Capítulo 1 HEARTBREAK.
PONTO DE VISTA DA SLOANE
Todo mundo diz que ter o coração partido é como se afogar.
Eles estavam errados.
O meu parecia fogo.
Fogo nos meus pulmões, no meu peito, no fundo da minha garganta.
Consumindo, queimando, quente.
Matt, meu melhor amigo, o garoto por quem eu sou apaixonada desde sempre, o garoto de quem eu fazia recortes de papelão, imaginando mil vezes o momento em que ele finalmente ia me pedir em namoro, está ali, rindo com a garota que transformou minha vida num inferno nos dois anos em que estudei nesta escola.
Ele não só quebrou meu coração – ele entregou meu coração pra ela, numa bandeja de ouro maldito.
E agora, eles estão se beijando no corredor como se ninguém mais existisse – como se eu não existisse pra ele.
Eu não era pra ter visto isso – acho que ninguém era. O corredor estava silencioso, silencioso demais, vazio, mas eu virei a esquina, e lá estava ele.
Rindo com ela, as mãos na cintura dela enquanto encosta os lábios na bochecha dela.
E o meu mundo – o pouco que ainda existia – desaba, desmorona, esmagado pelo peso da traição dele.
Ele escolheu ela.
A garota que torce o nariz pros meus sapatos de brechó.
A que me chama de “caso de caridade” alto o bastante pra todo mundo ouvir.
A que me lembra todos os dias que meu pai trabalha pro pai do namorado dela… e que minha mãe não passa de um fantasma nos meus registros.
Só que ela não está morta.
Ela só está… perdida.
E agora eu também estou.
O Colégio Ravenscroft não foi feito pra meninas como eu.
Não com minhas curvas, meus uniformes de segunda mão, minha bolsa de estudos integral.
Não quando os corredores estão cheios de descendentes de bilionários de legado e egos em nível de realeza.
Isso era uma bênção disfarçada, um presente do senhor Ravenscroft pro meu pai pelo serviço impecável dele como secretário, e o único garoto que sabia disso por mim, não por alguma coluna de fofoca, não pelos sussurros e deboches dos alunos da elite dessa escola centenária, está ali, com a única garota que me atormenta por causa disso.
Beijando ela, abraçando ela, tocando ela.
Eu aperto os livros com mais força contra o peito, recuando antes que eles me vejam.
Mas eu devia saber.
Aqui é Ravenscroft.
Alguém sempre repara.
Viro à direita, pronta pra sair correndo do corredor antes de gritar, pra achar um cantinho onde eu possa chorar, desabafar e lamentar essa traição. É aí que eu vejo ele.
Lucien Knox Ravenscroft.
O deus dessa escola, o rei, o queridinho, campeão de hóquei e lacrosse, filho de Eldric Ravenscroft, e a verdadeira desgraça da minha existência. A única pessoa que vai herdar os trilhões de dólares da família aristocrata dele está me encarando.
Os olhos azuis dele em mim deixam algo pesado no ar, o gelo daquele olhar de repente torna o ambiente frio, e um arrepio sobe pela minha espinha.
As tatuagens dele aparecem na gola da camisa, o desenho de um crânio no pescoço nítido como o dia.
Ele é meu bully, o filho do chefe do meu pai e meu benfeitor, o cara que deu início a toda essa campanha “vamos infernizar a vida da Sloane”.
Começou um dia no refeitório. Eu, sem saber de nada, sentei numa cadeira aparentemente vaga, pronta pra encarar o território inimigo no meu primeiro dia.
“Pra dar sorte”, meu pai tinha dito.
Mal sabia eu que tinha acabado de entrar no inferno.
O salão ficou em silêncio de repente quando eu sentei na almofada branca daquela cadeira, que parecia feita pra realeza.
De repente, pelo canto do olho, vi alguém, uma garota de cabelo escuro e visual gótico, cochichando:
— Levanta, agora!
Eu devia ter ouvido.
Devia ter saltado da cadeira como se fosse ácido, lava, e não a cadeira celestial que era, e ter corrido.
Longe do refeitório, desta escola, desta cidade.
A porta do salão enorme se abriu de repente, batendo na parede com força, me arrancando da quase-mordida no meu sanduíche.
Eu levantei os olhos, e lá estava ele, o garoto de ouro.
Vestindo o uniforme — calça azul-marinho, camisa branca e blazer azul-marinho —, com tatuagens que a roupa não fazia a menor questão de esconder, um olhar perfurante e um sorriso torto nos lábios, ele entrou. Com seu um metro e oitenta e tantos, ele se impunha sobre todo mundo no corredor, cercado pelos amigos.
Quatro caras altos.
Kai Blackthorne.
Theo Maddox.
Lucian Stone.
Prescott Smith.
Os quatro cavaleiros do apocalipse, como são chamados nessa escola, e Roxanne, a loira burrinha da escola, pendurada no braço de Lucian como namorada.
O primeiro lugar em que Ravenscroft olhou foi justamente a cadeira que eu ocupava.
Eu me lembro dos olhos dele, da expressão de pedra, da raiva neles e de como eu quase fiz xixi nas calças de medo.
Naquele dia, eu percebi uma coisa: essa escola era o inferno, e eu não era melhor que um animal por ser bolsista.
Engolindo em seco e lutando contra o medo, encarei seus olhos, apertando os livros contra o peito com tanta força que achei que eles iam desmanchar nas minhas mãos.
E o pior é que ele sorriu de lado.
Como se conseguisse provar o gosto do meu coração se partindo.
Como se estivesse esperando por aquilo.
“Dia difícil, bolsista?” ele arrastou as palavras, se afastando da parede com uma elegância preguiçosa que não tinha o menor direito de ficar tão bem nele.
Eu odiava ele.
Ou pelo menos era isso que eu deveria sentir.
Lucian era o tipo de garoto que não só mandava na escola; ele era dono dela.
Literalmente.
A família dele fundou o grupo Ravenscroft. O pai dele tinha cadeira no conselho, e o sobrenome da família estava gravado na ala leste do prédio.
E eu era a filha da faxineira.
Endureci. “Vai pro inferno, Ravenscroft.”
Ele riu, como se eu fosse uma piada que ele mal podia esperar pra destrinchar, sem desviar os olhos dos meus nem por um segundo.
“Já tô lá, querida. Quer ir comigo?”
Eu me movi pra passar por ele, mas ele deu um passo à frente, bloqueando o corredor com uma das mãos apoiada na parede, logo acima da minha cabeça. O cheiro dele me atingiu. Um perfume forte, de notas de couro e alguma coisa mais escura. Algo tão claramente caro que daria pra comprar tudo que eu tenho e ainda sobraria dinheiro... muito dinheiro.
“Tá planejando chorar no banheiro feminino?” ele perguntou, agora mais perto do que nunca. Tão perto que eu sentia os joelhos dele encostando nas minhas coxas, o contraste dos joelhos fortes dele com minhas coxas macias soltando um enxame de borboletas no meu estômago.
Eu me recusei a responder, preferindo morder a língua antes de soltar qualquer coisa que pudesse custar o emprego do meu pai.
O sorriso dele se alargou.
“Eles não merecem suas lágrimas, Sloane, só eu mereço.” O olhar maldoso preso ao meu, enquanto o cabelo loiro-dourado dele caía perfeitamente bem sobre a cabeça.
Ele parecia ter sido esculpido pelos deuses gregos, um objeto feito pra enlouquecer mulheres, jovens ou velhas. O escândalo de que ele tinha tido um caso com uma professora no ano passado se espalhou pela escola como fogo em mato seco.
A fofoca era que uma professora tinha feito sexo oral nele.
Pouco tempo depois, a professora foi misteriosamente demitida no dia seguinte e o Lucian?
Recebeu pedido de desculpas e foi encaminhado para acompanhamento psicológico por “avaliação de saúde mental pelo mal que fizeram a ele”.
O diretor também foi, de repente, mandado embora da escola.
E, de uma hora pra outra, ninguém mais ousou cochichar sobre o assunto, o medo de ser dizimado era forte demais.
Meu nome na boca dele fez algo perverso com a minha coluna.
“Você não sabe nada sobre isso”, eu rebati, seca.
Ele lançou um olhar pro fim do corredor, onde Matt e a namoradinha nova ainda estavam parados; alheios, apaixonados e nojentos.
“Ah, eu sei o suficiente”, Lucian disse, em voz baixa. “Como, por exemplo, que ele era seu melhor amigo. Que você amava ele, mas ele nunca te enxergou, nunca te deu a mínima. Todo mundo consegue ver; chega a ser enjoativo.”
Senti a garganta apertar. “O que você quer?”
O olhar dele desceu pros meus lábios, depois voltou pros meus olhos.
“Te fazer uma proposta.”
O som agudo do sinal ecoou vindo do refeitório, enquanto as pessoas começavam a sair pro intervalo do almoço.
Quando viu os alunos dobrando a esquina, Lucian deu alguns passos pra trás, enfiando as mãos nos bolsos, num gesto preguiçoso, e disse, me deixando sem chão:
“Sai comigo.”
