Capítulo 4 UM BOATO MERECE OUTRO.

PONTO DE VISTA DA SLOANE

Não era real.

Mas, na Ravenscroft Academy, a verdade nunca importou.

Só o poder.

E o Lucien?

Ele tinha todo o poder. Essa escola era praticamente o parquinho dele — um campo que o pai tinha dado pra ele; ele era dono de tudo. Ele me olha com um sorrisinho de canto, o brilho de deboche nos olhos enquanto gira o celular na mão, a tatuagem de um ás de espadas lindamente desenhada no dorso da mão direita.

Atordoada, eu me levantei da cadeira, sem me importar nem um pouco com quem estivesse olhando.

Todos os olhos estavam na Roxanne, o novo alvo de todas as fofocas.

É isso que acontece quando o Lucien tira a proteção dele de cima de você — você fica por conta própria, com os lobos e os tubarões prontos pra te cercar.

Quando percebi, já estava no banheiro feminino. Eu precisava de um segundo pra respirar, talvez pra me esconder, com o peso de tudo desabando em cima de mim.

O zumbido da luz fluorescente acima parecia alto demais, o cheiro de sabonete de lavanda chegava a sufocar. Eu agarrei a pia, os nós dos dedos ficando brancos, olhando pra minha própria imagem como se ela pudesse me dar alguma resposta. Meus olhos estavam vermelhos enquanto eu lutava contra a vontade de chorar.

De gritar.

De sair correndo… e me esconder, bem longe dessa escola.

Alguns minutos depois, eu senti que estava voltando ao normal: a respiração foi se acalmando, meus olhos vermelhos desincharam, e eu finalmente consegui respirar sem aquela vontade de me encolher num canto e chorar. O silêncio ajudava; não tinha mais ninguém no banheiro, então eu podia ficar sozinha com os meus pensamentos.

Eu estava enganada.

A porta foi escancarada, a madeira cara bateu na parede com tanta força que eu achei que ia sair das dobradiças; e, mesmo que saísse, os pais fariam outra doação generosa e tudo seria esquecido.

Eu olhei pra figura no espelho; a última pessoa que eu queria ver tinha acabado de entrar. O séquito de patricinhas atrás dela.

Roxanne.

— Você simplesmente não consegue parar de implorar por atenção, consegue? — ela cuspiu as palavras, a voz afiada o bastante pra cortar. — Vagabunda de saia de bolsista. — Ela estreita os olhos, afinando o olhar em fendas que poderiam cortar gelo.

Mas, por algum motivo — talvez fosse o peso de tudo, o medo do meu pai descobrir, do meu pai perder o emprego, a traição do Matt… o poder do Lucien e o jeito que ele parecia ter grudado em mim desde hoje de manhã — eu tomei uma decisão:

Hoje, não.

Nunca mais.

Eu me virei devagar, enxugando as mãos na barra da saia, meus olhos encontrando os dela no espelho antes de eu encará-la de frente. Ela ficou parada, esperando minha resposta, provavelmente achando que eu ia murchar como sempre fazia diante dela.

— Eu até posso ser um caso de caridade — eu disse, a voz calma como uma lâmina congelada —, mas pelo menos eu não venho com nota fiscal.

A boca dela se abriu, a primeira rachadura na fachada de porcelana perfeita. Ela olha pro grupinho de patricinhas, como se precisasse que elas falassem por ela, mas até elas estavam chocadas.

— Você nem é o tipo dele — ela sibilou, o rosto de porcelana ficando vermelho; de vergonha?

De choque?

Eu não sabia, e não me importava.

Dei um passo na direção dela, inclinando a cabeça, estudando-a como quem observa um inseto e decide se vale a pena esmagar.

Ela percebeu, porque deu um passo mínimo pra trás, os olhos brilhando com algo que eu nunca tinha visto nela.

Medo.

— Você é tão de plástico, Roxanne… — eu deixei a pausa se estender, saboreando — …que até as suas mentiras rangem.

Por um momento, ela só ficou ali, o peito subindo e descendo rápido, como se não soubesse se queria me estapear ou chorar, o rosto ficando cada vez mais vermelho a cada segundo que passava.

Eu achei que ela ia pegar fogo.

Então eu senti. O peso de uma presença.

Uma sombra se moveu logo além da porta, e uma figura alta surgiu, confiante, se revelando. O sorriso de canto ainda estava no rosto, que brilhava com algo.

Satisfação.

Lucien.

Ele se recostou casualmente na parede, as mãos nos bolsos, observando como se tivesse todo o tempo do mundo. Não disse uma palavra.

Não precisava.

Roxanne se vira, percebe a presença dele e, como uma criança, recua em choque ao vê-lo. Alguns segundos depois, enquanto a gente esperava ela fazer alguma coisa, ela simplesmente saiu pisando duro, como uma criança mimada, resmungando enquanto andava.

O séquito dela foi atrás, seguindo a abelhinha-rainha como robôs sem cérebro.

Lucien inclina a cabeça pra mim, me dando a aprovação dele, antes de se afastar.

Mais tarde naquele dia...

O corredor estava mais escuro do que o normal quando eu saí, como se o prédio inteiro estivesse prendendo a respiração. As aulas estavam quase terminando. Os alunos saíam das salas para o grande corredor, enorme o bastante pra comportar um milhão de pessoas ao mesmo tempo, e os uniformes caros só aumentavam o clima de classe e riqueza no ar.

Saí da sala, me esforçando ao máximo pra não procurar pelo Matt; ele e eu geralmente íamos embora juntos.

Lucien ainda estava lá. Como se estivesse me esperando, ele levantou o olhar no exato momento em que eu saí da sala e entrei no corredor.

Ele se desencostou da parede, endireitando o corpo, um sorriso lento curvando a boca, enquanto vinha em minha direção. As pernas longas se moviam com a segurança de quem nasceu pra passarela.

— Você viu o boato novo? — perguntei.

Um brilho perigoso acendeu nos olhos dele.

— Um boato merece outro — ele disse, dando de ombros com preguiça.

Nós dois sabíamos que ele estava falando daquele que ele já tinha soltado — o da Roxanne e do Matt e de uma sex tape “vazada” convenientemente. Tinha se espalhado como fogo antes que as cinzas do primeiro boato sobre mim pudessem sequer baixar.

Mas agora ele não estava interessado em defesa. Ele estava em modo de ataque.

— Vamos brincar, princesa — ele disse, se aproximando até eu conseguir sentir o calor do corpo dele.

— As pessoas sabem que isso é falso — falei pra ele. — Elas sabem que você não me quer. — A sensação era de que todo mundo estava olhando pra gente, e provavelmente estava mesmo.

O corredor ficou, de repente, em silêncio. Tão silencioso que dava pra ouvir até um alfinete caindo.

Eu não era o tipo dele. Era nerd demais, inteligente demais, e, com certeza, pobre demais.

O sorriso de canto de boca dele se aprofundou e, por um segundo, pareceu quase verdadeiro — como se tivesse uma verdade ali embaixo que ele não estava pronto pra admitir.

— Eles acham que eu tô fingindo também — ele murmurou. — Que eu não te quero.

Deu vontade de perguntar se ele queria.

Se ele me queria.

O espaço entre nós diminuiu quando ele chegou ainda mais perto, o corpo magro e musculoso encostando no meu, a eletricidade estalando no ar. Meu pulso batia tão forte nos ouvidos que quase parecia um zumbido enquanto eu encarava aqueles olhos azuis de oceano; os globos eram tão lindos que podiam sugar a alma de alguém sem resistência.

Então ele disse, baixinho:

— Quer provar que eles estão errados? — sussurrou no meu ouvido, as mãos envolvendo a minha cintura. Ele cheirava tão bem que me deu vontade de inspirar fundo o cheiro dele.

Eu devia ter rido. Devia ter revirado os olhos, dado um passo pra trás e lembrado ele de que aquilo era um acordo, um jogo.

Em vez disso, eu dei um passo à frente, fechando qualquer espaço entre nós, encorajada pela presença dele e pelo impulso de todo mundo nos observando.

E eu beijei ele.

Foi como acionar um interruptor.

Num segundo, a boca dele estava só quente contra a minha. No seguinte, a mão dele se enroscou no meu cabelo, me puxando pra mais perto, os lábios famintos, como se ele quisesse consumir o ar que eu respirava.

O mundo de Ravenscroft High girou. Eu agarrei a jaqueta dele, não porque eu precisasse, mas porque eu queria me ancorar, impedir que meus joelhos cedessem de tão bom que aquilo estava.

Quando finalmente me afastei, eu respirava rápido, os lábios formigando.

— Você disse que era de mentira — sussurrei, o coração martelando ainda mais alto nos meus ouvidos enquanto eu tentava recuperar o fôlego e parecer que não estava tão abalada com o quanto aquele beijo tinha sido bom.

— Isso aí — ele disse, com um sorriso lento e perverso — pareceu bem real.

E Deus me ajude, ele tinha razão.

— Senhorita Bishop.

A voz cortou a névoa, afiada como vidro.

Eu me virei e vi a senhora Vale, minha professora de Literatura e Artes, vestida toda de seda preta, impecável, a caneta-tinteiro firme entre os dedos como se pudesse empalar alguém com ela.

— Sim, senhora Vale — respondi, dando um passo pra longe do calor de Lucien.

— A sua presença é requerida na sala de artes — ela disse, num tom seco. O olhar dela passou por ele, inescrutável, enquanto ela apertava os lábios... como se estivesse segurando alguma coisa.

Comecei a seguir, mas a mão do Lucien segurou a minha, me puxando de volta com força suficiente pra eu tropeçar contra o peito dele. E então a boca dele estava na minha de novo — imprudente, sem desculpas, bem ali, sob as sobrancelhas perfeitamente arqueadas e o olhar crítico da senhora Vale.

Quando ele finalmente me soltou, os lábios roçaram o meu ouvido.

— Vou estar te esperando.

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