Capítulo 3 A GUERRA COMEÇA.
PONTO DE VISTA DA SLOANE
Como eu suspeitava, a Roxanne não esperou pra dar o primeiro golpe. Veio antes da segunda aula do dia, como um veneno silencioso e lento, mas eu senti.
A foto chegou antes da segunda aula.
Eu nem tive chance de respirar.
Lá estava ela, jogada em todos os grupos como se fosse verdade absoluta. Uma foto minha encolhida no colo do Lucien, a cabeça jogada pra trás numa risada, a mão dele na minha cintura, como se eu pertencesse àquele lugar. Como se eu fosse dele.
Uma foto montada, mas por algum motivo todo mundo acreditou, mesmo sabendo que eu e o Lucien nunca andávamos juntos, nem pra trabalho de escola. A ala dele no colégio era completamente diferente da minha, e proibida pros bolsistas.
Mesmo assim todo mundo acreditou, e aquilo se espalhou como fogo em mato seco. O boato saiu correndo pelo colégio inteiro. Eu ouvi os sussurros antes de ver a legenda.
SE VENDENDO PRA PAGAR A MENSALIDADE? O TRABALHO DO PAPAI DE EMPREGADO NÃO DEVE TÁ DANDO CONTA.
Na primeira vez que vi, meu coração não quebrou.
Ele se contraiu. Firme, quente, furioso, pronto pra queimar todo mundo por causa das acusações. Meu primeiro beijo tinha sido hoje, na frente da escola inteira, e não com quem eu quis a vida toda.
Eu não sou como o resto deles; eu tava me guardando pro Matt, pensando no dia em que ele fosse finalmente perceber e torcendo pra que fosse logo. Não tinha como aquilo ser verdade.
Quando o sinal tocou, três boatos novos já tinham surgido:
Um print falso em que eu implorava pro Lucien transar comigo.
Um sussurro de que eu tava grávida dele.
E o pior?
Que eu tava sendo passada de mão em mão, igual prostituta de promoção.
Engraçado como o mundo vira contra você na mesma hora em que você para de ficar quieta.
Bati a porta do meu armário com força e me obriguei a andar em linha reta, costas eretas, queixo erguido, exatamente como o Lucien tinha mandado hoje de manhã. Mesmo quando as pessoas cochichavam alto o suficiente pra eu ouvir, as caretas delas parecendo animais ferozes prontos pra me atacar.
Mesmo quando as meninas se afastavam como se minha pele pudesse contaminar elas, mesmo quando os caras assobiavam quando eu passava, fingindo que não tinham dormido com mais da metade da escola.
Eles queriam me ver queimar, me ver cair, me ver rastejar, mas por algum motivo eu me sentia forte. Talvez fosse o Lucien e o poder dele grudando em mim aos poucos, mas eu fiz uma escolha.
Eu não ia cair. Não por causa deles.
Que se dane o status, o dinheiro dos pais, a riqueza.
Eu não ia dar esse gostinho pra eles.
Virando o corredor, indo pra minha próxima aula, eu paro na hora, ao ver na minha frente a última pessoa que eu queria encontrar.
Matt.
Desviando o olhar, eu tento entrar na sala de aula, mas sou parada de repente quando os dedos dele se fecham no meu pulso.
— Vem comigo — ele disse, me puxando e só parando quando a gente chegou na escada leste.
Um lugar que a gente dividiu muitas vezes, principalmente quando o bullying passava dos limites.
— Slo — ele disse, com a voz suave, melosa, me chamando pelo apelido que ele mesmo tinha inventado anos atrás, como se não tivesse enfiado a faca nas minhas costas menos de um dia antes. — Você não precisa fazer isso. Nós dois sabemos que ele tá te usando.
Puxando meu pulso de volta, eu encarei bem fundo os olhos dele, coisa que eu mal conseguia fazer até ontem, quando eu achava que a gente tinha alguma chance e ele ainda não tinha me traído.
— Você realmente acha que eu preciso ser salva?
A expressão dele se retorceu, ficando condescendente.
— Você é melhor do que isso. Você se importava com o que as pessoas diziam, com o seu futuro. Com a sua reputação. Você era alguém de quem eu teria orgulho, mas agora, você é o quê?
— E você era alguém em quem eu confiava — rebati. — O que aconteceu com isso?
Matt piscou, vacilou por um segundo.
— Você não está sendo racional. A Roxanne só está chateada... —
— Você quer dizer a mesma Roxanne com quem você me traiu? Ou uma nova, que eu ainda não conheço? — cortei ele, sem a menor disposição pra ouvir o que ele tinha pra dizer.
Ele deu um sobressalto.
Eu sorri com isso, um orgulho puro me enchendo ao ver o efeito das minhas palavras nele.
— Slo, só... — Ele começou, mas eu não podia me importar menos.
Não mais.
Eu contornei o corpo dele, sem me dar ao trabalho de olhar pra trás.
— Não me chama assim. Você não tem mais esse direito.
Eu senti antes de ver.
Lucien.
Me observando do corrimão do terceiro andar como um deus olhando o próprio reino, o blazer jogado sobre um ombro, as mangas da camisa arregaçadas até os cotovelos, o maxilar afiado, a gravata solta, como se ele não tivesse nenhuma preocupação no mundo.
Mas ele estava me observando.
Os olhos azuis como o oceano olhando lá de cima pra mim com orgulho, um sorrisinho de canto nos lábios cheios, o cabelo dourado impecável, como se tivesse vontade própria e jamais ousasse estragar a aparência dele.
Ele me encarava de um jeito específico; fez meu coração disparar, meu peito apertar enquanto eu olhava de volta, e alguma coisa em mim mudou quando eu percebi o que aquele olhar queria dizer.
Era como se eu tivesse feito algo que ele aprovava.
Algo brutal. Algo forte.
Como se eu tivesse deixado ele orgulhoso.
E eu gostei.
Na hora do almoço, as chamas já estavam em todo lugar, consumindo tudo e não deixando nada pra trás.
Aquele chat falso? Tinha viralizado, se espalhado pela escola inteira, até os inspetores/janitores sabiam. Eu percebia pelo jeito como eles olhavam pra mim enquanto limpavam o canto deles, os olhos cheios de pena e preocupação.
Eles também eram tratados pior do que animal nessa escola, então cuidavam dos bolsistas em segredo, tratando a gente melhor do que qualquer outra pessoa ali tratava.
O boato de que eu estava grávida? Se espalhou como fogo pela cafeteria, enquanto todo mundo sussurrava alto o suficiente pra eu escutar:
— Você acha que ela vai abortar?
— Hm, sim. O Eldrich com certeza não ia querer uma bolsista grávida do neto dele.
Duas garotas falaram da mesa onde estavam sentadas, o grupinho de cinco rindo enquanto comia salada, os corpos de papel tão finos que quase sumiam quando caiam na risada.
Os cochichos sobre eu estar sendo “passada de mão em mão”? Já nem eram cochichos. Todo mundo falava ao alcance do meu ouvido, sem se importar nem um pouco com o fato de eu também ser humana.
E a Roxanne?
Ela ria mais alto, o sorriso vitorioso colado no rosto como uma tatuagem permanente enquanto circulava pela cafeteria, o único lugar em que os bolsistas e alguns dos ricos ficavam juntos; mas ainda assim dividido por classe. Os bolsistas eram obrigados a sentar na parte mais distante do salão, colados nas lixeiras.
De repente, como se um anjo tivesse sorrido lá de cima, o celular de todo mundo apitou ao mesmo tempo no salão. Alguns vibraram, outros tocaram, e, como se alguém tivesse dado o comando, todo mundo puxou o aparelho pra ver o que estava acontecendo.
Eu também.
De olhos arregalados, li as manchetes na tela, o choque e a confusão me tomando inteira.
As notícias tinham mudado, tudo tinha mudado. Eu encarei as palavras em preto, branco e vermelho no meu celular, em choque.
Havia quatro novos boatos...
Que a Roxanne e o Matt tinham sido pegos no armário do teatro por um professor.
Que o sex tape deles estava circulando.
Que talvez o Matt não fosse tão “leal” quanto fingia ser.
Que a empresa do pai do Matt estava indo à falência.
Que porra??
Quem poderia ter feito isso?
Como se o próprio diabo tivesse sussurrado no meu ouvido “olha pra cima”, eu ergui o rosto, os olhos vasculhando em alerta.
E lá estava ele;
Lucien Knox, porra, Ravenscroft.
