Capítulo 1 Indo para casa
“Gatinha.” A voz veio profunda e sugestiva atrás dela. Fazendo o estômago de Nicky se contrair e o corpo esquentar de um jeito que não acontecia havia anos. Ela deixou os olhos se fecharem por só um instante, um suspiro atravessando-a numa onda morna, antes de se virar para encará-lo.
Sexy pra caralho com o moletom preto do Denver Avalanche e um jeans azul gasto que se ajustava às coxas poderosas. Alto, cada centímetro dele ondulava de músculos de dar água na boca. O moletom não escondia os ombros largos nem o peito definido. Mandíbula forte coberta por uma barba por fazer, cabelo castanho curto, aparado — que ela tinha certeza de que ainda era comprido o bastante para enrolar os dedos. Olhos cor de avelã que sempre fizeram mulheres derreterem numa poça aos pés dele.
Gage Ryker.
O melhor amigo dos irmãos dela. O garoto que ela queria de um jeito que não era permitido. Seu parceiro de provocações. Confidente. Espelho. Valentão. Eles tinham passado a infância apertando os botões um do outro, ignorando a única coisa que sempre viveu e respirou entre eles. Não era ódio. Era uma atração que nenhum dos dois queria, mas da qual também não conseguia se afastar por completo.
Ele sempre fora confiante, dominando qualquer ambiente em que entrasse sem nem tentar. Se movia com uma facilidade como se o mundo não importasse para ele — ele só estivesse nele. Um líder; as pessoas o admiravam. O seguiam sem questionar. Ele parou diante dela com os polegares presos nos bolsos da frente, um sorriso de canto familiar no rosto, os olhos brilhando.
“Ryker.” Ela não disse o nome dele. Ela o soprou. Como uma paixonite idiota de menina. Nicky se xingou por dentro. Burra pra caralho. Se controla.
“Ouvi dizer que a encrenca ia voltar pra cidade.” Gage falou, um sorriso puxando o canto da boca. O olhar dele desceu, percorrendo-a com crítica, fazendo-a ficar autoconsciente de um jeito que só ele conseguia. “Você tá bem.”
“Eu sei.” Nicky respondeu, escondendo o friozinho animado no estômago com um sorriso confiante, jogando o cabelo para trás do ombro com atitude.
Ela estava linda pra caralho. Cinco anos, e tinha passado de uma adolescente bonitinha a uma deusa. Cheia de curvas e macia nos lugares certos. O top curto mostrava um decote impressionante, a cintura marcada e um piercing no umbigo que ela não tinha quando foi embora. O jeans era justo, abraçando as coxas e a bunda, baixo no quadril. O cabelo castanho-escuro caía pelas costas num emaranhado de ondas e cachos, como se ela nem tivesse tentado domá-los. Os olhos verdes, profundos e expressivos. Cheios de atrevimento e atitude, exatamente como ele se lembrava.
Ele era obcecado por ela desde que se entendia por gente. A irmãzinha do melhor amigo. Proibida. Quatro anos mais nova, ela praticamente tinha seguido os dois por toda a infância. Gage e Brad raramente iam a algum lugar sem Nicky logo atrás. Uma narradorazinha irritante das atividades deles, com seu sarcasmo atrevido. Completamente alheia ao efeito que causava nele. Não que ele algum dia tivesse deixado transparecer. Ele passou a maior parte da vida tentando ignorar aquilo.
Quando ela tinha saído de casa para a faculdade, eles mantiveram as provocações por mensagem, incapazes de se largar por completo. Memes, vídeos, piadas. Coisinhas. Ele contava sobre um jogo. Ela contava sobre uma aula. Ele contava sobre a mais recente parceira de cama. Quando ela foi morar com Jeremy, ele achou que a tinha perdido. Perdido qualquer coisa que pudesse ter existido. Mas agora ela estava de volta. Indo morar na casa que ele dividia com o melhor amigo, Brad, a namorada do Brad, Cia, e a filhinha deles, Remy.
— Onde está o Brad? — perguntou Nicky.
— Bem aqui, garota. — disse Brad, surgindo por trás de Gage para envolvê-la num abraço, erguendo seus pés do chão. Nicky passou os braços ao redor do pescoço dele e inspirou fundo o perfume, doce e terroso. Brad era bobo, idiota e incansavelmente irritante. Mas, por mais que ela tivesse feito merda. Por mais que tivesse tirado a mãe do sério. Ele sempre estava ali, do lado dela. O porto seguro dela.
Dois dias antes, ela tinha pegado o namorado na cama com outra mulher. Nicky ficou furiosa. Ela gritou, foi para cima dele. Num segundo, ele passou de arrependido e cheio de desculpas a agressivo e ameaçador. Antes que ela entendesse o que estava acontecendo, ele já a tinha agarrado pelo cabelo e a estava jogando contra a parede. Ele pressionou o rosto dela contra a parede, colando por trás, a boca roçando a orelha dela enquanto dizia que ela não tinha o direito de ditar o relacionamento deles.
Ele ia transar com quem quisesse, quando quisesse, do jeito que quisesse. E isso tinha incluído ela. Ele a apalpou, apertando os seios dela, esfregando-se nela por cima da roupa. Com a respiração quente na orelha dela, cravou os dentes no ombro dela. Ele puxava a roupa dela, gemendo quando a mulher na cama choramingou o nome dele. Ele empurrou Nicky para uma cadeira e voltou para onde a outra mulher o esperava na cama.
Nicky ficou em choque. Apavorada. Nunca tinham tratado ela daquele jeito. Levou um minuto para se recompor e sair daquele torpor. Ela conseguiu escorregar para fora do quarto sem ser notada. Pegando a bolsa de dança e a bolsa dela, saiu correndo, deixando todo o resto para trás. Com apenas cem dólares no bolso, foi para um motel imundo. Às duas da manhã, ligou para ele, e Brad atendeu sem irritação nem acusações. No dia seguinte, ele colocou ela num voo de volta para casa.
Agora, com os braços dele ao redor dela, as lágrimas voltaram a encher seus olhos, apertando sua garganta. Ela tinha se mantido firme durante as dez horas de viagem. Mesmo quando o celular começou a explodir de mensagens, ligações e chamadas de vídeo do Jeremy. Ela se sustentou na raiva da cara de pau dele. Nicky não era uma flor murcha. Não era o tipo de garota que se deixa controlar. Quem ele achava que era? Ela bloqueou ele, erguendo muros altos em torno do medo que ele tinha provocado. Da sensação de impotência. Agora, esses muros desmoronavam. A respiração dela enganchou num soluço, e ela enfiou o rosto no pescoço do Brad.
