu era a piada.

Joel tentou intervir:

— Vocês dois estão alterados. Não vamos dizer coisas das quais vamos...

Mas eu não falava por raiva. Eu finalmente estava enxergando com clareza através da dor. Por dois anos, fiz o papel de esposa perfeita, tentando soprar calor para dentro desse arranjo gelado. Mantive minha promessa a Kenneth — formar uma família com Rhett, dar a esse casamento uma chance de verdade. Fiz a minha parte. E Rhett? Continuava sendo o playboy inalcançável, raramente em casa, com o coração em outro lugar.

Antes de conhecê-lo, achei que eu era apenas uma peça movida pelos interesses da família. Mas, desde o momento em que o vi, senti-me atraída por ele. Aquele exterior impecável, aquela presença dominante — eu não conseguia escapar da força que ele exercia. Pensei que talvez ele só precisasse de tempo para me conhecer, que seu jeito volúvel fosse apenas um hábito. Ele nunca me maltratou, mas também nunca me deixou entrar. Sentimentos de mão única, constantemente não correspondidos, acabam destruindo você. Eu já tinha suportado tempo demais.

— Se você não quer voltar para casa — eu disse, com firmeza —, então talvez a gente não devesse ter casa nenhuma.

Com isso, virei as costas e caminhei em direção ao meu carro. A brisa do fim do verão em Boston trazia um toque do frio do outono. O salto dos meus sapatos batia no asfalto do estacionamento, e cada passo marcava mais uma rachadura no nosso casamento.

Assim que estendi a mão para a maçaneta da porta do motorista, uma mão familiar agarrou meu pulso. Não com rudeza, mas inflexível. Rhett me puxou para o lado e entrou no banco do motorista.

— Entra do lado do passageiro — disse ele, a voz de volta ao tom controlado de sempre, como se a fúria de antes nunca tivesse existido.

Fiquei ali, estudando seu perfil marcado na luz fraca, com as emoções todas emboladas. Apesar de tudo, eu ainda sentia aquela atração indesejada por ele. Esbocei um sorriso pequeno e amargo. Pelo menos desta vez ele ia voltar para casa.

Ponto de vista de Rhett

Eu a vi se afastar, com aquela teimosia estampada nos ombros, sem nem olhar para trás. A frustração dentro de mim se aprofundava a cada clique do salto dela contra o asfalto. Divórcio? Ela teve a audácia de jogar essa palavra na minha cara? Nem fodendo. Ela nem podia cogitar isso.

Dois anos. Só dois anos desde que eu finalmente pude chamá-la de minha esposa, e ela já estava falando em ir embora. Eu tinha esperado tempo demais por esse casamento para deixar tudo desmoronar agora.

Claro, eu não podia negar que minhas... atividades extracurriculares a machucavam. Eu sabia disso. Mas eu não estava tentando compensar de todas as outras formas? Não importava que palavras duras ela me atirasse, não importava quantas vezes me afastasse ou explodisse comigo, eu nunca revidava. Eu deixava ela desabafar. Eu aguentava.

Na cama, eu sempre seguia o ritmo dela, parando no instante em que percebia qualquer desconforto. Toda vez que ela adormecia exausta, era eu quem a carregava até o chuveiro, quem a limpava enquanto ela dormia nos meus braços. Tudo o que eu queria era que ela ficasse ao meu lado. Ela realmente não conseguia ver isso? Ou simplesmente me odiava a esse ponto?

A dor no meu peito se intensificou quando eu a segui até o estacionamento. O clique ritmado dos saltos dela no chão me puxou de volta para a realidade. Forcei a respiração a desacelerar, meu rosto a assumir a máscara de controle de sempre. Quando alcancei Sheryl, por fora eu já estava calmo de novo.

Me movi rápido, puxando-a para o lado enquanto eu deslizava para o banco do motorista.

— Entra do lado do passageiro — eu disse, com calma.

Ela me encarou por alguns segundos, depois suspirou, resignada, e obedeceu. Assim que se sentou, me inclinei por cima dela para afivelar o cinto, sentindo um sopro do perfume — algo leve e doce que parecia sempre ficar no ar ao redor dela.

Liguei o motor e pisei fundo. Os pneus chiaram quando saímos disparados do estacionamento. O velocímetro subiu rápido enquanto eu forçava mais o carro, deixando a descarga de velocidade varrer as emoções que ameaçavam me sufocar.

— Ei! — Sheryl gritou, agarrando a maçaneta da porta. — Você está tentando me matar? Diminui!

Olhei de lado para ela — olhos arregalados, cabelo um pouco desalinhado, bochechas coradas de susto. Bem melhor do que aquela expressão fria e distante que ela tinha me dado antes. Senti o canto da boca querer subir.

— O quê? Não aguenta um pouquinho de velocidade, Sra. Hayes? — perguntei, enfatizando de propósito o sobrenome de casada, enquanto aliviava o acelerador só o suficiente para não fazê-la entrar em pânico de verdade.

O olhar fulminante que ela me devolveu valeu a pena. Com Sheryl, raiva sempre era melhor do que indiferença. Raiva significava que ela ainda se importava.

Voltei minha atenção para a estrada, com os pensamentos correndo mais rápido do que o carro. Ela não podia me deixar. Não agora, nunca. Ela era minha — a única que de fato sempre foi. Ela só ainda não sabia disso.

Kenneth tinha percebido desde o começo.

— Aquela garota Ross — ele tinha dito. — É ela que vai te colocar na linha.

O velho estava certo, pelo menos nisso.

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