Capítulo 2 A APOSTA.
PONTO DE VISTA DE SLOANE.
A voz dele saiu suave, aveludada, quando disse:
— Sai comigo.
Duas palavras.
Um meio sorriso.
E, num piscar de olhos, Lucien Knox Ravenscroft tinha virado o meu mundo de cabeça pra baixo — de novo.
De repente, o corredor ficou silencioso; ele já estava, mas, por algum motivo, era como se tudo o que eu conseguisse sentir fosse o fato de que éramos só nós dois naquele pedaço da escola, algo que nunca tinha acontecido.
Lucien estava na minha frente, exigindo a minha atenção; a aura dele sempre chamava todo mundo, qualquer coisa viva, pra perto.
A aura de um Ravenscroft.
Ele me encara direto nos olhos, aqueles orbes azuis não desviando dos meus em nenhum momento, esperando a minha resposta.
Pisquei uma vez, duas.
— Que diabos você acabou de dizer? — perguntei só pra ter certeza de que tinha ouvido direito, e não imaginado coisa.
O rei da escola, e praticamente de toda a América e da Europa, tinha acabado de me pedir pra fingir que namorava com ele?
Eu?
A filha da empregada?
O caso de caridade da escola?
A garota em quem ele tinha virado uma garrafa de leite estragado inteira porque eu tive a audácia de passar por ele, encostando a mão sem querer no ombro dele.
Tinha sido um acidente. Eu estava correndo pra aula, determinada a manter meu histórico impecável nessa escola, principalmente porque eu precisava me esforçar o dobro por causa da bolsa.
Os filhos dos ricos têm que ser sempre excelentes, ou o emprego e a reputação do professor é que vão pro ralo. A lembrança do que aconteceu com a senhorita Blaine seis meses atrás me vem à cabeça.
Ela tinha reprovado uma prova, achando que era de um dos alunos bolsistas, mas, sem saber, era do Lucien.
Menos de vinte e quatro horas depois, ela estava com o nome queimado, demitida e escorraçada da escola e de qualquer emprego decente no país — e em toda a Europa.
Ele se inclinou pra frente, o hálito roçando na minha bochecha.
— Finge que namora comigo, garota da bolsa. Você quer deixar ele com ciúmes. Eu quero destruir ela. Você odeia os dois. Eu odeio ficar entediado.
Meus dedos se apertaram em volta dos livros.
— Você é louco.
Ele sorriu, devagar e perverso.
— Demência reconhece demência.
De repente, o corredor antes morto ganha vida de novo com conversas, as vozes dos alunos e seus sussurros preenchendo o espaço, iluminando o lugar.
Não estamos mais sozinhos.
— Me solta — eu sussurro, de repente consciente demais de mim mesma.
Todos os olhares estavam sobre mim.
Mais de cem olhos, além dos que provavelmente já estavam gravando, viram o garoto de ouro da escola, o rei dos Ravenscroft, e a garota da bolsa, a filha da empregada, tão próximos assim.
Que horror.
Eu conseguia sentir o olhar do Matt também, ou melhor, o jeito como ele escancarava os olhos, mas, em vez de o Lucien se afastar, ele se inclinou ainda mais.
Depois de dois anos fingindo que eu não passava de um papel de parede, eu sabia que os olhos do Matt não iam sair de mim, ainda mais nessa posição.
Depois de anos dele fingindo que não enxergava meus olhares de desejo, meu carinho, todas as vezes em que eu me colocava à disposição dele pro que quer que fosse, mesmo que fosse contra mim mesma, porque tudo o que eu queria era que, uma vez, finalmente, ele me notasse.
A garota que ele quase transformou em espetáculo pros outros amigos ricos.
Por muito tempo, eu culpei meu status por isso, achando que, se eu fosse rica, ele pelo menos ia gostar de mim, pelo menos ia me tratar como uma garota, e não como um dos brothers.
Lucien olhou pra baixo, pra mim, com olhos como queimadura de gelo e incêndio, azuis e em chamas.
— Topa ou não? — ele perguntou, ainda com o sorriso de canto.
Eu não respondi.
Não ali.
Arriscando tudo e rezando pra Deus pra que desse certo, me abaixei por baixo do braço dele e disparei pra fora do corredor como se meus pés estivessem pegando fogo, fugindo do olhar de todos os alunos ali.
E, principalmente, do Lucien.
Naquela noite, deitada na cama, uma lembrança veio até mim, uma que eu guardava perto do coração.
Quando eu tinha nove anos, o Matt me ensinou a andar de bicicleta. Lembro dos meus gritos e risadas no ar enquanto ele segurava o guidão comigo, sentindo claramente o meu medo enquanto me guiava. Lembro de cair quando fiquei assustada demais, achando que ele ainda estava segurando o guidão, só pra perceber que não estava mais. Com um grito, eu caí, chamando o nome dele.
Não o do meu pai.
Nem o do meu avô, mas o dele.
Ralei os joelhos, e ele deu um beijo pra sarar.
Eu caí, e ele me segurou.
Ele disse que eu sempre teria ele.
E eu acreditei.
Hoje eu me pergunto se o diabo também conta histórias de ninar, porque, no fim das contas, o Matt contou.
NA MANHÃ SEGUINTE.
Encontrei o Lucien na varanda da biblioteca leste, encostado no parapeito como se estivesse posando pra uma maldita sessão de fotos. Um braço jogado preguiçosamente sobre a borda, o outro levando um squeeze preto aos lábios. O vento bagunçava o cabelo loiro dele na medida certa pra fazê-lo parecer pecaminoso.
Devia ser crime alguém ser tão bonito assim, ter um corpo daqueles, um porte daqueles, um rosto tão lindo.
Não.
Um rosto de outro mundo.
Eu queria odiar ele, eu deveria odiar ele, mas, em vez disso, eu queria encostar nele.
Mesmo que queimasse.
— Você tava falando sério antes? — perguntei, ainda me recusando a acreditar que ele dizia a verdade.
Lucien não olhou pra mim de cara. Só deu mais um gole.
— Eu não brinco.
Cruzei os braços, ficando dura na beira da órbita dele.
— Você me humilhou na frente da escola inteira.
— Você podia humilhar ele — Lucien diz, finalmente se virando. — Confia em mim, ele é que pode acabar sangrando quando você terminar com ele.
Eu odiava o jeito calmo como ele falava. Como se isso fosse só mais uma terça-feira à noite pra ele, como se arruinar reputações e brincar de mestre de marionetes no reino do papai, um reino que o pai dele esculpiu pro filho único, colocar o rei e os serviçais no mesmo lugar fosse um esporte.
Por um único objetivo.
Lembrar pra todo mundo que ele é o nosso rei, e o resto de nós, a ralé, tem que beijar o maldito anel.
— Eu não sou seu brinquedo — falei, tentando soar desafiadora e não com medo. Tentando esconder o quanto ele mexe comigo.
Ele deu um passo pra perto, me fazendo inalar de novo o cheiro dele, o perfume amadeirado, rico, luxuoso, invadindo meus sentidos e me fazendo enxergar só ele.
— Não. Você é minha cúmplice — ele corrige.
Eu ergui o rosto pra encarar ele, o ar da noite pesado entre nós.
— Por que eu?
Lucien inclinou a cabeça, me estudando como se eu fosse um enigma, ou um quebra-cabeça que ele planejava desmontar.
— Porque você é a única que não tem mais nada a perder — ele disse.
As palavras dele bateram em mim como um tapa.
Seco. Íntimo. Verdadeiro.
Engoli em seco.
— E o que você ganha com isso?
O sorriso voltou — lento, sombrio e absurdamente tentador.
— Roxanne. Me ver “me apaixonar” pela bolsista vai fazer ela surtar.
Meus lábios tremeram.
— Isso é doentio.
— Isso é estratégia — ele respondeu. — E funciona.
Eu dei um passo pra trás.
— Então eu sou só uma ferramenta.
— Você é a ferramenta — ele disse, com um brilho no olhar. — Afiada. Útil. Perigosa.
O pior? Eu não desgostei de ouvir isso.
Lucien se inclinou de novo, baixando a voz como se fosse um segredo só pra mim.
— Se ele voltar a notar você, eu te ajudo a destruir ela.
— E se ele não voltar? — perguntei.
O olhar dele queimou.
— Aí você é minha.
O ar travou nos meus pulmões.
Eu não me mexi. Não respirei. Não ousei mostrar o quanto aquelas palavras despedaçaram alguma coisa dentro de mim.
Mas ele viu.
Claro que viu.
Lucien Knox Ravenscroft não deixava passar nada. Ele devorava.
— Eu não aceitei nada — falei, com a voz quase firme.
— Sem pressa — ele sussurrou. — Mas a cada segundo que você espera, eles vencem.
Ele se virou pra ir embora, como se aquela conversa não tivesse me esvaziado por dentro. Mas parou, olhando por cima do ombro mais uma vez.
— Fogo fica bem em você, Sloane.
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Descendo pra aula de aeróbica, uma voz me faz parar no meio do caminho.
É a do Matt e da Roxanne; ver os dois juntos é como levar uma facada no peito, o golpe implacável, forte e dolorido.
Eu vi o rosto do Matt.
O braço dele estava em volta da cintura dela enquanto os dois riam de alguma coisa.
— Sério? Ela é tão patética assim? — Roxanne pergunta, com um sorrisinho no rosto e um brilho de deboche no olhar.
— É, foi tão triste ver ela daquele jeito. A mãe dela é uma drogada patética que não consegue controlar a vontade de um baseado, um pó, qualquer droga que conseguir pôr a mão — ele diz, me chocando quando as palavras sobre a minha mãe saem da boca dele.
Um segredo que ele jurou nunca contar pra ninguém.
Um segredo que eu sussurrei pra ele em confiança, com o meu medo de ser rejeitada pelo mundo inteiro pulsando naquele momento.
Como é que ele pôde fazer isso?
Ver a Roxanne caindo na gargalhada esfrega ainda mais o sal na ferida aberta enquanto eu estalo por dentro de tanta dor.
Meus punhos se fecham ao meu lado, a raiva correndo por mim em ondas.
Chega.
Chega de ser a fraca.
Encontrei ele de novo, desta vez no pátio depois do treino da manhã. O suor brilhava no pescoço dele, a camisa do time jogada displicente sobre o ombro. As garotas olhavam pra ele como se ele fosse uma tempestade na qual valesse a pena se afogar, adorando o chão que ele pisava.
E ele? Bom, ele parecia entediado.
Até me ver.
Eu não falei nada de primeira. Só fui andando até ele. Parei frente a frente, quase encostando o pé no dele.
A sobrancelha dele arqueou.
— Mudou de ideia?
Olhei direto nos olhos dele, o coração disparando como trovão no meu peito.
— Você quer guerra? — perguntei.
Ele assentiu devagar.
— Sempre.
Estendi a mão.
— Então vamos queimar tudo.
O sorriso do Lucien se abriu como uma maldita profecia.
Ele se aproximou, se agigantando, inclinando a cabeça até a boca roçar meu ouvido, sem ligar pra quem estivesse olhando.
— Bem-vinda pro lado sombrio, bolsista — ele murmurou, a voz rouca e aveludada.
— Aqui a gente não trabalha com misericórdia.
