Capítulo 6 Despesas de subsistência
Henry gritou:
— Você ainda empurrou ela?
Eu franzi a testa.
— Não empurrei, ela encostou no meu ferimento.
Henry lançou um olhar pro meu braço, sem dizer nada.
Os olhos da Aria se encheram de lágrimas e ela falou, magoada:
— A culpa foi minha. Eu assustei a Amelia.
Henry puxou ela pros braços e examinou com cuidado.
— Você se machucou?
Aria balançou a cabeça.
— Não, só é uma pena o mingau que eu tinha acabado de fazer.
O rosto do Henry escureceu ainda mais quando ele trouxe a Aria até ficar na minha frente.
— Amelia, o médico não disse que seu estado era grave? Esse é todo o machucado que você tem?
Ele olhou pra atadura no meu braço com ar de deboche, o tom cheio de desprezo:
— Ontem você falou que ia fazer uma cirurgia e pediu pra eu assinar, e hoje aparece com outro corte no braço; você realmente tem muitos truques.
Henry debochou:
— Eu não sabia que um ferimento no braço exigia internação.
Aria também desaprovou:
— É mesmo, Amelia, não assusta a gente assim da próxima vez. Quando o médico ligou hoje de manhã, eu e o Henry ainda estávamos descansando. A gente achou que tinha acontecido algo sério.
Eu fiquei olhando quieta pra eles, sem dizer nada. Estava em jejum desde a noite passada e, depois de perder muito sangue, minha visão estava meio embaçada.
Mas o rosto indiferente do Henry continuava transpassando meu coração. Ele nunca acreditou em nada do que eu disse, nunca se importou comigo.
Uma parte de mim foi congelando aos poucos, e parecia que já não doía tanto assim.
Começaram a chamar os pacientes pra sala de exame, eu ouvi meu nome e caminhei até lá.
Henry me deteve:
— Vai embora assim, depois de as suas mentiras serem desmascaradas?
Ele se aproximou de mim:
— Você ainda tá devendo um pedido de desculpas pra Aria.
Eu estava exausta.
— Henry, você faz questão de brigar comigo dentro do hospital?
Talvez porque meu rosto não estivesse nada bom, ele ficou surpreso por um instante e não me segurou mais.
A porta da sala de exame se fechou com força, e eu ouvi o Henry perguntando à enfermeira que tipo de exame era aquele.
Quando eu saí, eles já tinham ido embora.
De volta ao quarto, havia um café da manhã reforçado na mesinha ao lado da cama.
Antes que eu perguntasse qualquer coisa, o acompanhante do paciente ao lado piscou pra mim:
— Foi um gato lindo que trouxe.
Achei um pouco engraçado. Mas eu não tinha muita força.
Sem pensar demais, me apoiei na cabeceira e terminei o café da manhã.
De manhã, a enfermeira veio colocar o soro, e na hora do almoço, o acompanhante do leito ao lado viu que eu estava sozinha e, por bondade, se ofereceu pra trazer comida pra mim.
Pedi pra ela trazer alguma coisa pra eu comer. Eu tinha cirurgia marcada pro dia seguinte, então precisava comer direito nos horários.
Na visita médica, o Brian trouxe meu laudo dos exames e comentou:
— Os indicadores estão basicamente normais, mas o seu estado físico tá muito fraco.
Ele franziu levemente a testa:
— Eu receitei uns suplementos pra você, e mais tarde vai precisar de outro soro.
Eu assenti, obediente.
Brian perguntou:
— Ah, e a sua família, vem que horas pra assinar?
Respondi de leve:
— Eu mesma assino, ele realmente não pode vir.
Brian franziu a testa:
— Mas ele não veio trazer comida pra você hoje de manhã?
Pensei que ele estivesse falando da cena no primeiro andar e não respondi.
Brian estava atarefado; só disse que a enfermeira ia trazer o termo de consentimento pra eu assinar mais tarde e seguiu com a visita.
À tarde, a enfermeira veio aplicar os suplementos e trouxe o termo de consentimento pra eu assinar.
A cirurgia foi marcada para as dez horas do dia seguinte. De manhã, mandei uma mensagem para a Nova.
Logo ela respondeu: [Boa sorte, Amelia. O Brian é um médico excelente; com ele aí, vai dar tudo certo. Quando você melhorar, eu vou te ver.]
Ao ler aquilo, não consegui evitar um sorriso.
Às dez em ponto, a enfermeira me levou de maca para a sala de cirurgia.
Sob a claridade intensa do foco cirúrgico, o rosto do Brian parecia ao mesmo tempo familiar e estranho.
Ele usava máscara, a expressão concentrada, sem o menor traço de emoção a mais.
Ao ver o jeito sério dele, meu coração, que estava tenso, acabou se acalmando bastante.
A anestesia começou a fazer efeito. Meu corpo foi ficando gelado e, meio atordoada, eu ouvi a voz do Henry.
Parecia que eu tinha tido um sonho muito longo. No sonho, na cerimônia de formatura, eu ainda recusava o pedido de casamento do Henry.
Num quartinho alugado, o Henry estava sentado no chão, cercado de garrafas de bebida. Ao lado dele, um celular que só dava linha ocupada, com o contato “Amelia”.
A cena mudou, e ele já era o CEO mais jovem de Luminous City.
Depois, já era na Mansão Phillips. O Henry levava mulheres diferentes para lá, se divertindo com elas dia e noite.
Eu ficava sentada na porta do quarto, encolhida de dor. Doía demais.
O frio que vinha dos ossos me fazia tremer inteira. O barulho dos meus dentes batendo ficava cada vez mais alto.
De repente, uma fisgada aguda me atingiu, e eu acordei do sonho. O lugar em volta já não era mais o meu quarto de antes.
Ao me ver acordada, a enfermeira correu até o consultório médico.
Pouco depois, o Brian, de jaleco branco, veio às pressas. “Como você está se sentindo?”
Ele parecia aflito e, quando me viu assentir devagar, soltou um suspiro de alívio. “A cirurgia foi muito bem-sucedida, mas você ainda precisa ficar em observação por mais alguns dias. Se não aparecer nada de anormal, o perigo passa.”
Pisquei, sem conseguir falar. Eu era a única paciente na UTI.
Uma enfermeira exclusiva cuidava de mim. Tomei uns goles de água e, com esforço, peguei o celular para ligar.
Só havia algumas mensagens e chamadas perdidas da Nova.
Com medo de ela ficar preocupada, liguei de volta depressa.
Ela atendeu rápido e, antes que eu falasse qualquer coisa, a voz aflita da Nova veio do outro lado da linha: “Como você tá? Tá se sentindo melhor?”
Ao ouvir a voz familiar dela, minha garganta apertou, mas eu me controlei. “Tô bem, nada demais, desculpa ter te deixado preocupada.”
Forcei a voz para parecer animada.
A Nova perguntou como eu estava me sentindo, me deu alguns conselhos e disse que ia me visitar quando tivesse um tempo, depois desligou a contragosto.
Os dias na UTI eram meio entediantes.
O Brian não me deixava sair da cama; ele dizia que meu estado físico estava muito fraco e que eu precisava descansar bem por alguns dias.
Quando eu estivesse em melhores condições, aí sim poderia começar a me movimentar.
Embora a cirurgia tivesse sido um sucesso, eu ainda precisava continuar o tratamento com medicamentos. E as minhas despesas de hospital já estavam quase no limite.
Abri o status da Aria: ela e o Henry tinham ido para Dreamscape Atoll.
A paisagem linda da ilha, o sol brilhando forte.
Olhei para os sorrisos deles sem expressão nenhuma. Levantei a mão e mandei uma mensagem para o Henry: [Me transfere quinhentos mil dólares como despesas deste mês.]
Enquanto eu estava internada, ele tirava férias com a amante. Pedir esse valor, eu não achava demais.
Afinal de contas, eu ainda era a esposa dele.
