Capítulo 7
Ponto de vista de Rhett
Observei Sheryl acelerar rumo ao oeste no Ferrari verde, o rugido do motor sumindo aos poucos ao longe. Um sorriso amargo se insinuou no meu rosto. Bom para ela — que viva assim perto de mim. Quanto menos ela souber, menos fardos carrega, melhor.
Virando-me, subi a escadaria de mármore até o meu escritório no segundo andar. Empurrei a pesada porta de carvalho e fui direto até as janelas do chão ao teto, que ofereciam uma vista panorâmica dos jardins da Oakridge Estate. Um Bentley preto se aproximava devagar pelos portões principais a leste, a carroceria elegante reluzindo sob o sol da manhã.
Darren Hayes. Meu tio intrometido de sempre, primo do meu pai.
Soltei uma risada fria e desabotoei a camisa até a metade, expondo de propósito os chupões da noite passada. Puxei a gola para parecer ainda mais desalinhada, depois passei os dedos pelo cabelo, garantindo que ficasse suficientemente bagunçado — como se eu tivesse acabado de levantar da cama depois de uma noite de paixão.
Fui até o armário de bebidas e me servi de meio copo de uísque, girando de leve o líquido âmbar antes de me apoiar no parapeito da janela para esperar a visita do meu tio.
Em menos de cinco minutos, a voz de Martha ecoou de baixo: “Sr. Hayes, seu tio chegou.”
Desci a escada com lentidão calculada, girando o copo de uísque, fingindo ares de quem acabara de acordar. Darren estava no centro da sala de estar, e atrás dele pairava Alex Hudson, seu secretário — alto e magro.
— Bom dia, sr. Rhett Hayes — disse Alex, com uma polidez treinada.
— Rhett, olha o estado em que você está. — Darren franziu a testa, impecavelmente vestido num terno cinza sob medida, a gravata meticulosamente ajustada, cada detalhe exalando precisão calculada. — Já está quase meio-dia.
— Bom dia, querido tio — arrastei, esticando de propósito as palavras. — Não esperava que tivesse tempo de vir me ver hoje.
— Como seu tio, é natural que eu me preocupe com você. — O olhar de Darren percorreu minhas roupas desalinhadas e a camisa aberta; a boca dele tremeu, quase imperceptível. — Onde está sua esposa?
Dei de ombros, com uma despreocupação afetada.
— Quem sabe? Provavelmente na casa de alguma amiga.
— Rhett… — Darren suspirou. — Você devia dar mais atenção à Sheryl. Vocês estão casados há menos de dois anos e você já está trazendo outras mulheres para casa… — Os olhos dele se fixaram, deliberadamente, nas marcas no meu peito.
— Qual é o problema? — ergui uma sobrancelha. — Você parece preocupado demais com o meu casamento e… bem interessado na Sheryl. Se quiser, eu me divorcio dela e te dou uma chance.
— Rhett, para com isso! — Ele ficou sério, visivelmente irritado.
— O sr. Hayes tem um ótimo senso de humor. Por favor, entenda o cuidado sincero do sr. Darren Hayes com você e com a empresa — disse Alex, com um sorriso nervoso, porém diplomático.
Eu ri baixinho e olhei para Alex.
— Bom secretário você tem.
Darren se recompôs.
— Seus casos com essas mulheres estão prejudicando a reputação da empresa — disse, direto. — Não se esqueça: você é o herdeiro da Hayes Enterprise. Tudo o que você faz reflete em nós.
Ri, frio.
— A empresa? Você não dá conta disso? Não está administrando tudo lindamente? — Fui até o sofá e me sentei, apoiando o copo de uísque na mesa de centro. — Para falar a verdade, eu estava pensando… talvez eu devesse considerar te dar controle total da empresa. Afinal, você entende a Hayes Enterprise melhor do que eu e, com certeza, ama aquilo mais do que eu.
No instante em que aquelas palavras saíram da minha boca, captei o lampejo de uma ambição astuta nos olhos de Darren — aquele brilho quase predatório. Mas ele tratou de mascará-lo, assumindo uma expressão profissional.
— Não fale asneira, Rhett. A Hayes Enterprise foi deixada para você pelo seu pai. Você é o herdeiro legítimo — Darren disse, sério. — Eu só estou administrando temporariamente até você estar pronto para assumir. Não tenho esse tipo de ambição, nem quero o que não é meu.
Uma baboseira santarrona do caralho. Zombei por dentro, mantendo a cara impassível.
— A propósito — Darren puxou vários tabloides da maleta e os jogou sobre a mesa de centro —, dê uma olhada nisto.
Baixei os olhos para as fotos minhas e de Vanessa no boliche ontem à noite. Em uma delas, estávamos brindando, o corpo dela colado ao meu. A manchete berrava: “HERDEIRO HAYES EM ENCONTRO ÍNTIMO NA MADRUGADA COM MULHER MISTERIOSA: CASAMENTO EM CRISE?”
— Vanessa Clark, 24 anos, filha do dono de uma oficina mecânica em South Boston — Darren disse, com um desprezo inconfundível. — Rhett, isso precisa parar. Você deveria se associar a pessoas mais... respeitáveis, à altura da sua posição.
— Se é só por diversão, por que tanta exigência? — respondi, displicente.
— A união entre as famílias Hayes e Ross não é um assunto trivial! — Darren elevou a voz. — Robert Ross é nosso parceiro de negócios. Seu casamento com a Sheryl estabilizou a aliança comercial entre as nossas famílias. Se você continuar com esse comportamento imprudente, não vai apenas machucar a Sheryl, como também vai afetar o preço das ações da empresa e o desenvolvimento futuro.
Observei-o em silêncio, plenamente ciente do verdadeiro significado por trás de cada palavra.
— Tá bom — cedi por fim, fingindo resignação. — Vou tomar mais cuidado.
Darren pareceu surpreso com a minha docilidade, mas logo voltou ao semblante sério.
— Lembre-se da sua posição, Rhett. Você é o herdeiro da família Hayes e o futuro líder da Hayes Enterprise. Cada ação sua impacta a reputação da família e o futuro da empresa.
— Eu sei, tio — sorri, embora meus olhos permanecessem frios. — Nunca me esqueci disso.
Depois de me despedir de Darren e da secretária dele, voltei ao meu escritório e observei o carro deles partir pela janela.
Peguei o celular e liguei para Daniel.
— Sr. Hayes — ele atendeu no segundo toque.
— Daniel, por que essa última história de tablóide não foi contida? — perguntei, com uma calma enganosa. — Essas fotos não deveriam ter ido para a imprensa.
Houve uma pausa desconfortável.
— Bem, senhor, normalmente a Sra. Hayes cuida dessas questões, mas ontem à noite, quando eu liguei para falar com ela sobre isso, ela... se recusou a intervir.
— Ela se recusou? — repeti devagar. — O que exatamente ela disse?
Daniel hesitou, pigarreando.
— Não sei se eu deveria...
— O. Que. Ela. Disse? — Cada palavra foi um lasco de gelo.
— As palavras exatas dela foram: “Ele quer pagar de idiota? Que pague. Vou pegar a pipoca.”
Algo quente e perigoso se acendeu dentro de mim. Num movimento rápido, eu chutei o pufe ali perto, que foi se chocar contra a estante. Vários volumes encadernados em couro despencaram no chão.
— Senhor? Está tudo bem? — A voz de Daniel soou metálica e distante pelo telefone.
— Resolva isso agora — rosnei, encerrando a ligação e atirando o celular no sofá.
Passei a andar de um lado para o outro no escritório, as mãos cerradas em punhos. Então a Sheryl queria jogar pesado? Ótimo. Ela tinha mexido comigo. Mas eu ia fazer questão de que ela implorasse por misericórdia na próxima vez que eu a tivesse na cama.
