Capítulo 8
Ponto de vista de Sheryl
Entrei na garagem de estacionamento do Glamour Realm, conferindo minha aparência no retrovisor antes de ir para dentro. As olheiras mal estavam disfarçadas pela maquiagem. A noite passada com Rhett tinha me deixado exausta, mas ninguém no trabalho precisava saber desse detalhe em particular.
As portas do elevador se abriram diretamente no nosso andar, e eu caminhei até o meu escritório com confiança.
— Bom dia, Sra. Ross. — Amy apareceu à minha porta poucos instantes depois que me acomodei, carregando uma xícara de café fumegante. O sorriso da minha assistente parecia forçado, e eu não podia culpá-la depois do desastre de ontem.
— Bom dia, Amy. Obrigada. — Aceitei o café — preto, com só um toque de caramelo, do jeito que eu gosto. — Como você está depois de ontem à noite? Eu ainda estou furiosa com o que aconteceu com a Luxe Gems. Aquele desgraçado do James Peterson recebeu o que merecia depois que você saiu.
O sorriso de Amy vacilou.
— Eu estou bem, de verdade. Só ainda um pouco abalada. — Ela mexeu no caderno. — Eu devia ter sido mais cuidadosa perto dele.
— Nada disso foi culpa sua — eu disse, firme. — O Peterson é o único responsável pelo comportamento nojento dele.
Antes que Amy pudesse responder, Tom, da equipe de projetos, apareceu na porta do meu escritório, com uma expressão sombria. Amy ficou tensa ao meu lado.
— Sra. Ross, desculpe interromper. — Ele hesitou, claramente portador de más notícias. — A Luxe Gems acabou de ligar. Eles estão… encerrando qualquer possibilidade de colaboração conosco.
Mantive a expressão neutra.
— Entendo. Obrigada por me avisar.
— Vai ficar tudo bem — garanti a Amy, apertando o ombro dela. — O Sr. Donovan vai entender quando souber o que aconteceu.
— Ah, vai entender, é?
Suprimi um gemido ao reconhecer a voz familiar. Megan Price se escorava no batente da minha porta, os óculos de grife apoiados no nariz e a expressão transbordando falsa simpatia. Como chefe de uma das equipes de design, ela mirava o meu cargo desde o primeiro dia.
— Problemas no paraíso, Sheryl? — Ela praticamente ronronou. — Dizem que o Sr. Donovan está subindo. Algo sobre um “assunto urgente”. Tenho certeza de que não tem nada a ver com perdermos o nosso maior cliente em potencial deste trimestre.
Eu me preparava para uma resposta cortante quando, de repente, o escritório ficou em silêncio. Os funcionários se endireitaram, as conversas pararam, e a expressão presunçosa de Megan vacilou quando o próprio Sr. Donovan dobrou a esquina. Seus cabelos prateados e o terno impecável impunham respeito como sempre.
— Sra. Ross — disse ele, com uma expressão indecifrável. — Uma palavra em particular, por favor.
Os outros se dispersaram depressa, embora Megan tenha demorado um instante a mais, praticamente salivando com a perspectiva de assistir à minha queda. O olhar severo de Donovan finalmente a fez sair às pressas.
Fechando a porta, Donovan se acomodou na cadeira à minha frente com uma facilidade surpreendente.
— Fiquei sabendo da situação com a Luxe Gems — começou ele, em tom comedido.
— Senhor, eu posso explicar…
Ele ergueu a mão.
— Não é necessário. Não é por isso que estou aqui. James Peterson sempre foi problemático. Estamos melhor sem essa colaboração.
A tensão nos meus ombros diminuiu um pouco.
— Obrigada por entender.
— O motivo de eu estar aqui é uma nova oportunidade. — Os olhos dele se acenderam com entusiasmo genuíno. — A Hayes Enterprise está desenvolvendo um espaço de varejo de luxo no centro. Será dedicado a joias de alto padrão. Eles querem que você lidere a equipe de design e crie a coleção de estreia.
Eu quase engasguei com o café. Hayes Enterprise? A empresa do Rhett?
— Eles pediram por você especificamente — continuou Donovan, interpretando mal meu choque como uma surpresa agradável. — Este pode ser o projeto mais prestigioso que assumimos este ano.
Minha mente disparou. Rhett e eu tínhamos um acordo tácito de manter nossas vidas profissionais separadas. Que jogo ele estava jogando agora?
—Estou honrada, claro —consegui dizer. —Quando eles vão precisar das propostas?
—Daqui a um mês. Vou mandar todas as especificações para a sua equipe hoje. —Donovan se levantou, ajeitando o paletó. —E, Sheryl? Sobre a Megan e os outros… espero que lhe deem total cooperação. Este projeto é prioridade número um.
Depois que ele foi embora, afundei na cadeira, com os pensamentos girando. Por que Rhett se enfiaria de propósito na minha vida profissional? Era alguma disputa de poder? Mais um jeito de me controlar? Ou só para me atormentar ainda mais depois do encontro de ontem à noite?
Afastei essas perguntas e mergulhei no trabalho. Se tem uma coisa que aprendi na vida é que me afundar em projetos é o melhor jeito de fugir de pensamentos perturbadores. Quando finalmente ergui os olhos, o escritório já tinha esvaziado e a noite caíra.
O trânsito se arrastava pelo centro de Boston enquanto eu voltava para casa. O relógio do painel marcava 19h32 quando meu celular tocou, um número desconhecido iluminando a tela. Conectei pelo Bluetooth do carro.
—Sheryl falando.
—Sheryl, aqui é a Elizabeth —veio uma voz calorosa e refinada.
A tia do Rhett? Por que ela me ligaria do nada? Apertei mais o volante. Eu só tinha encontrado Elizabeth uma vez, quando ela voltou do exterior para a comemoração do aniversário do avô do Rhett. Ela tinha parecido genuinamente simpática, uma integrante amigável da família Hayes.
—Elizabeth, olá. Isso é… inesperado.
Um suspiro suave saiu pelos alto-falantes.
—Estou ligando por causa do Rhett. As coisas se espalham, sabe, mesmo quando as famílias tentam manter tudo em silêncio.
Meu estômago se contraiu. Então a família Hayes sabia das… atividades extracurriculares do Rhett. Das mulheres. Das noites fora de casa.
—Não estou ligando para julgar nem para me intrometer —Elizabeth prosseguiu depressa. —Só achei que você deveria saber algumas coisas sobre o Rhett que talvez ajudem a entendê-lo melhor.
O semáforo abriu, e eu acelerei, minha curiosidade despertando apesar de mim.
—Quando o Rhett tinha oito anos, Kenneth mandou ele para a Itália. Sozinho. —A voz dela trazia um resquício de velha raiva. —Ele ficou lá até os vinte, basicamente se criando sozinho. O pai o visitava, talvez, uma vez por ano, e eles eram praticamente estranhos um para o outro.
Eu não fazia ideia. Rhett nunca falava da infância.
—Não estou desculpando o comportamento dele —Elizabeth esclareceu. —O que ele está fazendo é errado, e você merece algo melhor. Mas o Rhett cresceu sem saber o que família significa. Ele é rebelde e difícil porque aprendeu cedo que as pessoas vão embora ou traem você.
—E a mãe dele? —me peguei perguntando. —Ele nunca fala dela.
Elizabeth ficou em silêncio por um instante.
—Essa é outra tragédia. Quando o Rhett tinha seis anos, a mãe dele desenvolveu uma doença mental grave. Perda de memória, regressão cognitiva… desde então ela não o reconhece. Ela está no Pine Grove Retreat desde aquela época.
A revelação me atingiu como um golpe físico. Eu tinha presumido que a mãe dele tinha morrido ou abandonado a família. Nunca imaginei que ela ainda estivesse viva, confinada numa instituição psiquiátrica todos esses anos.
—Ele a visita? —Minha voz soou estranha até para mim.
—Às vezes. É doloroso demais para ele. —Elizabeth suspirou. —E eles mantiveram isso em segredo. É melhor para todo mundo.
Depois que desligamos, dirigi o resto do caminho para casa em estado de torpor. O Rhett Hayes autoritário, arrogante, aparentemente invulnerável, de repente pareceu diferente. O menino enviado embora aos oito anos. A criança cuja mãe já não o reconhecia.
Não desculpava o comportamento dele —nada podia justificar a forma como ele me tratou—, mas, pela primeira vez, senti que eu vislumbrava a alma ferida por baixo daquele exterior perfeito e controlado.
E, apesar de tudo, essa constatação despertou algo inesperado dentro de mim. Algo perigosamente perto da compaixão.
