Capítulo 1 Dinheiro que salva vidas

No departamento de oncologia do hospital,

eu estava deitada quieta na cama. Minha amiga Nova Ramirez, com as mãos nos bolsos, parecia muito decepcionada.

— Enquanto o seu marido está tendo um momento romântico com outra mulher no mar, você, Amelia Martinez, desmaiou na rua e foi trazida pro hospital por desconhecidos.

Ela pegou o celular e me mostrou a notícia que estava no topo dos assuntos mais comentados.

Num jantar em um cruzeiro, uma mulher olhava surpresa para o pedido de namoro feito por drones no céu, enquanto um homem de terno preto se apoiava de leve no corrimão, olhando pra ela com ternura.

Uma série de comentários vinha em seguida.

[O Henry é muito rico! Eles formam um casal perfeito!]

[Que romântico, ouvi dizer que esse tipo de show com drones custa pelo menos cem mil dólares. Queria tanto ter um namorado assim!]

[Ouvi dizer que é a primeira vez que o presidente do Grupo Phillips assume publicamente um relacionamento, olha o tamanho daquele anel de diamante! Ele ama muito ela!]

Eu apertei os lábios, sem sentir nenhuma mudança de emoção no peito.

Ao ver a minha reação, Nova não disse mais nada; só suspirou e voltou pro computador pra continuar trabalhando no caso.

— A gente te deu comprimidos de morfina de liberação prolongada, que aliviam a dor por um tempo. Mas você já desenvolveu resistência à pyrotinibe, então precisamos mudar o esquema de tratamento.

A dor leve nos ossos me fazia sentir frio no corpo inteiro. Esfreguei os braços e me sentei na cama.

— Tem algum remédio que cure? — perguntei.

Nova revirou os olhos pra mim; ela não aguentava quando eu falava assim.

Digitando no teclado, respondeu irritada:

— No momento, a Faculdade Cascade e um laboratório estrangeiro estão desenvolvendo em conjunto um novo medicamento alvo pra câncer ósseo avançado. Você pode tentar. Deve funcionar.

— Mas eu não tenho dinheiro — falei, num tom neutro.

Nova xingou baixinho:

— Filho da mãe.

Ela se levantou, me entregou a receita e falou entre dentes:

— O Henry Phillips devia ser amaldiçoado!

— Ele não sabe que eu tô doente — eu disse baixinho.

Nova fez sinal de silêncio com o dedo nos lábios.

— Não arruma desculpa pra ele. Não foi você que terminou com ele na formatura e foi embora pro exterior? Foi uma decisão em comum acordo. Já que ele casou com você agora, quer dizer que não guarda rancor. Como é que um presidente de uma empresa desse tamanho não te dá, pra própria esposa, nenhum dinheiro? Absurdo!

Eu sorri, amarga.

Nenhum rancor?

O Henry não se casou comigo porque não se importava; ele se casou só pra se vingar.

Na nossa noite de núpcias, ele saiu de casa e, embora não dissesse onde tinha ido, a marca nítida de batom no pescoço quando voltou bêbado no dia seguinte explicava tudo.

Talvez por eu não reagir, ele tenha piorado depois. Quase todas as noites, ele trazia mulheres diferentes na minha frente.

Eu estaria mentindo se dissesse que isso não doía.

O Henry sempre foi muito liberal com sexo, e toda vez que eu ouvia aqueles sons ambíguos, de deixar qualquer um vermelho, vindo do quarto, eu não conseguia evitar a náusea.

Uma vez, não aguentei e irrompi lá dentro.

Eu achei que o Henry fosse se conter um pouco, mas, inesperadamente, ele simplesmente pegou a mulher da cama e transou com ela na minha frente. Eu desabei na hora, jogando tudo que estava em cima da mesa no chão.

Mas ele só deu um sorriso de desprezo.

Segundo ele, eu merecia aquilo por ter traído todos os sentimentos verdadeiros dele.

Eu ri de mim mesma.

— Talvez eu mereça.

A Nova franziu a testa, preocupada.

— Que besteira é essa! Só foca no seu tratamento, vai chegar o dia em que o Henry vai se arrepender.

— Vou marcar uma consulta com o professor da Faculdade Cascade pra você. Eu cubro as despesas médicas por enquanto, mas não sei quanto o resto do tratamento vai custar, então é bom você se preparar.

Eu fiquei muito agradecida e já ia agradecer quando a Nova me interrompeu.

— Não vem com formalidade comigo, não. Só se cuida e não me faz ficar apagando incêndio seu o tempo todo.

Eu sorri e assenti. A Nova vinha gastando dinheiro e energia com a minha doença; eu não podia continuar arrastando ela pra baixo.

Ao sair do hospital, no caminho pra casa, recebi uma ligação do pessoal da doceria.

— Senhora Phillips, o bolo de aniversário que a senhora encomendou está pronto. Podemos entregar agora?

— Não precisa. Podem descartar, por favor. Obrigada. — Ninguém ia comer se chegasse em casa mesmo.

— A senhora tem certeza de que não vai querer?

Respondi, seca:

— Tenho.

Agora, eu não precisava de nada além de dinheiro pra salvar a minha vida.

Quando voltei pra mansão, acabei dando de cara com o assistente do Henry, o Ryan Martin.

Ele estava segurando uma sacola de roupa masculina e, quando me viu, ficou visivelmente surpreso. Depois se recompos rapidamente e me cumprimentou:

— Senhora Phillips, a senhora já voltou.

Eu assenti, fria, sem vontade de conversar.

O Ryan me olhou de relance e hesitou:

— Senhora Phillips, a senhora não tem estado muito bem ultimamente. Quer que eu avise o senhor Phillips?

Eu olhei pra ele, surpresa.

Desde quando o Henry se importava com o meu estado?

Mas, por impulso, ainda perguntei:

— Hoje é meu aniversário. Que horas o Henry volta?

Os olhos do Ryan brilharam de leve com um traço de pânico, mas logo voltaram ao normal.

— O senhor Phillips tem uma reunião internacional. Ele me pediu pra vir buscar umas roupas. Provavelmente não volta hoje à noite...

Antes que ele terminasse, eu me virei e subi as escadas.

Na porta do quarto, havia uma caixa de presente muito bem embrulhada, com um cartão onde se lia:

“Para Amelia, a melhor amiga do mundo, que você não tenha preocupações e que todos os seus desejos se realizem. A felicidade cura todas as doenças!”

Assinado: [Nova.]

Eu me senti bem melhor e abri. Dentro, havia uma vela aromática muito delicada.

No quarto, eu acendi a vela, fiz um pedido e depois apaguei.

Enquanto a fumaça morna, perfumada e cinza-clara subia devagar, meu celular apitou.

Era uma notificação de transferência da conta pessoal do Henry, embora normalmente fosse o Ryan quem administrasse.

A mensagem era simples: [Feliz aniversário.]

Era óbvio que tinha sido o Ryan que enviou, pra tentar compensar.

Eu ri de mim mesma, sem imaginar que meu desejo fosse “se realizar” tão rápido.

Depois de receber o dinheiro, mandei mensagem pra Nova, pedindo pra ela me ajudar a marcar uma consulta com o médico que estava pesquisando o remédio-alvo.

Logo, recebi a resposta dela:

[Amanhã, 11h30, restaurante Beira-Lago Leafview, dr. Brian Scott.]

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