Capítulo 5 Como não morrer aqui
Rae
Aperta nisso. “Como é que você espera que eu aperte nisso?”, pergunto, erguendo os olhos para a mão dele, que fica acima da cabeça, presa nas correntes.
Ele dá um leve encolher de ombros e sorri de canto. “Sobe.”
Certo. Sim. Claro. Rae boba. É só escalar o fae perigosamente lindo como se ele fosse uma árvore. Engulo em seco, ponho a cesta com cuidado no chão e faço que sim com a cabeça. Tá. Eu sei escalar uma árvore. Eu consigo escalar um fae. Provavelmente. Talvez. Com certeza as habilidades se transferem. Dou alguns passos para trás para tomar impulso e me lanço nele.
De algum jeito, consigo passar as pernas em volta da cintura dele. Ele mal se mexe, como se eu não fosse mais do que uma folha se atirando contra uma montanha. Apoio as mãos no peito dele, imediatamente ciente de que isso foi uma péssima ideia, depois deslizo até os ombros e me esforço muito para não pensar no fato de que estou escalando um fae gigante, ensanguentado e quase nu dentro de uma cela.
“Pelas colinas sagradas, Saoirse, eu queria que você estivesse vendo isso”, diz o divertido. “Ela tá escalando ele mesmo.”
Eu o ignoro e me ajeito para subir mais, o estômago revirando enquanto estico o braço para alcançar uma das mãos de Cian. A essa altura, minha barriga está praticamente na cara dele, e a respiração dele, quente, encosta na faixa de pele onde minha camisa subiu. Merda.
Por fim, consigo agarrar uma mão enorme e enfio a minha dentro dela. Dou um aperto rápido e desajeitado, então me desembaralho e desço às pressas, aterrissando no chão firme com toda a graça de um saco de batatas caindo — Cian sorri para mim, lento e satisfeito. “Certo”, ele diz. “Então está combinado.”
“Certo. Agora...”, começo, mas paro ao ver a expressão no rosto dele. “Você, ah... tá bem aí?” O sorriso dele enfraquece um pouco. “Talvez eu desmaie de novo. Eiran e Saoirse vão ajudar a preparar você.” E, com isso, os olhos dele se fecham. A cabeça tomba para trás, encostando na pedra. O pouco de vida que ainda o mantinha ereto parece escoar de uma vez só, deixando só pele demais esticada sobre músculo demais. Eu encaro ele por um segundo inútil. Então me viro de novo para o gigante sorridente do outro lado do corredor.
“Certo, docinho. Vamos colocar você a par. Eu sou Eiran. Aquele é Saoirse, em algum lugar mais pra baixo na fileira. Nós”, acrescenta, gesticulando em volta das celas, “somos o Povo da Colina Oca. E você, humana pequena, está prestes a se infiltrar em Bright Thorn.” Certo. Sim. Essa parte eu sei. Pego minha cesta do chão e a aperto contra o peito.
“Tá. Por que vocês todos estão aqui embaixo?”
Saoirse responde, com a voz mais baixa que a de Eiran. “Existem cortes diferentes, lealdades diferentes, e ideias muito diferentes sobre o que deve ser feito com as estradas entre os mundos.”
“Os caminhos antigos”, Eiran acrescenta. “As passagens. Círculos. Montículos. Lugares ocos. Lugares onde o nosso mundo e o seu ficam próximos demais.”
“E Bright Thorn e Hollow Hill discordam?”, pergunto.
“Esse é um jeito de dizer”, Saoirse responde.
Eiran solta um resmungo baixo. “Cian é o príncipe de Hollow Hill. Bright Thorn quer o que restou da nossa corte e do nosso povo. Eles nos mantêm aqui há muito tempo. Sangrando ele sobre a pedra de proteção pela qual você, tão prestativa, deixou cair.” Meus olhos voltam a Cian antes que eu consiga impedir. Isso é horrível. A voz de Eiran fica um pouco mais dura. “Então agora precisamos colocar você a par das regras, humana pequena, pra você não acabar morta, presa, casada, em dívida ou comida antes que a gente consiga sair daqui e voltar pra casa.” Ótimo. Casa. Minha cabana, a mata, chá, nada de príncipes fae gigantes e ensanguentados. Esse é o objetivo agora, Rae.
“Certo. Manda.”
Eiran levanta um dedo. “Primeiro. Não dê seu nome completo a ninguém.”
“Por quê?”
“Porque nomes têm peso”, diz Saoirse. “Dados de graça, podem ser usados. Chamados. Amarrados. Puxados.”
Eu franzo a testa. “Então o quê, eu só... minto?”
“Você encurta”, diz Eiran. “Você corta. Você dá a eles algo descuidado, humano e incompleto.” Eiran levanta um segundo dedo. “Não agradeça com tanta facilidade.”
“O que isso quer dizer?”
“Gratidão pode virar reconhecimento. Reconhecimento pode virar obrigação. Obrigação pode virar dívida.”
Eu encaro ele. “Você está brincando.”
“Não estou.”
Saoirse fala de novo. “Se um deles te der alguma coisa, te ajudar, te alimentar, te libertar, e você agradecer sem cuidado, alguns vão ouvir uma dívida nisso.”
Eu pisco para os dois. “Isso é psicopata.”
“Isso é feérico”, diz Eiran.
Eu aperto os lábios. “Certo. Óbvio. Continue.”
Um terceiro dedo se ergue. “Não prometa nada de ânimo leve.”
Eu solto uma risadinha incrédula. “Isso parece o tipo de informação que eu teria adorado ter antes de fazer um acordo com o seu príncipe.” Eiran sorri, e eu aperto mais a alça da cesta quando uma sensação lenta e horrível vai subindo pela minha espinha. “O que acontece se eu prometer alguma coisa idiota?”, pergunto.
“Aí eles podem cobrar que você cumpra”, diz Saoirse. “Especialmente se houver testemunhas. Especialmente se houver aperto de mãos.” Eu olho para a minha própria mão. Ah, Rae, hoje a gente só está tomando as piores decisões. Eiran parece encantado ao levantar um quarto dedo.
“Não coma nem beba nada que Bright Thorn oferecer, a menos que você tenha que fazer isso.” Saoirse continua: “Comida pode ser hospitalidade. Hospitalidade pode virar laço. Laço pode virar obrigação. Algumas comidas são inofensivas. Outras não. Algumas servem para fazer você esquecer. Outras servem para fazer você ficar.”
Na mesma hora, eu abraço a cesta com mais força. “Mas eu posso comer a minha própria comida, né?”
“Sim”, diz Saoirse.
“Graças a Deus.”
Eiran levanta mais um dedo. “Não aceite presentes.”
“Mesmo se forem bonitos?”
“Principalmente se forem bonitos.”
Eu suspiro. “Por quê?”
“Porque presentes raramente são presentes”, diz Saoirse. “São anzóis. Reivindicações. Testes. Às vezes, convites. Às vezes, correntes disfarçadas de favores.”
Eu fecho os olhos por um segundo. “Mais alguma coisa? Ou já cobrimos a maioria das formas de eu arruinar minha vida ainda mais por acidente?”
O sorriso de Eiran fica cortante. “Mais algumas. Não siga música. Não vá a lugar nenhum sozinha se pedirem com doçura. Não pise em nenhum círculo, portal, anel, arco ou limite marcado sem pensar antes. Não deixe que eles te conduzam pela mão.”
“Por quê?”
“Porque, quando um feérico guia e você segue por vontade própria”, diz Saoirse, “isso pode importar mais do que você gostaria.”
Minha risada sai fraca. “Incrível. Então, basicamente, eu respiro errado e estou condenada.”
“Mais ou menos”, diz Eiran, dando de ombros.
“Como é que vocês conseguem funcionar assim?”
“Nós nascemos nisso”, diz Saoirse.
Um som de batidas começa no corredor, e os pelos dos meus braços se arrepiam. O sorriso de Eiran desaparece. Tudo o que havia de brincalhão nele se dobra para dentro, some. “Certo”, ele diz. “Eles estão vindo.”
Meu coração despenca. Ele aponta para a minha cesta. “Pega isso.” Eu a ergo mais contra o peito. “Agora vai pro canto mais longe do Cian e chora. Você está mortificada, nós somos aterrorizantes, e você precisa de ajuda. Você tropeçou numa passagem e encontrou monstros. Entendeu?”
“Pra falar a verdade”, eu sussurro, recuando até o canto mais distante, “essa parte não vai ser difícil.”
