Capítulo 6

Ponto de vista de Sheryl

Acordei com a luz do sol filtrando pelas cortinas, e meu corpo imediatamente registrou uma dor que fez a noite passada voltar inteira à minha mente. Apoiada nos cotovelos, descobri que estava vestindo um pijama de seda limpo — definitivamente não era o que eu estava usando antes de apagar.

Quando afastei a gola, um rastro de marcas roxas enfeitava minha pele como um colar, desaparecendo sob o tecido. Maravilha.

O outro lado da cama estava vazio e frio. Claro que Rhett não tinha ficado.

Fiquei encarando o teto, deixando a realidade se acomodar sobre mim como um cobertor pesado. O que exatamente eu era para ele? A atração física era óbvia o bastante — meu corpo certamente podia dar testemunho disso. Mas, além disso? Havia algo mais profundo que luxúria me prendendo a esse casamento?

Ele se recusava até mesmo a discutir divórcio. Se era só por sexo, por que não me deixava ir e encontrar outra pessoa para aquecer a cama dele? Alguém que realmente quisesse estar ali?

Suspirando, me arrastei até a pia, esperando que jogar água fria no rosto pudesse lavar toda aquela confusão.

Dez minutos depois, desci vestindo uma camisa que convenientemente escondia as evidências das atividades da noite passada. Rhett já estava à mesa do café da manhã, impecavelmente vestido num terno grafite, passando os olhos pelo tablet. A luz do sol incidia em seu cabelo escuro, destacando aqueles poucos fios prateados nas têmporas. Maldito. Como podia estar tão bonito depois de tudo?

— Bom dia — disse ele, erguendo os olhos. Sua voz não revelava nada.

Sentei na minha cadeira e imediatamente notei o pequeno comprimido branco sobre um prato vazio, com um copo d'água ao lado.

— O que é isso? — perguntei, embora já soubesse.

Rhett pousou o tablet com uma precisão deliberada.

— Pílula do dia seguinte.

— Não vou tomar isso. — Empurrei o prato para longe. — Você faz ideia do que esses hormônios fazem com o corpo de uma mulher? Devia ter pensado em proteção antes de vir para cima de mim ontem à noite.

Os lábios dele se curvaram num sorriso debochado.

— Você me provocou de propósito. Eu não estava exatamente pensando com clareza.

— Então você devia fazer uma vasectomia, se não consegue se controlar — rebati. — Ou isso é pedir demais do poderoso Rhett Hayes? Já que você não pode se dar ao luxo de ter filhos.

Ele soltou uma risada curta.

— Não posso me dar ao luxo? Querida, você poderia dar à luz uma turma inteira de jardim de infância, e ainda assim eu teria dinheiro suficiente para colocar todos em Harvard. Duas vezes. — Ele tomou um gole de café, me observando por cima da borda da xícara. — A fortuna dos Hayes não é o problema aqui.

— Então por que não podemos ter um bebê? — desafiei, arrependendo-me imediatamente de como a pergunta soou vulnerável.

A expressão dele mudou; a diversão deu lugar a algo mais frio, mais calculado.

— Não seja infantil, Sheryl. Nem por um segundo pense que pode me prender com uma gravidez. Já deixei isso claro: divórcio não é uma opção. Nunca.

— Você não me quer, nem quer um filho, mas não me deixa ir — falei baixinho. — Que tipo de jogo doentio é esse?

— Quem disse que eu não quero você? — Os olhos dele escureceram. — Acho que demonstrei muito bem ontem à noite exatamente o quanto eu quero você.

—Isso é dife...

Antes que eu pudesse terminar, ele arrancou o comprimido do meu prato e enfiou na própria boca. Num único movimento fluido, saiu da cadeira; a mão dele prendeu com firmeza a minha nuca enquanto a boca dele desabava sobre a minha. Senti o comprimido ser empurrado entre meus lábios, deslizando em direção à garganta conforme a língua dele avançava atrás. Eu lutei contra ele, mas era tarde demais — o gosto amargo já se desfazia enquanto eu engolia, involuntariamente.

—Seu desgraçado! — arquejei quando, enfim, ele me soltou.

—Só garantindo — respondeu, voltando com calma ao assento como se não tivesse acabado de me forçar a tomar um remédio. — Melhor prevenir do que remediar.

—Pode acreditar — rosnei —, eu prefiro morrer de fome a trazer um filho seu pra esse caos.

Meu celular tocou, cortando a tensão. O nome do meu pai piscou na tela, e eu hesitei antes de atender.

—Sheryl. — A voz dele era seca, objetiva, como sempre. — Vou receber algumas pessoas no sábado, um encontro pequeno pelo meu aniversário. Espero você lá.

—Pai, eu estou atolada com um projeto importante... — comecei, sentindo aquela mistura conhecida de mágoa e ressentimento borbulhar.

Desde que a mamãe morreu, ele nunca esteve presente pra mim — não de verdade. Era sempre a segunda esposa dele, Christine Mitchell, e os filhos dela que recebiam a atenção, o carinho. Eu era só o lembrete inconveniente do primeiro casamento, aquele que ele preferia esquecer. Por que eu deveria fingir ser uma filha dedicada se ele nunca se deu ao trabalho de ser um pai de verdade pra mim?

—O Timothy tem perguntado de você — ele interrompeu, atingindo meu único ponto fraco com precisão de atirador. — Ele sente falta da irmã mais velha.

Minha resistência desmoronou ao pensar no meu meio-irmão de cinco anos — a única pessoa na casa do meu pai que parecia genuinamente feliz em me ver. Em toda visita, ele vinha correndo, radiante, abraçando minhas pernas com os bracinhos pequenos e olhando pra mim com aqueles olhos inocentes.

—Tá bom — suspirei. — Eu vou.

—Ótimo. Quero falar com o Rhett.

—Ele não tá aqui...

Mas Rhett já estava ao meu lado, pegando o celular da minha mão com naturalidade.

—Robert, bom dia. Sim, nós dois vamos comparecer. Estamos ansiosos. — Ele desligou antes de me devolver o telefone.

Eu lancei um olhar fulminante, peguei minha bolsa e me levantei.

—Eu vou embora.

—Espera, você ainda não tomou café. Come primeiro, depois vai. O carro vai estar na frente em quinze minutos — respondeu, já de volta ao tablet. — O Mark te leva pra Glamour Realm.

—Não tô com fome. Você já me deu coisa suficiente pra digerir.

Ele levantou os olhos.

—Como o quê?

—A sua cara de pau, pra começar. Ah, e eu devia te agradecer.

A sobrancelha dele se ergueu um pouco.

—Pelo quê?

—Por me mostrar como é o fundo do poço em forma de gente.

Saí do salão de jantar como uma tempestade, desesperada por um pouco de espaço pra respirar. Quando pisei do lado de fora, no ar frio e fresco da manhã, tentei me recompor.

Fui direto pra garagem, os saltos estalando secos no mármore. No meio da coleção de carros esportivos dele, escolhi o mais chamativo — uma beleza verde-esmeralda deslumbrante, que praticamente implorava por atenção. Ao dar ré pra sair da garagem, peguei de relance a imagem dele parado à janela.

Ótimo. Que ele me veja indo embora no carro dele.

Capítulo Anterior
Próximo Capítulo