Capítulo 1 ACASALADO COM OUTRO

Ponto de vista de Sophie

Ele estava se aproveitando de mim.

Eu sabia disso.

Mas deixei.

“Quantos minutos faltam para você terminar?” Chase se apoiou no batente da porta da sala de aula, vestido com o uniforme da escola. O cabelo loiro dele estava bagunçado no topo, como se ele tivesse passado os dedos por ele incontáveis vezes.

“Três minutos”, respondi, franzindo as sobrancelhas enquanto escrevia no caderno de matemática dele.

Ele gemeu e veio se sentar ao meu lado. Não levantei os olhos nem por um segundo, mas eu conseguia sentir o olhar dele queimando sobre mim enquanto esperava, impaciente.

Chase Davenport.

Esse é o nome dele.

Ele era o capitão do time de hóquei da escola, o garoto mais bonito do colégio, e todas as meninas tinham uma queda enorme por ele.

Quero dizer, quem não teria?

Basta olhar para ele.

E a coisa mais inacreditável de tudo isso?

Eu sou a namorada dele.

Eu.

Uma loba patética sem loba interior.

Pelo menos era assim que as garotas da escola me chamavam.

Ao contrário das outras pessoas da minha idade, eu não era forte, não tinha garras, não tinha um olfato apurado. Eu era apenas... normal.

Ali, ser normal não era bom.

Isso porque a Academia SilverClaw era uma escola para os ricos. Qualquer aluno dali vinha de uma longa linhagem de riqueza e poder, e a família de Chase era a mais influente.

Eu, por outro lado, era filha de uma simples empregada doméstica. Só tinha conseguido entrar na SilverClaw por causa das minhas boas notas.

Que ironia. Eu estava ao mesmo tempo no topo e no fundo da escola.

“Quantos minutos faltam?”, ele perguntou de novo, dessa vez com a voz tensa.

Suspirei. “Um, Chase. Só um.”

Eu estava fazendo a lição de matemática dele, como fazia toda manhã. Chase não era exatamente um aluno brilhante. Tudo em que ele pensava era hóquei. A direção da escola tinha ameaçado fazê-lo repetir de ano se ele continuasse reprovando.

Então ele fez um acordo comigo: ele me daria uma chance de namorá-lo... uma oportunidade única na vida... e eu faria toda a lição dele de graça.

Eu não era idiota o bastante para dizer não.

Aceitei na hora e virei a escrava dele, fazendo todo o trabalho escolar. Mas isso não importava, porque estávamos juntos.

As garotas que antes praticavam bullying comigo agora tinham inveja de mim.

Elas me odiavam ainda mais, mas não importava, porque eu tinha Chase.

O que eu tinha com Chase parecia real.

“Terminei”, eu disse, entregando rapidamente a lição para ele. Chase se recostou na cadeira e pegou o caderno, passando os olhos pelo que eu havia escrito.

Eu tinha estudado a caligrafia dele tão bem que agora conseguia escrever igual, e os professores não percebiam. Estava perfeito.

Ele enfiou o caderno na mochila. “Temos treino de hóquei na hora do almoço.” Ele se levantou e olhou para mim. “Vamos fazer a seleção para o nosso novo integrante.”

Levantei para ficar de frente para ele.

O novo semestre tinha começado dois meses antes com o time de hóquei completo, mas na semana passada um dos integrantes, Brandon, precisou se mudar com a família, e a seleção seria hoje.

Todos os garotos da escola que sabiam jogar hóquei estavam ansiosos por essa seleção.

“Esteja lá”, ele ordenou, saindo da sala antes que eu pudesse responder.

Puxei fundo o ar. Eu sempre tinha que estar presente nos jogos dele. No fim de cada partida, eu limpava os tacos de hóquei de todos os integrantes do time, limpava as lâminas dos patins deles e os levava para o vestiário.

Eu era basicamente a assistente deles de graça.

Mas eu estava fazendo isso por Chase, então não importava.

As aulas passaram como passavam em todos os outros dias. Eu ficava olhando para Chase do outro lado da sala, e ele agia como se eu não existisse.

Às vezes eu o pegava flertando com as outras garotas.

Mas eu sabia que ele nunca me machucaria.

“Ser minha namorada é um privilégio. Não importa com quantas outras garotas eu saia”, ele dizia quando eu reclamava. “Nosso relacionamento é só um acordo, Sophie”, ele acrescentava.

E ele não estava errado.

Uma ninguém como eu tinha a atenção dele. Isso era algo com que todas as garotas sonhavam. Mesmo quando conseguiam, nunca durava muito.

Chase era conhecido por ser um pegador. Namorava uma garota por apenas duas semanas e enjoava, passando para a próxima.

Mas nós estávamos juntos havia dois meses inteiros. Acordo ou não, isso significava alguma coisa, não significava?

Coloquei a mão sobre o colo enquanto ouvia a professora tagarelar sobre matemática.

Logo o sinal tocou e todos os alunos se levantaram de seus lugares para ir para a próxima aula.

— Sra. Weathers? — a voz da professora me fez parar.

Virei para encará-la e pisquei.

— Sim?

Ela fez um gesto para mim. Com uma expressão confusa, me aproximei. Eu nunca tinha sido chamada por um professor fora do horário da aula, a não ser para responder alguma pergunta. Por que ela me chamou?

— Sim, senhora?

Ela ajeitou o vestido. Agora que a sala estava vazia, eu conseguia ouvir o som dos saltos dela batendo seco no piso.

— Tem um aluno novo na escola — anunciou.

Franzi os olhos.

— Na nossa turma?

Ela assentiu.

— Mas… eu não vi ninguém.

Os olhos cinzentos dela piscaram enquanto sorria.

— Ele chegou há alguns minutos e está na sala da diretoria. Precisamos que um dos alunos dê a ele um tour pelo prédio e, como você é nossa melhor aluna…

Suspirei e assenti.

— Claro, Srta. Middleman.

Ela me entregou um envelope.

— Estes são os resultados dele da escola anterior… bom, uma cópia.

Eu me perguntei por que ela estava me mostrando aquilo, mas aceitei mesmo assim.

— Também tem uma lista das matérias em que ele está indo mal e o plano do trimestre. Nós esperamos que você o ajude com reforço, já que você está no topo da turma.

Olhei para ela.

— Reforço?

Ela assentiu.

— É bom para sua inscrição na faculdade. Vai fortalecer seu currículo. A escola se ofereceu para ajudar você a se candidatar a uma bolsa em uma das melhores faculdades se ele passar. Nós até colocaríamos isso nas suas notas, mas… — ela estalou a língua — você já tira só nota máxima.

Apertei o envelope com força. Eu faria qualquer coisa para garantir uma vaga na faculdade.

— Eu topo — concordei.

Ela suspirou, aliviada.

— Graças a Deus. Os pais dele querem muito que ele jogue hóquei este ano. Se as notas estiverem ruins, ele não consegue entrar.

O aluno novo faria parte dos garotos que iam tentar o time de hóquei?

— Claro, senhora. Depois da aula de química…

— Ah, não, querida, não podemos deixá-lo esperando. Ele está na sala do diretor. Vá até lá agora. — Ela segurou meu ombro e me empurrou em direção à porta.

Ajustei meu cabelo loiro e fui até a sala do diretor. Enquanto caminhava, enfiei a mão no envelope e puxei uma pasta.

O nome Dante Rodriguez estava impresso nela.

O nome parecia familiar, principalmente o sobrenome.

— Rodriguez — murmurei.

Logo cheguei à sala do diretor. Quando eu estendi a mão para a maçaneta, a porta se abriu de repente, e um garoto ficou diante de mim.

Ele já estava com o uniforme da nossa escola, com um casaco de pele por cima. Dava para ver que era rico. Tinha cabelo preto e olhos cinzentos. Meus olhos o percorreram, e eu reparei nos punhos cerrados.

Engoli em seco e dei um passo para trás. A presença dele era intimidadora. Eu sentia suor se formando nas palmas das mãos.

— Você é… Dante Rodriguez? — perguntei em voz baixa, embora tivesse certeza de que era ele.

Ele me lançou um olhar feio antes de responder:

— Sim.

A resposta foi curta. A voz dele era tão grave que parecia vibrar dentro do peito.

— Eu sou a Sophie. — Estendi a mão para ele. — Vou ser sua guia.

Ele passou os dedos pelo cabelo e, então, apoiou a mão na minha.

Instantaneamente, senti um calor dentro de mim. Era suave, mas ao mesmo tempo intenso, como se alguma coisa me puxasse na direção dele.

Eu puxei a mão depressa e a esfreguei na saia.

— O que foi isso? — murmurei.

Era como nada que eu já tivesse sentido.

— Você… — ouvi a voz dele falhar.

Ergui o olhar num sobressalto.

— Eu?

Os olhos dele me examinaram como se tivesse visto um fantasma.

Um fantasma familiar.

— Eu? Eu o quê?

— Você é a minha companheira — ele disse.

Minha boca se abriu, mas nenhuma palavra saiu. Eu congelei.

Companheira.

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